{"id":15504,"date":"2020-10-28T07:39:01","date_gmt":"2020-10-28T10:39:01","guid":{"rendered":"http:\/\/blogopara.com.br\/?p=15504"},"modified":"2020-10-25T07:03:38","modified_gmt":"2020-10-25T10:03:38","slug":"quando-for-votar-num-torturador-lembre-se-o-que-dilma-rousseff-sofreu-com-a-tortura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/2020\/10\/28\/quando-for-votar-num-torturador-lembre-se-o-que-dilma-rousseff-sofreu-com-a-tortura","title":{"rendered":"Quando for votar num torturador, lembre-se o que Dilma Rousseff sofreu com a tortura"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA&nbsp;tortura \u00e9 algo extremamente complexo. Eu acho que todo mundo que passou pela pris\u00e3o sempre vai ter essa marca. Eu n\u00e3o gosto de ver filme, por exemplo, que passa tortura. N\u00e3o \u00e9 que eu n\u00e3o goste. Eu n\u00e3o vejo. \u00c9 pior, n\u00e9? Eu n\u00e3o quero ver. A tortura \u00e9 algo que mexe com aquilo que \u00e9 mais profundo e que constitui voc\u00ea\u201d.&nbsp;A declara\u00e7\u00e3o da ex-presidenta&nbsp;Dilma Rousseff,&nbsp;50 anos ap\u00f3s o momento em que foi presa pela ditadura militar, em 16 de janeiro de 1970, traz pulsante um processo que marcou a hist\u00f3ria brasileira e que ainda encontra ecos na atualidade.&nbsp;&#8220;A dor \u00e9 sempre uma amea\u00e7a de morte, quando se trata de tortura.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Presa em meio ao aumento da repress\u00e3o, da viol\u00eancia e da cassa\u00e7\u00e3o de direitos pol\u00edticos por parte da ditadura militar, Dilma se localiza nesse per\u00edodo: \u201cEu sou presa no processo de endurecimento do regime militar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre resist\u00eancia e supera\u00e7\u00e3o, para Dilma, a chave \u00e9 n\u00e3o guardar \u00f3dio.&nbsp;&#8220;Eu acho que n\u00e3o tem como passar a vida tendo m\u00e1goa disso, isso \u00e9 um absurdo. Porque n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter \u00f3dio. \u00d3dio \u00e9 dar a quem fez isso contigo&nbsp;um poder que n\u00e3o pode ter. Voc\u00ea tem de olh\u00e1-los como eles s\u00e3o: banais. S\u00e3o banais.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nestas cinco d\u00e9cadas transcorridas desde esse momento, a militante Dilma j\u00e1 construiu uma trajet\u00f3ria pol\u00edtica diversa na vida pol\u00edtica e institucional do pa\u00eds, chegando at\u00e9 o mais alto cargo, o de presidenta da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filha de pai b\u00falgaro e m\u00e3e brasileira, Dilma Vana Rousseff nasceu em 14 de dezembro de 1947, em Belo Horizonte (MG), sendo a segunda, de tr\u00eas filhos do casal.&nbsp;Em 1964, ingressou no Col\u00e9gio Estadual Central de Belo Horizonte, atual&nbsp;<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Escola_Estadual_Governador_Milton_Campos\">Escola Estadual Governador Milton Campos<\/a>, onde teve, j\u00e1 nos primeiros anos da ditadura militar, os primeiros contatos com o movimento estudantil e a milit\u00e2ncia pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A jovem Dilma Rousseff&nbsp;ingressou na organiza\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica Oper\u00e1ria (Polop) e, ao defender a luta armada contra a ditadura, se alinhou ao Comando de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (Colina). Na \u00e9poca, ela tinha cerca de 20 anos e cursava Economia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Al\u00e9m de Belo Horizonte, Dilma viveu e militou profissionalmente no Rio de Janeiro e em Porto Alegre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir da fus\u00e3o da Colina&nbsp;com a Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria (VPR), que originou a Vanguarda Armada Revolucion\u00e1ria Palmares (VAR-Palmares), Dilma torna-se dirigente da nova organiza\u00e7\u00e3o e, tempos depois, muda-se para S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dilma foi presa em 16 de janeiro de 1970 em um bar na