POLÍCIA

Fama, tráfico e morte sem solução: o assassinato da ‘Dama do Pó’ que marcou a Bahia

Aos 23 anos, Kelly Sales Silva já era uma das figuras mais conhecidas da periferia de Salvador. Não era cantora, atriz ou personalidade da televisão, mas carregava uma fama que ultrapassava os limites dos bairros onde circulava. Todos sabiam quem era Kelly Cyclone. A jovem tatuada de roupas da marca que inspirou seu apelido e cercada por histórias de envolvimento com traficantes.

A mesma imagem que ajudou a construir sua popularidade também marcou sua trajetória até o fim. Na madrugada de 18 de julho de 2011, após deixar o Salvador Fest, uma das maiores festas de pagode da Bahia, Kelly foi encontrada morta no centro de Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador. O corpo apresentava marcas de tiros e uma facada.

O assassinato mobilizou familiares, fãs e moradores de diferentes regiões da capital baiana. O enterro reuniu uma multidão, comunidades foram criadas na internet em homenagem à jovem e vídeos com imagens dela passaram a circular em uma velocidade que, para a época, impressionava. Quinze anos depois, o crime permanece sem solução.

Festa e desaparecimento

Em julho de 2011, Kelly Cyclone já era uma figura conhecida muito além dos limites de Lauro de Freitas. Sua presença em festas de pagode atraía olhares, e sua imagem havia se transformado em uma espécie de símbolo para parte dos jovens das periferias de Salvador. No dia 17 de julho, ela foi ao Salvador Fest, evento que reunia grandes atrações do pagode baiano e milhares de pessoas no Wet’n Wild, em Salvador.

A festa seria sua última aparição pública. Segundo familiares, Kelly passou mal durante o evento e decidiu ir embora antes do fim. Na saída, entrou em um carro conduzido por Carlos Gustavo Cohen Alencar Braga, conhecido como Gustavinho, filho de um policial civil. Horas depois, ela estaria morta.

O corpo da jovem foi encontrado na madrugada do dia 18 de julho, no centro de Lauro de Freitas. Ela vestia um short jeans e uma camisa da Seleção Argentina, uma das suas preferidas. A peça, que costumava usar com frequência, também fazia parte da imagem que ajudou a construir ao longo dos anos.

A perícia identificou marcas de violência. Kelly havia sido atingida por tiros e também apresentava sinais de uma facada antes dos disparos. A morte encerrou uma trajetória marcada por exposição pública, mas abriu uma das investigações mais controversas da história recente da violência na Região Metropolitana de Salvador.

Primeiras suspeitas

Poucas horas após o assassinato, a polícia passou a investigar as circunstâncias da última noite de Kelly. Gustavinho, que estava com ela antes da morte, prestou depoimento na 23ª Delegacia, em Lauro de Freitas. Ele afirmou que havia conhecido Kelly havia poucos dias e que os dois eram apenas amigos.

Segundo a versão apresentada pelo suspeito, ele teria ido ao Salvador Fest acompanhado da jovem, da irmã dela, Carla, e de outras duas amigas. Depois do evento, Kelly teria decidido seguir com ele até Itinga. No caminho, o grupo teria parado em um McDonald’s de Lauro de Freitas e, posteriormente, buscado um amigo identificado como Iago.

A versão contada por Gustavinho indicava que, já durante a madrugada, o veículo onde eles estavam teria sido interceptado por um carro modelo Focus prata. Dois homens armados teriam rendido os ocupantes. Kelly teria saído correndo do carro e sido atingida por dois tiros disparados por uma terceira pessoa que estaria no outro veículo.

Os supostos criminosos fugiram. A narrativa, porém, não convenceu completamente os investigadores nem a família da vítima. Parentes de Kelly afirmavam que ela havia recebido uma ligação de Gustavinho durante o Salvador Fest e que teria sido chamada para encontrá-lo. A irmã chegou a pedir que ela não fosse, mas Kelly teria respondido que voltaria rapidamente. Ela nunca voltou.

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