{"id":11039,"date":"2020-05-29T09:05:00","date_gmt":"2020-05-29T12:05:00","guid":{"rendered":"http:\/\/blogopara.com.br\/?p=11039"},"modified":"2020-05-28T12:29:49","modified_gmt":"2020-05-28T15:29:49","slug":"a-roda-viva-da-historia-em-meio-a-disseminacao-do-odio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/2020\/05\/29\/a-roda-viva-da-historia-em-meio-a-disseminacao-do-odio","title":{"rendered":"A \u201cRoda Viva\u201d da hist\u00f3ria em meio a dissemina\u00e7\u00e3o do \u00f3dio"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Estamos em meio a \u201cuma roda viva\u201d, exatamente como cantou Chico Buarque. Vertigens provocadas por desmontes, retrocessos, autoritarismos,<br \/>\nsubvers\u00e3o dos valores, contamina\u00e7\u00f5es via o \u00f3dio \u00e0s minorias ou \u00e0queles que lutam por igualdade. Estes, curiosamente, estigmatizados como comunistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa vertigem sentida na \u201croda viva\u201d de um Brasil Rep\u00fablica vem acompanhada de um \u201cvento vocabular\u201d mui revelador. \u00c9 na escola, privilegiadamente, que aprendemos a utilizar um instrumento chamado dicion\u00e1rio, ajudando-nos, dentre outras coisas, a sorver palavras de modo categ\u00f3rico. Assim, conservamos as inestim\u00e1veis regras de nossa l\u00edngua possibilitando interpreta\u00e7\u00f5es e ret\u00f3ricas orientadas por uma rica gram\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vertigem da \u201croda viva\u201d acompanhada pelo \u201cvento vocabular\u201d assume um espectro aterrorizante quando o pr\u00f3prio Ministro da Educa\u00e7\u00e3o reintera a conjuga\u00e7\u00e3o do verbo odiar. O verbo odiar \u00e9 um transitivo direto com o significado de sentir avers\u00e3o a algo ou alguma coisa, detestar e abominar, dentre outras maneiras de inserir nas nossas locu\u00e7\u00f5es. Dizer que odeia algu\u00e9m ou alguma coisa \u00e9 antes de tudo agredir o outro, ferir sua condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, nos mostrou o Ministro ao dizer que odeia os povos ind\u00edgenas, o povo cigano e, provavelmente, tantos outros povos.&nbsp; A despeito da hist\u00f3ria de nosso pa\u00eds, em muitos livros did\u00e1ticos ainda se fala que o Brasil foi descoberto. Mas, ser\u00e1 mesmo? N\u00e3o teria sido o que chamamos hoje de Brasil objeto de invas\u00e3o? Os ind\u00edgenas, povos ancestrais, j\u00e1 constituem v\u00ednculos com essa terra. Passamos, portanto, do momento de aprender a conhecer a hist\u00f3ria do Brasil de um modo menos autorit\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil foi invadido! Os povos ind\u00edgenas foram violentados. Tiraram seus bens, quiseram matar sua cultura, dilaceraram na\u00e7\u00f5es. Os europeus, sobretudo os portugueses, fizeram desses povos escravos, obrigaram a falar outra l\u00edngua, impuseram valores culturais distantes. Os \u00edndios eram vistos como bons selvagens ou como obst\u00e1culos \u00e0 chamada civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Pedagogia que se quer libertadora, prop\u00f5e uma rela\u00e7\u00e3o do ensinar e do aprender no processo de interpretar a hist\u00f3ria como uma pr\u00e1xis reflexiva que leva em considera\u00e7\u00e3o os atores envolvidos, nesse caso tamb\u00e9m a perspectivados que sofreram a viol\u00eancia da invas\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois bem, estamos vivendo novas invas\u00f5es numa ordem ideol\u00f3gica, que impacta institui\u00e7\u00f5es e que lega sulcos de aliena\u00e7\u00e3o. Nessa nova invas\u00e3o tiram tudo e aos mais \u201cfracos\u201d da sociedade, restam as \u201cmigalhas\u201d. Ah! Num ar de perversa benevol\u00eancia, oferecem \u201cesmolas\u201d, mas sem antes de pedir um pequeno favor: um voto nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como se n\u00e3o bastasse, o abomin\u00e1vel Ministro da Educa\u00e7\u00e3o, o sr. Abraham