Rua Augusta, regi\u00e3o central de S\u00e3o Paulo. O local era utilizado para encontro clandestino entre militantes. Torturada pelos \u00f3rg\u00e3os da repress\u00e3o e encarcerada no Pres\u00eddio Tiradentes, tamb\u00e9m na capital paulista,&nbsp;a ex-presidenta relembra esse momento doloroso e de resist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira mulher&nbsp;eleita democraticamente presidenta do Brasil, com mandato a partir de 2011, teve em&nbsp;2016 um rev\u00e9s, quando foi afastada do cargo por um golpe orquestrado por distintos setores da pol\u00edtica, da m\u00eddia e do Judici\u00e1rio, situa\u00e7\u00e3o esta retratada no filme&nbsp;<em>Democracia em Vertigem<\/em>, da cineasta Petra Costa e que foi indicado ao Oscar como melhor document\u00e1rio. &#8220;Eu acredito que o filme&nbsp;<em>Democracia em Vertigem&nbsp;<\/em>tem um grande m\u00e9rito, que \u00e9 denunciar o surgimento no Brasil de um processo de extrema direita, que, de uma certa forma, tem caracter\u00edsticas similares ao que acontece em outros pa\u00edses do mundo&#8221;, opina a ex-presidenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao&nbsp;<strong>Brasil de Fato<\/strong>, Dilma tamb\u00e9m fala&nbsp;sobre as atuais disputas eleitorais, com elei\u00e7\u00f5es neste ano e a pr\u00f3xima em 2022, e&nbsp;garante que n\u00e3o concorrer\u00e1 a nenhum cargo, mas tampouco abandonar\u00e1 a pol\u00edtica. J\u00e1 na an\u00e1lise do atual momento pelo&nbsp;qual&nbsp;passa o Brasil, ela declara: \u201cAqui, para impor o neoliberalismo foi necess\u00e1rio um governo neofascista\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OdXq9fumqaE\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Confira na \u00edntegra a entrevista:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Brasil de Fato:&nbsp;No dia 16 de janeiro, se completam 50 anos da sua pris\u00e3o pol\u00edtica na ditadura militar. Na \u00e9poca, a senhora tinha 22 anos. Sendo um epis\u00f3dio marcante da sua trajet\u00f3ria, gostar\u00edamos que a senhora contasse&nbsp;como se deu a sua pris\u00e3o em 1970.&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dilma Rousseff:&nbsp;<\/strong>Eu tinha 22 anos&nbsp;quando fui presa, no dia 16 de janeiro de 1970. Portanto, fazem 50 anos. O Brasil, naquele momento, estava saindo de um governo democr\u00e1tico, eleito pelo voto popular, presidido por Jo\u00e3o Goulart e indo para um processo acelerado de ditadura. Esse processo come\u00e7a em 1964.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, \u00e9 interessante que o golpe n\u00e3o institui a ditadura num ato s\u00f3. Ele vai instituindo camadas crescentes de arb\u00edtrio e autoritarismo. Primeiro,&nbsp;prende e suspende os direitos pol\u00edticos de grandes lideran\u00e7as pol\u00edticas da \u00e9poca e lideran\u00e7as do movimento social tamb\u00e9m, sindicalistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sequ\u00eancia, suspende direitos pol\u00edticos de alguns agentes institucionais, tanto na \u00e1rea do Ex\u00e9rcito como na \u00e1rea do Judici\u00e1rio. N\u00e3o s\u00f3 deputados e senadores, mas tamb\u00e9m ju\u00edzes e militares s\u00e3o cassados. Na sequ\u00eancia, esse \u00e9 um processo crescente,&nbsp;vai se fechando. A ditadura instaura censura \u00e0 imprensa, pro\u00edbe partidos e come\u00e7a uma escalada muito acentuada de fechamento dos espa\u00e7os pol\u00edticos e democr\u00e1ticos de participa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, corta-se o direito de greve, corta-se o direito de manifesta\u00e7\u00e3o, prende-se trabalhadores, prende-se manifestantes do movimento estudantil. Obras culturais, de teatro, por exemplo, sofrem invas\u00f5es, assim como&nbsp;<em>O Rei da Vela<\/em>, se n\u00e3o me engano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E voc\u00ea tem um processo interessante,&nbsp;porque havia tamb\u00e9m no Brasil, de outro lado, entre 1964 e 1968, um processo de insatisfa\u00e7\u00e3o grande