BAHIA

Emboscada e 18 golpes: o homicídio chocante do padre que se negou a pagar ‘mesada’ para um criminoso

A morte do padre Francisco Carlos de Souza é um dos crimes mais chocantes registrados em Salvador na última década. Conhecido pelo trabalho religioso e pela atuação como psicólogo, o capelão do Santuário Mãe Rainha, no Stiep, foi encontrado morto no dia 5 de outubro de 2014 em um terreno próximo à praia de Stella Maris. O corpo apresentava 18 perfurações provocadas por um chuço, que é uma arma artesanal feita a partir de vergalhão de ferro.

O caso inicialmente foi tratado como um desaparecimento. Segundo a Arquidiocese de Salvador, padre Francisco havia saído de casa, no Costa Azul, para celebrar uma missa marcada para as 16h. O atraso chamou a atenção dos fiéis e provocou preocupação entre familiares e amigos, que passaram a telefonar insistentemente para o celular do religioso sem obter resposta.

Enquanto a busca pelo padre mobilizava pessoas próximas, a polícia já havia localizado um corpo em uma área de matagal nos arredores da Alameda Praia do Flamengo, em Stella Maris. A vítima estava sem documentos, vestindo bermuda e camiseta. No bolso, apenas um telefone celular. A identificação oficial só ocorreria posteriormente.

Os últimos momentos

As investigações revelariam uma sequência de acontecimentos muito diferente daquela imaginada pelos fiéis que aguardavam a missa dominical. Na manhã daquele domingo, padre Francisco havia celebrado uma cerimônia religiosa normalmente. Horas depois, foi atraído para um encontro em Stella Maris.

Segundo a polícia, ele mantinha contato frequente com Robson de Souza Oliveira, conhecido como “Tito”, cujo número aparecia dezenas de vezes no histórico do celular da vítima. Os investigadores descobriram que, apenas entre 9h28 e 12h48 daquele dia, Robson realizou 49 ligações para o padre. Em uma delas, teria sido combinado o encontro que antecedeu o assassinato.

Testemunhas relataram ter visto uma cena desesperadora pouco antes da morte. O religioso corria pela Alameda Praia do Flamengo enquanto pedia socorro. Atrás dele vinham dois homens. A perseguição terminou em um terreno baldio próximo ao Hotel Catussaba. Conforme a reconstrução feita pela polícia, padre Francisco foi alcançado, imobilizado e golpeado inicialmente pelas costas.

Sem condições de reação, acabou arrastado para uma área mais isolada. Foi ali que ocorreu a execução.

Dezoito golpes e extrema violência

Segundo a denúncia apresentada pelo Ministério Público, Robson e André Ferreira do Amaral, conhecido como “Andrezinho”, atuaram juntos no crime.A investigação concluiu que Robson teria atraído o padre até o local e ajudado a dominá-lo, enquanto André desferiu os golpes fatais utilizando o chuço.

As perfurações atingiram rosto, pescoço e tórax. Ao todo, foram contabilizados 18 golpes. Para os investigadores, a violência empregada indicava não apenas a intenção de matar, mas também uma crueldade incomum. O delegado Marcelo Sansão afirmou, na época, que os elementos reunidos apontavam para uma ação planejada.

“As ligações nos levam a acreditar que o local já tinha sido estudado”, declarou durante a apresentação dos suspeitos. Após o assassinato, os criminosos fugiram no Fox prata pertencente ao padre.

A relação que intrigou a polícia

À medida que o inquérito avançava, surgiu uma informação que ampliou a repercussão do caso. Segundo a polícia, padre Francisco fazia pagamentos regulares a Robson havia cerca de três meses. O valor nunca foi divulgado oficialmente.

A interrupção desses repasses teria provocado um processo de extorsão. Conforme os investigadores, Robson passou a exigir quantias maiores da vítima e o conflito financeiro teria motivado a emboscada. Os acusados negaram qualquer vínculo afetivo com o religioso e sustentaram que a motivação estava relacionada exclusivamente ao dinheiro.

Mesmo após as prisões, o motivo exato dos pagamentos continuou cercado por dúvidas. A polícia investigou se Robson teria conhecido o padre por meio do trabalho social da Igreja ou do consultório onde Francisco atendia como psicólogo, mas nenhuma dessas hipóteses foi confirmada de forma conclusiva.

“Eu vou reinterrogá-lo. A gente só não sabe o porquê desses valores serem repassados”, afirmou o delegado responsável pelo caso.

Prisão no sul da Bahia

Menos de uma semana após o crime, a polícia localizou os suspeitos em uma pousada no município de Igrapiúna, no sul do estado. Robson e André foram presos por equipes da Polícia Militar e confessaram participação no assassinato durante os primeiros interrogatórios.

O carro roubado da vítima também foi encontrado. Segundo a investigação, o veículo chegou a ser negociado por R$ 3 mil antes de ser incendiado no povoado de Orojó, numa tentativa de eliminar vestígios. A polícia ainda apurou que André possuía antecedente por tráfico de drogas, enquanto Robson não apresentava registros criminais anteriores.

Testemunhas também relataram ter visto os dois consumindo drogas na região onde o homicídio ocorreu.

Comoção e homenagens

A brutalidade do assassinato provocou forte comoção entre católicos de Salvador. Descrito por amigos como um sacerdote acolhedor e dedicado, padre Francisco era conhecido por mensagens voltadas ao amor, à paz e à não violência. “Ele trazia conselhos, palavras que tocavam realmente as pessoas”, afirmou a amiga Vanessa Lisboa na época.

Dias após o crime, centenas de fiéis participaram de uma caminhada em homenagem ao religioso. Vestidos de branco e carregando velas, os participantes seguiram da Igreja Nossa Senhora da Esperança até o Santuário Mãe Rainha, onde Francisco atuava como capelão. Cartazes pedindo o fim da violência e orações pela paz marcaram o cortejo.

Julgamento e condenação

O processo se estendeu por vários anos. Em fevereiro de 2019, a Justiça decidiu levar os dois acusados a julgamento pelo Tribunal do Júri. Na decisão de pronúncia, os réus foram enquadrados por homicídio triplamente qualificado.

Os magistrados entenderam haver indícios de que o crime foi cometido por motivo torpe, com emprego de meio cruel e mediante recurso que impossibilitou a defesa da vítima. Durante o julgamento, realizado em setembro de 2022, as defesas tentaram afastar a responsabilidade dos acusados. Robson sustentou negativa de autoria. André pediu o reconhecimento de homicídio simples.

Os jurados rejeitaram integralmente as teses defensivas.Ao final da sessão, ambos foram condenados por homicídio triplamente qualificado. Na sentença, o juiz destacou a “altíssima intensidade de dolo” e a violência empregada contra uma vítima indefesa.

Robson de Souza Oliveira e André Ferreira do Amaral receberam pena de 15 anos de prisão em regime fechado.

Para a Justiça, a execução do padre Francisco não foi um crime impulsivo, mas uma ação planejada que terminou de forma extremamente brutal, encerrando a vida de um religioso que, poucas horas antes, preparava-se para mais uma celebração dominical.

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