{"id":1261,"date":"2019-07-06T16:59:46","date_gmt":"2019-07-06T19:59:46","guid":{"rendered":"http:\/\/blogopara.com.br\/?p=1261"},"modified":"2019-07-06T17:00:49","modified_gmt":"2019-07-06T20:00:49","slug":"a-juazeiro-de-joao-gilberto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/2019\/07\/06\/a-juazeiro-de-joao-gilberto","title":{"rendered":"A JUAZEIRO DE JO\u00c3O GILBERTO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Na Juazeiro de Jo\u00e3o n\u00e3o havia rua nos fundos da casa da fam\u00edlia Prado Pereira de Oliveira, e o menino abria o port\u00e3o j\u00e1 quase pondo os p\u00e9s nos barrancos do Rio S\u00e3o Francisco, onde mergulhava. A separar as \u00e1guas da cidade, uma bela balaustrada, recosto na juventude para ele tocar viol\u00e3o com os Enamorados do Ritmo. Em nome de um arremedo de moderniza\u00e7\u00e3o, a murada foi trocada por padronizados canos amarelos &#8211; o peda\u00e7o de passado branco deixado num canto do antigo cais exala urina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: inherit;\">Na Juazeiro de Jo\u00e3o havia um tamarineiro frondoso, embaixo do qual ele jogava futebol, conversava, namorava, tocava viol\u00e3o. No in\u00edcio dos anos 1980, a motosserra capou folhas, hist\u00f3rias e mem\u00f3rias.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Cad\u00ea o tamarineiro do Jo\u00e3ozinho? &#8211; assustou-se a amiga de inf\u00e2ncia Maria Izabel Muniz Figueiredo, a Bebela, ao ver a amputa\u00e7\u00e3o de um s\u00edmbolo daquilo a que mais se dedica como historiadora e agitadora cultural: o passado da cidade. &#8211; Juazeiro precisa ser amada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o amava olhar para o imponente casar\u00e3o dos Pereira, que parte de sua pr\u00f3pria fam\u00edlia vendeu e foi derrubado para dar lugar a um pr\u00e9dio convencional, hoje uma balb\u00fardia de cores e atividades, de lanchonete a sede de diocese.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m amava ficar na esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria da cidade vendo tempo e trens passarem. O transporte de passageiros acabou em 1989, o de carga, na d\u00e9cada passada, e hoje o galp\u00e3o em ru\u00ednas fica fechado para evitar mendigos e drogados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Era uma festa quando o trem chegava, as pessoas ficavam conversando na esta\u00e7\u00e3o, esperando. A m\u00fasica que Jo\u00e3o gravou (&#8220;Trem de ferro&#8221;, de Lauro Maia, em 1961) retrata isso &#8211; lembra Galv\u00e3o, o artista que, bem antes de integrar os Novos Baianos, tornou-se amigo do conterr\u00e2neo, com quem passeava de bicicleta e jipe pelas matas ao redor da cidade.<\/p>\n<div class=\"block block--advertising\">\n<div class=\"block__advertising\">\n<div class=\"block__advertising-header\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8216;Farras e mais farras&#8217;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o amava a companhia de outros amigos que nem est\u00e3o mais por aqui, como Valter, Pedrito, Ed\u00e9sio, Euvaldo e Eur\u00edpedes, o Seu Galo. Este era assim conhecido por seu prazer em falar e cantar, radialista que fazia sucesso no servi\u00e7o de alto-falante com os programas &#8220;O que o povo precisa saber&#8221; e &#8220;Brancas e pretas&#8221;, compositor de &#8220;Jana\u00edna, senhora do mar&#8221;, que Jo\u00e3o entoava na Ilha do Fogo, no meio do caminho hidrovi\u00e1rio entre Juazeiro e a vizinha pernambucana Petrolina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ele entrava aqui em casa, abria as gavetas, pedia Toddy, deitava na nossa cama &#8211; lembra dona Ananda, vi\u00fava de Galo. &#8211; Os dois sa\u00edam para farras e mais farras. E deixavam a lou\u00e7a toda para eu lavar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para quem s\u00f3 pensa em Jo\u00e3o curvado sobre seu viol\u00e3o, pode ser estranho saber que ele amava dan\u00e7ar no sal\u00e3o da Sociedade 28 de Setembro, onde tamb\u00e9m cantou. O clube est\u00e1 fechado e sem conserva\u00e7\u00e3o, mas foi comprado pela prefeitura para, ap\u00f3s reforma, sediar a Secretaria de Cultura e uma escola de m\u00fasica e dan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Ele dan\u00e7ava valsa, bolero, sempre bem e com muita eleg\u00e2ncia &#8211; recorda-se Edeth Moreira Duarte, um dos pares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o amava se sentar na Pra\u00e7a Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, mais conhecida como