e tamb\u00e9m de mobiliza\u00e7\u00e3o muito grande que se prestava no cinema. O Cinema Novo, por exemplo, tem todo um conjunto de obras muito importantes. Voc\u00ea tem tamb\u00e9m na m\u00fasica e em todas as \u00e1reas. E esse \u00e9 um processo tamb\u00e9m que vai cair muito forte sobre a cultura no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, \u00e9 pr\u00f3prio dos processos de autoritarismo e de ditadura voc\u00ea ter um fechamento tamb\u00e9m na \u00e1rea cultural. Porque o mundo da cultura \u00e9 um mundo cr\u00edtico. &nbsp;E, numa ditadura, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o se aceita cr\u00edtica pol\u00edtica como n\u00e3o se aceita cr\u00edtica de costumes. Tem at\u00e9 um jornalista, que \u00e9 o nosso Stanislaw Ponte Preta, que criou o &#8220;Festival de Besteira que Assola o Pa\u00eds&#8221;, que justamente evidenciava que o Brasil estava sendo objeto de absurdos como desse tipo que a gente v\u00ea hoje, por exemplo, dizendo que menina veste cor de rosa e menino veste azul. Tinha isso tamb\u00e9m naquele momento. Foi o Stanislaw que evidenciou e demarcou o que \u00e9 que acontecia quando voc\u00ea instaura o autoritarismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E isso foi crescendo. Quando chega dezembro de 1968, h\u00e1 o AI-5, que eu acredito que \u00e9 o marco mais claro de constru\u00e7\u00e3o definitiva da ditadura. E a\u00ed&nbsp;come\u00e7a a repress\u00e3o. Voc\u00ea reprime movimentos sociais,&nbsp;reprime movimentos oper\u00e1rios, camponeses. H\u00e1 um processo de repress\u00e3o violento. E esse processo come\u00e7a e atinge tamb\u00e9m todas as organiza\u00e7\u00f5es alternativas de esquerda que surgem nesse processo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque uma das coisas mais graves da ditadura \u00e9 fazer com que as pessoas, principalmente a juventude, fiquem&nbsp;descrentes da democracia. Achem&nbsp;que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para a democracia. No Brasil, durante um per\u00edodo, havia essa vis\u00e3o de que jamais deixariam um espa\u00e7o democr\u00e1tico para as pessoas se manifestarem. Tudo isso leva a movimentos e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas fora das organiza\u00e7\u00f5es tradicionais. Porque a ditadura militar instaura um bipartidarismo entre Arena e MDB e ela cassa todos os demais partidos e pro\u00edbe a organiza\u00e7\u00e3o desses partidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, surgem organiza\u00e7\u00f5es clandestinas. Eu sou presa no processo de endurecimento do regime militar, que leva, a partir do final de 1969 e in\u00edcio de 1970, a uma constante busca de presos pol\u00edticos pela repress\u00e3o. Ent\u00e3o, essa captura e coloca\u00e7\u00e3o em pres\u00eddios at\u00e9 ilegais, em pris\u00f5es ilegais, ou seja, nas quais voc\u00ea como preso n\u00e3o era reconhecido at\u00e9 ir para a pris\u00e3o, que funcionava como uma esp\u00e9cie de cart\u00f3rio no qual te identificavam. Tudo isso se acentua muito e se radicaliza muito durante o governo [Em\u00edlio Garrastazu] M\u00e9dici.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 o processo que come\u00e7a e que, depois, vai produzir n\u00e3o s\u00f3 tortura, que j\u00e1 existia, mas a tortura sistem\u00e1tica. E&nbsp;incluindo o que eles chamam de&nbsp;necessidade de mortes e assassinatos pol\u00edticos, porque acreditam que as pessoas n\u00e3o s\u00e3o recuper\u00e1veis. E \u00e9 nesse contexto&nbsp;que, no in\u00edcio dos anos 1970, j\u00e1 tinha sido criado o DOI-CODI em S\u00e3o Paulo e no Rio, e&nbsp;em outros estados, mas o foco principal estava em S\u00e3o Paulo e no Rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu fui presa em S\u00e3o Paulo, pelo DOI-CODI 2, do segundo Ex\u00e9rcito, que era chamado tamb\u00e9m de Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante,&nbsp;porque uma parte disso foi financiado por um segmento da elite econ\u00f4mica paulista&nbsp;que