Weintraub, afirma que as minorias s\u00e3o \u201cprivilegiadas\u201d. Outro que entra nesse giro dessa roda \u00e9 o sr. Italo Marsilli, uma figura bizarra, que vai as redes sociais gritar que os professores s\u00e3o uma classe de \u201cburros\u201d e \u201cvagabundos\u201d. Quanto \u00f3dio! Como ser\u00e1 que esses cidad\u00e3os chegaram a t\u00e3o<br \/>\nnobre cargo da Rep\u00fablica ou a fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas? Haveria uma inten\u00e7\u00e3o de<br \/>\ndesmonte e destrui\u00e7\u00e3o nesses atos? A \u201croda viva\u201d e o vento vocabular que o<br \/>\neco da conjuga\u00e7\u00e3o \u201codiar\u201d atualiza a viol\u00eancia de outrora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E por falar em viol\u00eancia, (a)o professor(a) no Brasil, classe que n\u00e3o \u00e9 devidamente valorizada, tem trabalhado tanto quanto outros profissionais<br \/>\nnesse tempo de pandemia, mas infelizmente sem o devido reconhecimento.<br \/>\nO(a)s docentes t\u00eam feito de suas salas de estar a sala de aula, t\u00eam aprendido<br \/>\n\u00e0 f\u00f3rceps a lidar com um aparato tecnol\u00f3gico, al\u00e9m de custear esses requisitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A professora, se antes trabalhava em casa, agora trabalha dobrado, vivenciando momentos estressores por n\u00e3o ser ouvida, n\u00e3o ter apoio e ainda por cima, vista como desqualificada e despreparada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u201croda viva\u201d, a conjuga\u00e7\u00e3o do verbo odiar, a hist\u00f3ria mal contada sobre os povos ind\u00edgenas, a invas\u00e3o dos colonizadores e as novas invas\u00f5es s\u00e3o vertigens que n\u00e3o param de assolar o povo brasileiro. Reconhecer esse movimento circular da \u201croda\u201d traz o risco do niilismo, mas ao mesmo tempo pode nos libertar da ilus\u00e3o de uma liberdade dada por outrem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 privil\u00e9gios para aqueles que mais precisam. O que existe na hist\u00f3ria do Brasil \u00e9 uma absurda reprodu\u00e7\u00e3o de desigualdades, uma usurpa\u00e7\u00e3o de direitos e a marca da viol\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desconforto de olhar para essa realidade nauseante, ajuda-nos a saber melhor da nossa hist\u00f3ria, impulsiona-nos a n\u00e3o aceitar gestos do abomin\u00e1vel Ministro da Educa\u00e7\u00e3o, incita-nos a reconhecer verdadeiramente o valor dos professores, fortalece-nos a lutar pela condi\u00e7\u00e3o digna do trabalho docente e enche-nos de confian\u00e7a, num esperan\u00e7ar, um mundo, por um Brasil, menos desigual, menos violento e com mais educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, assist\u00eancia social, moradia e saneamento de qualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vergonha que se deve nutrir \u00e9 por um pa\u00eds desigual e marcado pela explora\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia. Essa \u00e9 a nossa maior vertigem. Quanto ao \u00f3dio, esta \u00e9 a conjuga\u00e7\u00e3o dos covardes que se envenenam. A \u201croda viva\u201d, embora circulante, \u00e9 viva e vai se reinventando, e enquanto viventes do esperan\u00e7ar,<br \/>\nbreve \u201celes passar\u00e3o e n\u00f3s passarinho\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nTexto de:<br \/>\nClara Maria Miranda de Sousa<br \/>\n(Psic\u00f3loga, Pedagoga e Mestra em Forma\u00e7\u00e3o Docente e Pr\u00e1ticas<br \/>\nInterdisciplinares)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcelo Silva de Souza Ribeiro<br \/>\n(Dr. em Educa\u00e7\u00e3o e Prof. da Univasf)<br \/>\nPesquisadores no Laborat\u00f3rio de Estudos e Pr\u00e1ticas em Pesquisa-Forma\u00e7\u00e3o&nbsp; (LEPPF).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos em meio a \u201cuma roda viva\u201d, exatamente como cantou Chico Buarque. 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