O IBGE só comprovou o que todo gateiro já sabia: eles são os donos da casa. Só falta agora comprovar se, de fato, os humanos são os pets dos gatos brasileiros, e não o contrário, como cremos. No mês em que se comemora o Dia dos Felinos Domésticos, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou um estudo sobre o número desses ‘serumaninhos’ nos lares brasileiros. Na Bahia, 20,2% das residências escutam miados, limpam caixinhas de areia e são ignoradas pelos bichanos. Um número expressivo, mas os baianos estão longe de serem os fãs de gato, se comparados com o topo do ranking, Piauí, com 32,6%.
Se depender de Cris Oliveira, não demora muito para este número crescer na Bahia, que hoje ocupa o 18º lugar entre os estados com mais gatos, apesar de estar acima da média nacional, de 19,3%. Professora em Santo Antônio de Jesus, Cris perdeu as contas de quantos gatos já resgatou na rua e conseguiu dar um lar. O mais curioso é sua condição: ser asmática e ter rinite alérgica. Tudo isso acabou quando sua filha, Amanda, levou o primeiro gato para casa.
“Aconteceu o famoso efeito pirâmide. Um resgate foi levando a outro e, quando percebi, eram oito gatos só na minha casa, adotados. Ter gatos é aprender sobre afeto, responsabilidade, companhia e também sobre a capacidade de acolher. Eu recomendo essa experiência para todos, para toda pessoa que estiver disposta a assumir a responsabilidade de cuidar e de amar um felino”, explica Cris. Ela tem todo o ritual quando encontra um felino abandonado na rua. Até um card já está pronto para divulgação entre os grupos de WhatsApp e redes sociais. Contudo, ela não doa para qualquer um. Existe um critério rígido para diminuir as chances de aquele gato retornar para as ruas.
“A parte mais difícil é encontrar uma adoção verdadeiramente responsável. Nem sempre quem se interessa pelo gato está disposto a assumir a responsabilidade por toda a vida. Por isso, converso com os candidatos e, quando não considero o lar adequado, prefiro ficar com o animal a correr o risco de entregá-lo a alguém que não cuide dele como merece. Para mim, resgatar não é apenas tirar o gato da rua, mas garantir que ele tenha segurança, cuidado e amor”, explica Cris.
Estudos indicam que o Felis Catus, nome científico do gato doméstico, já existia há milhares de anos na África, mas sua domesticação ocorreu cerca de 9.500 anos atrás, na região do Levante, onde hoje estão países como Líbano, Israel e Palestina, depois se espalhando pela Europa. Naquela época, os gatos eram controladores de pragas em plantações, principalmente contra ratos, por isso essa fama de predador natural dos roedores. Faz sentido. Para se ter uma ideia, um gato doméstico com acesso à rua pode comer mais de 2 mil espécies de animais, segundo a Nature Communications. Imagine naquela época sem a sopinha no potinho deles.
De acordo com o último índice divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as populações de cães e gatos são de 54 e 24 milhões, respectivamente. Os felinos estão em terceiro lugar na lista de animais mais domesticados, perdendo também para aves, das quais boa parte é fruto de comércio ilegal. Este número também cresce no sentido comercial. Juntamente impulsionadas pelo mundo cão, as lojas pet somadas faturam, todo ano, cerca de R$ 73 bilhões.
E não vai demorar muito para os felinos superarem a marca dos cachorros. Segundo a Secretaria Nacional de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais, o crescimento populacional dos caninos cresce 3,5% todo ano, enquanto os bichanos chegam a 6%.
“O crescimento está ligado principalmente às mudanças no estilo de vida. Famílias menores, mais pessoas morando sozinhas e a vida em apartamentos tornam o gato uma opção bastante compatível com a rotina nas cidades. Além disso, ele deixou de ser visto apenas como um animal independente e passou a ser considerado um verdadeiro membro da família”, conta Janis Cumming, professora do curso de Medicina Veterinária da Unijorge.
Para uma gateira de Salvador, isso não é problema. Somente na casa dela, são 14 gatos, todos bem tratados e dengados. Contudo, ela apenas pediu o anonimato, com receio de alguns vizinhos que sequer sabem da existência dessa população dentro do apartamento. Ela não quer problema. Nossa gateira contribuiu para a boa quantidade de felinos nos lares baianos por conta da pandemia. Na verdade, ela “só” tinha sete, mesmo número da mãe. No período da Covid, resolveram morar juntas e a família cresceu.
“Sou apaixonada por gatos desde criança e sempre convivi com animais na casa da minha avó. Na infância, adotei um filhote que acabou morrendo cedo e, com o tempo, a vontade de ter outro gato só aumentou. Até que conheci Brownie, uma gata sem raça definida encontrada dentro do capô de um carro. Depois dela, outros gatos em situações de risco cruzaram meu caminho, entre atropelados, acidentados e abandonados. Resgatei todos, alguns foram para adoção e outros ficaram comigo. E foi assim que cheguei a ter muitos gatos”, conta.
Cuidar de tanto bicho não é fácil. “A rotina acaba sendo comandada em partes por eles, tipo o horário para acordar e dar a primeira refeição do dia (quem tem gatos sabe que é 5h da manhã) e os horários de limpeza da caixa de areia. No mais, eles seguem a rotina deles com os horários dos cochilos, das brincadeiras e de dormir, independentemente da rotina dos humanos que moram com eles. No orçamento mensal, eu preciso incluir a ração, a areia, petiscos e deixar uma reserva para consultas e emergências veterinárias. Como eu já crio eles há mais de dez anos, tudo está automaticamente incluso nas contas mensais da casa, mas foi um aumento significativo quando passou de um para sete. A meta agora é fazer plano de saúde para todos”, completa.
UM BRASIL CHEIO DE GATOS
POR REGIÃO
Norte: 25,3%
Nordeste: 24,1%
Sul: 21,2%
Centro-Oeste: 16,6%
Sudeste: 15,2%
OS CINCO ESTADOS COM MAIOR PERCENTUAL
1º Piauí: 32,6%
2º Maranhão: 31,5%
3º Ceará: 29,3%
4º Rondônia: 26,9%
5º Acre e Pará: 26,4%
18º Bahia: 20,2%
Média nacional: 19,3%