pagava, por exemplo, muitas vezes,&nbsp;a gasolina, o transporte de toda a opera\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m era respons\u00e1vel pelas chamadas quentinhas que come\u00e7am a aparecer. Eu acredito que as primeiras quentinhas apareceram para alimentar os presos pol\u00edticos desse pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um filme&nbsp;que&nbsp;retrata esse per\u00edodo&nbsp;\u00e9 o&nbsp;<em>Torre das Donzelas<\/em>, lan\u00e7ado em 2019, que fala sobre as mulheres presas na ditadura militar no Pres\u00eddio Tiradentes, em S\u00e3o Paulo, que foi onde a senhora ficou presa. Sobre isso, como foi a vida dentro da pris\u00e3o, tanto do ponto de vista da conviv\u00eancia com as outras presas pol\u00edticas, mas tamb\u00e9m do cotidiano?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme&nbsp;<em>Torre das Donzelas<\/em>&nbsp;\u00e9 uma mostra, uma vis\u00e3o de um segmento. \u00c9 um filme de fic\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 um document\u00e1rio&nbsp;<em>stricto sensu<\/em>. Tem um conte\u00fado de fic\u00e7\u00e3o. Primeiro, porque tentaram reconstruir o pres\u00eddio de Tiradentes, e o pres\u00eddio de Tiradentes \u00e9 imposs\u00edvel de se reconstruir por uma estrutura de ferro. Era um local que diziam que, anteriormente, tinha servido para vender escravos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele tinha, nessa torre &#8212; era uma torre mesmo, propriamente dita &#8212; tinha paredes muito largas, aquelas paredes coloniais antigas extremamente largas. Tanto que voc\u00ea sentava numa janela. Eu tenho 1,70 m, hoje devo ter encolhido um pouco, mas naquela \u00e9poca eu acredito que eu tinha 1,70 m. E eu sentava na janela esticada. A janela me cabia tanto no sentido da largura como do comprimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era muito ir\u00f4nico. Porque era um local que, visivelmente, serviu para a pior coisa que esse pa\u00eds j\u00e1 teve, que foi a escravid\u00e3o. E tinha uma forma de sobrado brasileiro.Tinha aquela escadaria que come\u00e7ava unida e depois se repartia e virava um p\u00e9 direito muito alto. Ent\u00e3o, \u00e9 muito dif\u00edcil voc\u00ea ver a Torre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu disse a elas quando eu fui gravar: &#8220;Eu acho que n\u00e3o \u00e9 adequado. Voc\u00eas acham que voc\u00eas fizeram, mas a minha mem\u00f3ria n\u00e3o tem nada a ver com aquela arquitetura de ferro. N\u00e3o \u00e9 aquilo&#8221;. E \u00e9 importante entender porque que era. Porque voc\u00ea organiza o cotidiano numa cadeia disputando duas coisas: tempo e espa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9 uma cadeia? \u00c9 o controle do seu tempo. Ent\u00e3o, o controle do seu tempo \u00e9 o seguinte: sempre que impuserem uma disciplina em uma cadeia, est\u00e1 descontrolando o tempo. Se disser: &#8220;De manh\u00e3 voc\u00ea faz isso, meio dia voc\u00ea faz aquilo e \u00e0 tarde voc\u00ea faz isso, e \u00e0 noite&#8230;&#8221;. E o espa\u00e7o, por suposto, porque te trancam numa cela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual foi a iniciativa pol\u00edtica que as presas mulheres tiveram dentro da Torre? Elas controlavam o tempo e o espa\u00e7o, dentro das suas possibilidades limitadas. O que significava isso? Procurar o m\u00e1ximo de tempo poss\u00edvel ficar com a cela aberta, permitindo que voc\u00ea circulasse de um lado para o outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vou insistir, eram espa\u00e7os extremamente pass\u00edveis de serem circunscritos, porque eram paredes muito largas. E,&nbsp;a\u00ed sim, essas paredes largas, geralmente&nbsp;eram bloqueadas por uma porta de ferro. Uma presa, inclusive, uma vez, fechou uma porta no dedo e o dedo quebrou, fratura exposta, porque a porta era bastante larga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, n\u00f3s consegu\u00edamos ir de uma cela a&nbsp;outra, porque control\u00e1vamos o espa\u00e7o