Pra\u00e7a da Matriz por causa da Igreja de Nossa Senhora das Grotas. Podia ali escrever um poema para a amiga Regina Falc\u00e3o (&#8220;Teus olhos\/ s\u00e3o dois molequinhos\/ negros e descal\u00e7os\/ brincando\/ na janela dos teus olhos&#8221;) ou conversar com os doidos da cidade, como Macumb\u00f4, Amansa Barro e sua querida Maria Pezinho &#8211; a pr\u00e1tica contribu\u00eda para sua pr\u00f3pria fama de doido, at\u00e9 hoje motivo de revolta entre parentes. A pra\u00e7a perdeu a uniformidade arquitet\u00f4nica das casas de inspira\u00e7\u00e3o portuguesa, restando entre os exemplos a resid\u00eancia de n\u00famero 20, onde Jo\u00e3o nasceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alugada h\u00e1 17 anos \u00e0 Empresa Baiana de Desenvolvimento Agr\u00edcola pela fam\u00edlia de Jo\u00e3o, a casa de dois andares e cinco quartos vem sofrendo altera\u00e7\u00f5es, mas mant\u00e9m o piso de tacos de duas cores e as portas grandes, de ma\u00e7anetas altas. A que dava acesso ao quarto de Jo\u00e3o hoje d\u00e1 para uma parede de gesso erguida para facilitar a arruma\u00e7\u00e3o da sala da ger\u00eancia da EBDA. Mais mudan\u00e7as n\u00e3o animam os parentes do m\u00fasico, nem mesmo, como deseja a atual gest\u00e3o municipal, a transforma\u00e7\u00e3o em memorial ap\u00f3s ser conclu\u00eddo o processo de tombamento do im\u00f3vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Isso nunca foi ventilado por n\u00f3s. Nossa vaidade n\u00e3o chega a esse ponto. Guardamos ali mem\u00f3rias da inf\u00e2ncia &#8211; diz Maria, a Dadainha, irm\u00e3 de Jo\u00e3o que vive em Vit\u00f3ria (ES).<\/p>\n<div class=\"block block--advertising\">\n<div class=\"block__advertising\">\n<div class=\"block__advertising-header\">\n<div class=\"block__advertising-header\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Maria Oliva, a Vivinha, ainda mora em Juazeiro, e prefere o sil\u00eancio quando o assunto \u00e9 seu irm\u00e3o ilustre. Jovino mora em Fortaleza. Os outros irm\u00e3os &#8211; Walter, Valcyr (ambos s\u00f3 por parte de pai), Vav\u00e1 e Ded\u00e9 &#8211; morreram.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"block__advertising-content\" style=\"text-align: justify;\">\n<pre id=\"pub-super-2\" class=\"advertising advertising--desktop advertising--loaded\" style=\"text-align: justify;\" data-oglobo-advertising-format=\"super\" data-oglobo-advertising-index=\"2\" data-google-query-id=\"CJTBuoCIoeMCFa_G4wcdtWoAWQ\">Fonte: O Globo<\/pre>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Juazeiro sempre ter\u00e1 o seu canto e a sua m\u00fasica embalando as suas noites de boemia.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1266,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_uag_custom_page_level_css":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[198],"tags":[134,143],"class_list":["post-1261","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sou-mais-juazeiro","tag-cultura","tag-juazeiro-da-bahia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/joao.jpg","uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/joao.jpg",1280,720,false],"thumbnail":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/joao-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/joao-300x169.jpg",300,169,true],"medium_large":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/joao-768x432.jpg",640,360,true],"large":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/joao-1024x576.jpg",640,360,true],"1536x1536":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/joao.jpg",1280,720,false],"2048x2048":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/joao.jpg",1280,720,false],"mantranews-slider-large":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/joao.jpg",1020,574,false],"mantranews-featured-medium":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/joao.jpg",420,236,false],"mantranews-featured-long":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/joao.jpg",300,169,false],"mantranews-block-medium":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/joao.jpg",464,261,false],"mantranews-carousel-image":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/joao.jpg",600,338,false],"mantranews-block-thumb":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/joao.jpg",322,181,false],"mantranews-single-large":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/joao.jpg",1141,642,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"Reda\u00e7\u00e3o 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