Entre julho e agosto, quase 32 mil baianos se tornaram inadimplentes (com alguma conta atrasada), de acordo com o Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas da Serasa. Ao todo, o estado atingiu a marca de 5,27 milhões de pessoas com alguma pendência.
Esse resultado afeta atualmente 45,95% da população adulta da Bahia, índice que coloca o estado abaixo da média nacional estimada em 51,06%. Houve uma desaceleração leve no crescimento de inadimplência no país inteiro, que hoje é de 83,98 milhões de pessoas.
A inadimplência “significa que a renda dessa pessoa ou dessa família não está sendo suficiente para honrar todos os compromissos assumidos e, neste momento, alguns estão ficando de fora, acumulando muito tempo e gerando o reconhecimento do sistema de concessão de crédito como um indivíduo incapacitado, com uma perspectiva muito baixa de pagar essa dívida”, conforme explica o professor e Consultor de Economia e Finanças Antônio Carvalho.
Endividamento histórico
Ainda segundo o Serasa, no Brasil, o valor médio da dívida por pessoa alcançou R$ 7.049,68, enquanto o valor médio de cada débito ficou em R$ 1.687,27; por sua vez, o total de dívidas acumuladas é de R$ 592 bilhões.
Dados complementares da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), mostram que o endividamento geral das famílias brasileiras permaneceu em 82% em agosto de 2026, o maior nível da série histórica pelo sétimo mês consecutivo.
Segundo a avaliação, a inadimplência efetiva nacional subiu de 29,8% em julho para 29,9% em agosto, enquanto 12,5% das famílias declararam não ter condições de quitar suas pendências.
Para o professor Antônio, esse dado é, no mínimo, assustador. Tal situação ocasiona um efeito dominó na economia do indivíduo e também do país. “Se essas pessoas estão endividadas, inadimplentes, estão comprando menos, significa que elas geram um impacto econômico menor. O fornecedor vende menos, que vai comprar menos do seu produtor, ou se for uma empresa que produz, ou uma empresa de serviço, vai deixar de produzir serviços”, analisa.
Vilões da saúde financeira
A vulnerabilidade financeira é mais acentuada entre as populações de menor renda. Nas famílias que recebem até três salários mínimos, o nível de endividamento chegou a 85,1% em agosto e a taxa de contas em atraso atingiu 38,8%.
Nas faixas de três a cinco salários mínimos, o percentual com dívidas em atraso ficou em 28%, caindo para 20,3% entre os que ganham de cinco a dez salários e para 14,9% na faixa com renda superior a dez salários mínimos. O levantamento da CNC aponta ainda que 19,2% das famílias brasileiras acabam comprometendo mais da metade do seu orçamento com dívidas, com a média nacional de comprometimento fixa em 29,5%.
Entre os tipos de dívida mais presentes no dia a dia do brasileiro, o maior vilão segue sendo o cartão de crédito, que aparece no orçamento de 85,3% das famílias endividadas, seguido por carnês (16,1%), crédito pessoal (13%), financiamento habitacional (9,6%), financiamento de veículos (9%), crédito consignado (7,1%) e cheque especial (3,4%).
O problema desses recursos de crédito é que quando usados de maneira descontrolada, acabam gerando o efeito “bola de neve”.
“Quando essas parcelas se somam, parcelas de compras diferentes feitas em datas diferentes se somam, muitas vezes se sobrepõe ao volume da renda e aí inicia um processo de acúmulo de dívida crescente que vai sufocando o indivíduo e consumindo parte significativa, chegando a mais de 50%. Então, se 50% da renda está sendo consumido com endividamento, ou seja, com coisas que foram compradas no passado, sobra muito pouco para o consumo do presente”, explica.
Consciência de renda
Segundo o especialista em finanças, uma forma de fugir da armadilha do crédito “é ter consciência de renda, tentar manter o consumo, os gastos no nível da renda, para evitar utilizar instrumentos de crédito. É lembrar que mesmo os parcelamentos, eles vão se somar, e uma dica, crédito não é renda. O cartão de crédito, o cheque especial, eles são instrumentos de financiamento; você vai comprar e vai pagar depois”.
Com a proximidade de datas como Black Friday e Natal, há sempre uma expectativa do comércio em ter um alto número de vendas. Entretanto, de acordo com o economista, há possibilidade das expectativas não se cumprirem devido ao alto número de endividados, mesmo com o pagamento do 13º salário para os CLTs.
“Algumas pessoas, principalmente os mais endividados, acabam fazendo algumas compras, satisfazendo algumas necessidades, aproveitando a Black Friday, os momentos de promoção e o apelo ao consumo como que as festas do final de ano, Natal e Réveillon, sempre trazem. Mas para 2026, eu prevejo um desaquecimento em relação aos anos anteriores”, conclui.