tamb\u00e9m,&nbsp;e&nbsp;o tempo. N\u00f3s decidimos o que fazer dentro do tempo. N\u00f3s come\u00e7amos a cozinhar a nossa pr\u00f3pria comida, a buscar&nbsp;os livros,&nbsp;o&nbsp;maior volume de livros poss\u00edvel dentro de uma pris\u00e3o. Eu acho que uma das coisas mais importantes que n\u00f3s conquistamos foi isso:&nbsp;t\u00ednhamos muitos livros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E t\u00ednhamos discos. Eu conheci tango na pris\u00e3o. N\u00e3o era da minha \u00e1rea. Eu era de Minas Gerais, nasci em Belo Horizonte. E vivi minha vida adulta l\u00e1 e depois fui para o Rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, o cotidiano era uma disputa constante. O preso \u00e9 um preso, principalmente quando est\u00e1 em grupo. Um preso individual \u00e9 diferente, sozinho. Porque a solid\u00e3o na cadeia \u00e9 uma coisa muito dura. Por isso eu acho que o presidente Lula tem um grande m\u00e9rito de ter sido capaz de construir para si uma vida decente dentro de uma pris\u00e3o. Porque voc\u00ea constr\u00f3i uma vida decente, mas n\u00f3s t\u00ednhamos muitas companheiras. Era muita gente. Ent\u00e3o constru\u00edmos uma vida cotidiana, apesar dos pesares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, ao mesmo tempo, constru\u00edmos tamb\u00e9m uma vida pol\u00edtica, porque a gente dirigia, dentro das nossas possibilidades, ou seja, limitadas, a gente dirigia nossa vida. N\u00f3s definimos quem cozinhava, quantas equipes eram, quem lavava a Torre, quantas vezes por semana, quem entrava&#8230; Enfim, n\u00f3s constru\u00edmos um cotidiano, nisso que eu falei de conquistar o espa\u00e7o e o tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da mesma forma, a gente estava em uma etapa da pris\u00e3o. A pris\u00e3o no Brasil era assim naquela \u00e9poca. Voc\u00ea era presa e voc\u00ea desaparecia. Ao entrar na pris\u00e3o voc\u00ea desaparecia. N\u00e3o tinha registro. E a\u00ed, havia tortura sistem\u00e1tica por um tempo. E geralmente essa tortura se dava nas estruturas controladas pelas For\u00e7as Armadas, basicamente o Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois disso, voc\u00ea era levada a partir de um determinado tempo. Na minha \u00e9poca eram uns dois meses, mais ou menos. Voc\u00ea ia para o DOPS, Departamento de Ordem e Pol\u00edtica Social, e fazia aquilo que se chamava &#8220;fazer o cart\u00f3rio&#8221;, que era fazer seu registro. Voc\u00ea tirava aquelas fotografias de perfil, de frente, pegavam as suas impress\u00f5es digitais e fazia o depoimento. Porque o depoimento obtido na Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante&nbsp;n\u00e3o aparecia. Porque no processo de tortura no Brasil, eles mantiveram a apar\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tinha um momento que era dos curto-circuitos. Onde \u00e9 que se dava o curto-circuito? Do momento em que voc\u00ea sa\u00eda do DOI-CODI, n\u00e9? O processo de cart\u00f3rio \u00e9 o processo de curto-circuito. Ele te legalizava. Ent\u00e3o esse \u00e9 um momento fundamental. Porque \u00e9 a\u00ed que os dados do processo come\u00e7ariam a aparecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E tinha outra caracter\u00edstica tamb\u00e9m, que eu vi aqui repetido nesses processos da Lava Jato. Eles segmentavam a acusa\u00e7\u00e3o. O que \u00e9 segmentar a acusa\u00e7\u00e3o? Eu integrava uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Eu nunca participei de a\u00e7\u00e3o armada, etc. Mas eu integrava uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o era condenada por integrar uma organiza\u00e7\u00e3o, eu era condenada pelos estados por onde eu andei. Ent\u00e3o eu tinha um processo em Minas, um em S\u00e3o Paulo e outro no Rio de Janeiro. E a\u00ed voc\u00ea levava tr\u00eas temas. Porque isso tamb\u00e9m te mantinham&nbsp;na cadeia, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando voc\u00ea sa\u00eda, mesmo sobrando tempo, depois de cumprir, eu fui