Primeiro de maio de 2026. O estudante Davi Luiz, de 11 anos, é morto no Engenho Velho da Federação. Uma semana depois, em 8 de maio, o jovem Lucas Mendes de Jesus, 19, não resiste aos ferimentos e morre em Valéria. Embora morassem em bairros diferentes, tiveram o mesmo destino: foram baleados dentro de casa durante uma ação policial. Os casos ilustram uma cenário preocupante: os tiroteios durante ações policiais bateram recorde em Salvador e na Região Metropolitana no primeiro semestre deste ano.
O levantamento do Instituto Fogo Cruzado (IFC), divulgado nesta quarta-feira (29), mostra que, entre janeiro e junho deste ano, 56% dos 656 tiroteios mapeados ocorreram durante intervenções policiais, o equivalente a 366 episódios. O percentual é o maior desde o início do monitoramento na Bahia, em 2022, e supera os índices registrados nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro (47%), Belém (45%) e Recife (9%).
“Além deles tirarem a vida de meu filho, destruíram também a minha família. Eu e os irmãos vimos quando Lucas foi atingido no pescoço e depois novamente na cabeça. Apesar de afastado, os policiais que fizeram isso continuam atuando clandestinamente, espancando e atirando nas pessoas”, declara Luanci Joane Dias Mendes, mãe de Lucas, que morreu ao tentar defender a mãe de um homem armado que havia invadido a residência da família, na localidade da Bolachinha, em Valéria. Na ocasião, tanto Lucas quanto o suspeito foram baleados por policiais
Ao longo do semestre, 637 pessoas foram baleadas, das quais 487 morreram e 150 ficaram feridas. Mais da metade das vítimas (340) foi atingida durante ações policiais, proporção que passou de 40%, no primeiro semestre de 2025, para 53% neste ano. Embora o número total de tiroteios tenha caído em relação ao mesmo período do ano passado — de 839 para 656 ocorrências —, a participação das operações policiais aumentou de 42% para 56%.
Para o advogado e especialista em Ciências Criminais André Franklin de Queiroz, “isso não é estatística fria”. “Esse dado reflete uma política de segurança pública que privilegia a letalidade em detrimento da inteligência e da prevenção, e isso tem um custo social altíssimo, que vai além dos números: é o medo constante, é a sensação de que o Estado só aparece pela força”.
Já o advogado criminalista e especialista em segurança pública Luciano Bandeira Pontes, os dados “só revelam que Salvador caminha para o caos”. “O Estado não consegue controlar a força e poder do crime organizado e sempre tenta dar uma resposta de curto prazo e, infelizmente, não é a resposta que a sociedade gostaria de ter”.
Para a coordenadora regional do Instituto Fogo Cruzado na Bahia, Tailane Muniz, os números refletem a permanência de uma política de segurança baseada no confronto armado. Segundo ela, a redução pontual de alguns indicadores não alt
Chacina
Outro dado que chamou a atenção do levantamento foi o peso das chacinas ocorridas durante operações policiais. Das 14 chacinas registradas no semestre, 13 aconteceram nesse contexto, representando 93% do total. Esses episódios deixaram 49 mortos, o equivalente a 94% das vítimas de chacinas no período.
O IFC usa o termo “chacina policial” quando três ou mais civis são mortos a tiros durante uma operação policial. O Complexo do Nordeste de Amaralina concentrou parte significativa dessa violência. Nordeste de Amaralina e Pirajá concentraram 37% das vítimas das chacinas policiais.. “Chacinas policiais integram a dinâmica cotidiana da segurança pública da Bahia e isso coloca a população na linha de tiro, impacta no funcionamento de escolas e outros equipamentos públicos”, declara Tailane Muniz, coordenadora regional do IFC.
O relatório também aponta recorde de perseguições policiais. Foram 98 casos entre janeiro e junho, o maior número da série histórica, que resultaram em 95 pessoas baleadas. Crianças e adolescentes também aparecem entre as vítimas. Enquanto nenhuma criança havia sido baleada em ações policiais no primeiro semestre de 2025, neste ano ao menos duas foram atingidas. Entre adolescentes, o número de vítimas cresceu 36%, alcançando o maior patamar desde o início do monitoramento.
A violência armada também chegou às residências. Os registros de pessoas baleadas dentro de casa aumentaram 17% em relação ao ano passado. No mesmo período, os casos de feminicídio cresceram 25%. Um dos episódios destacados pelo levantamento foi o assassinato do cabo da Polícia Militar Celeste de Oliveira Martins, morta pelo marido — também policial militar — dentro do apartamento onde o casal morava, no Barbalho, em Salvador.