condenada,&nbsp;eu acho que a&nbsp;seis anos e meio. Eu cumpri tr\u00eas anos. Depois, eu cumpri tr\u00eas anos por qu\u00ea? Porque, no meu processo, a Justi\u00e7a derrubava senten\u00e7as. Porque voc\u00ea era julgado tr\u00eas vezes pela mesma coisa. Ent\u00e3o eu acabei sendo condenada a dois anos e um m\u00eas. E fiquei tr\u00eas&nbsp;anos. Eles n\u00e3o te devolviam esse ano que voc\u00ea ficou a mais porque a lei de seguran\u00e7a dizia que n\u00e3o tinha devolu\u00e7\u00e3o, nem processo contra o Estado nem nada. Ent\u00e3o essa era a ideia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a tortura \u00e9 algo extremamente complexo. Eu acho que todo mundo que passou pela pris\u00e3o sempre vai ter essa marca. Eu n\u00e3o gosto de ver filme, por exemplo, que passa tortura. N\u00e3o \u00e9 que eu n\u00e3o goste. Eu n\u00e3o vejo. \u00c9 pior, n\u00e9? Eu n\u00e3o quero ver. A tortura \u00e9 algo que mexe com aquilo que \u00e9 mais profundo e que constitui voc\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que constitui um ser humano? A imensa capacidade de sentir dor f\u00edsica,&nbsp;e&nbsp;psicol\u00f3gica tamb\u00e9m. Mas a f\u00edsica \u00e9 algo que nos identifica com o resto da humanidade e, inclusive, com os mam\u00edferos, os animais. Eles tamb\u00e9m t\u00eam dor. A dor \u00e9 uma coisa, no caso do ser humano, ela \u00e9 sempre uma amea\u00e7a de morte, quando se trata de tortura. Uma est\u00e1 ligada \u00e0 outra. Ent\u00e3o \u00e9 dor. A percep\u00e7\u00e3o da dor e da morte. \u00c9 isso que a tortura \u00e9. E todos n\u00f3s, cada um de n\u00f3s, temos horror a ter dor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada peda\u00e7o do seu corpo reage \u00e0 possibilidade da morte, por isso que quando a pessoa est\u00e1 com muita depress\u00e3o \u00e9 que ela se mata. Se ela n\u00e3o tem depress\u00e3o, \u00e9 muito dif\u00edcil ela se matar. \u00c9 complicad\u00edssimo, ela n\u00e3o se mata, mesmo em situa\u00e7\u00f5es limites. Para voc\u00ea dar esse passo, \u00e9 algo muito dif\u00edcil. Ent\u00e3o, n\u00f3s temos de enfrentar o fato de que trabalham com isso, trabalham com dor e morte. \u00c9 isso que \u00e9 a tortura. Dor e morte sistematicamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E com algo terr\u00edvel, que \u00e9 fazer a pessoa perder a dignidade. Esse \u00e9 o componente da dor psicol\u00f3gica. Eles querem que voc\u00ea perca a dignidade, que voc\u00ea traia as suas convic\u00e7\u00f5es, que voc\u00ea abandone o que voc\u00ea pensa. Isso \u00e9, talvez, a decorr\u00eancia maior da pris\u00e3o. Voc\u00ea \u00e9 preso e \u00e9 isso que fazem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu tenho imensa solidariedade por alguns dos companheiros que foram levados a renunciar \u00e0s suas convic\u00e7\u00f5es depois de processos de tortura, indo \u00e0 televis\u00e3o. \u00c9 uma solidariedade que eu tenho com eles. Esse processo de destrui\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m, \u00e9 um processo de fazer com que a pessoa se transforme em um morto-vivo. O que faz uma pessoa depois de trair o que pensa, depois de trair a si mesmo? Fica morto andando pela rua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, esse processo, que \u00e9 um processo que os Estados Unidos&nbsp;faziam em Abu Ghraib [pris\u00e3o iraquiana], \u00e9 um processo que voc\u00ea percebe que ele tem um componente extremamente fascista ou nazista, de destrui\u00e7\u00e3o da pessoa.&nbsp;Esse processo \u00e9 um complemento elevado \u00e0 en\u00e9sima pot\u00eancia da tortura e da morte tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, eu vi gente que foi levada nesses esquemas e acho que cada um de n\u00f3s s\u00f3 aguenta tortura se enganando. Voc\u00ea fala: &#8220;Agora eu aguento mais cinco, dois&nbsp;minutos. Agora eu aguento mais tr\u00eas&nbsp;minutos&#8221;. Porque voc\u00ea n\u00e3o imagina que voc\u00ea vai aguentar um dia, porque isso \u00e9 uma eternidade. Misturou dor, o tempo passa a ser minutos ou segundos. Ent\u00e3o, voc\u00ea tem que se autoenganar. \u00c9 assim que voc\u00ea faz. Voc\u00ea se autoengana. E mente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vez eu fui para o Senado, e um senador, se n\u00e3o me engano, o Agripino Maia disse: &#8220;Mas voc\u00ea mentiu perante a tortura&#8221;. Eu tenho orgulho de ter mentido. Na ditadura ou voc\u00ea mente ou voc\u00ea n\u00e3o sobrevive. Na democracia \u00e9 que se fala a verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, esse \u00e9 um processo e tem uma por\u00e7\u00e3o de pessoas, todas as pessoas que est\u00e3o dentro do pres\u00eddio passaram por isso. Elas viveram isso. Ent\u00e3o isso est\u00e1 subjacente. A gente ri, a gente brinca, a gente joga v\u00f4lei, sempre que pode, ou sempre que conquista esse espa\u00e7o, mas a gente tem essa marca, cada uma de n\u00f3s. E \u00e9 com isso que a gente convive e cria cotidiano, porque tem tamb\u00e9m outras vantagens. A gente tinha 20 anos, a gente achava uma pessoa de 30 muito velha. Ent\u00e3o, quando voc\u00ea tem 20, tamb\u00e9m \u00e9 mais f\u00e1cil tudo isso, voc\u00ea tem for\u00e7a vital para superar isso. E eu&nbsp;acho que n\u00e3o tem como passar a vida tendo m\u00e1goa disso, isso \u00e9 um absurdo. Porque n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter \u00f3dio. \u00d3dio \u00e9 dar a quem fez isso contigo, um poder que n\u00e3o pode ter. Voc\u00ea tem de olh\u00e1-los como eles s\u00e3o: banais. S\u00e3o banais. Podem ser taxados de criminosos, mas qual criminoso n\u00e3o \u00e9 um pouco banal?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Hoje a gente vive um cen\u00e1rio em que o governo Bolsonaro t\u00eam o militarismo como uma de suas bases. A gente j\u00e1 tem casos de censura a&nbsp;pesquisadores, artistas, organiza\u00e7\u00f5es sociais. Presidenta, na sua avalia\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel relacionar esses dois momentos? Quais s\u00e3o as aproxima\u00e7\u00f5es do tempo da ditadura com a conjuntura atual que a gente est\u00e1 vivendo? &nbsp;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu acho que&nbsp;s\u00e3o diferentes. Quando ocorreu o processo da ditadura, voc\u00ea tinha&nbsp;um tipo de governo. A forma pol\u00edtica da ditadura, ela implica a gente fazer uma imagem que talvez fique mais f\u00e1cil, \u00e9 imaginar que a democracia \u00e9 uma \u00e1rvore, a ditadura implica em um corte radical da \u00e1rvore. Voc\u00ea corta galho, voc\u00ea n\u00e3o deixa pedra sobre pedra. Voc\u00ea tira todos os direitos: organiza\u00e7\u00e3o, manifesta\u00e7\u00e3o;&nbsp;o Congresso fecha. Voc\u00ea fecha todas as hip\u00f3teses. A sociedade como um todo \u00e9 atingida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E esse processo que n\u00f3s estamos vivendo, na crise do neoliberalismo, no caso brasileiro, voc\u00ea tem uma esp\u00e9cie de invas\u00e3o da \u00e1rvore por fungos parasitas por processos de contamina\u00e7\u00e3o, que corroem a democracia por dentro. A\u00ed voc\u00ea tem, por exemplo, a Lava Jato, que talvez tenha sido o maior instrumento para construir a pauta neoliberal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Lava Jato existe para construir a possibilidade de tirar direitos dos trabalhadores, a possibilidade de uma reforma da Previd\u00eancia que produz 1,3&nbsp;milh\u00e3o pessoas esperando aposentadoria, com filas no INSS, coisa que n\u00f3s t\u00ednhamos acabado. Produz a venda das nossas estatais. Venderam a EMBRAER para a Boeing, uma empresa que est\u00e1 em crise porque caiu aquele jato deles, sem falar que eles j\u00e1 vinham tendo problema, a ponto da Airbus j\u00e1 ter passado a Boeing agora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, de qualquer jeito, eles entregam a soberania brasileira, porque eles se submetem a todas as exig\u00eancias do neoliberalismo tardio. Esse sistema, que j\u00e1 est\u00e1 em crise no mundo, j\u00e1 que cria uma brutal desigualdade, que destr\u00f3i as pol\u00edticas sociais e a redu\u00e7\u00e3o imensa da mis\u00e9ria e da pobreza que n\u00f3s fizemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois bem, isso s\u00f3 ocorre porque a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato constr\u00f3i a narrativa da corrup\u00e7\u00e3o, que \u00e9 estrat\u00e9gica para destruir n\u00e3o s\u00f3 o PT, mas destr\u00f3i os outros partidos, de direita, de centro. Tanto \u00e9 que surge o neofascismo do Bolsonaro. Ent\u00e3o, o fen\u00f4meno do neofascismo \u00e9 t\u00edpico desse processo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O outro processo \u00e9 a ditadura militar. Eu n\u00e3o quero fazer ju\u00edzo de valor, acho que os dois s\u00e3o p\u00e9ssimos, mas, nesse caso, do neofascismo voc\u00ea ainda tem espa\u00e7os democr\u00e1ticos. H\u00e1 de se perceber isso. O que n\u00e3o significa que o povo brasileiro possa sofrer muito mais sobre o governo de uma forma de extrema direita, como \u00e9 o do Bolsonaro, que \u00e9 contra tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 contra todos os aspectos culturais da vida que se coloca de joelhos perante os Estados Unidos, que faz com que o pa\u00eds perca toda a autoestima que conquistou nos \u00faltimos anos nos governos do PT.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o de descalabro econ\u00f4mico, social, pol\u00edtico e cultural. N\u00e3o tem \u00e1rea que n\u00e3o tenha essas feridas. Porque, por exemplo, o governo [Ernesto] Geisel n\u00e3o foi um governo entreguista,&nbsp;foi um governo que autorizou a morte, que \u00e9 absolutamente sem palavras que n\u00e3o sejam aqueles adjetivos que a gente tem de usar. \u00c9 um terror de Estado, \u00e9 um absurdo a morte de advers\u00e1rios como forma de luta pol\u00edtica. Que \u00e9 o caso da autoriza\u00e7\u00e3o de morte dos presos na \u00e9poca do governo Geisel. Mas o governo Geisel tem um m\u00e9rito, porque defendeu a economia brasileira. E esse m\u00e9rito vai ser reconhecimento dele, porque n\u00e3o entregou o pa\u00eds. N\u00e3o negociou a soberania do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A gente est\u00e1 num ano eleitoral. As elei\u00e7\u00f5es municipais j\u00e1 d\u00e3o sinais de um cen\u00e1rio para 2022 tamb\u00e9m. A senhora foi candidata ao Senado em 2018, em uma elei\u00e7\u00e3o marcada pela ascens\u00e3o do bolsonarismo. A senhora tem planos de se candidatar em algum momento?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o, n\u00e3o tenho nenhum. N\u00e3o tenho mais planos eleitorais. Eu tenho planos pol\u00edticos. O que n\u00e3o significa planos eleitorais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s elei\u00e7\u00f5es, tomando como li\u00e7\u00e3o o cen\u00e1rio de 2018, o que a senhora aponta como a postura do que deveria ser a esquerda brasileira numa pr\u00f3xima disputa eleitoral.&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A esquerda brasileira e os progressistas brasileiros tinham de se unir. Eu acho que \u00e9 nisso que todos acreditam. Eu acho interessant\u00edssimas as propostas sobre que \u00e9 necess\u00e1rio ir ao centro. S\u00f3 que, quem fala que \u00e9 necess\u00e1rio ir ao centro, ou seja, que as pol\u00edticas de consenso que levem a uma desradicaliza\u00e7\u00e3o, que possibilitem uma despolariza\u00e7\u00e3o, partem do princ\u00edpio de que \u00e9 um centro, um centro pol\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, no Brasil, houve um centro pol\u00edtico. A gente pode at\u00e9 chamar esse centro pol\u00edtico de centro democr\u00e1tico. Esse centro democr\u00e1tico estava claro na Constituinte de 1988, que tinha o Dr. Ulysses [Guimar\u00e3es], M\u00e1rio Covas, pessoas de estatura, que eram pessoas que tinham compromisso com o pa\u00eds. O que que aconteceu? O centro pol\u00edtico no Brasil foi sendo fragmentado e, nos \u00faltimos anos, no caso por exemplo do PMDB (MDB), esse centro pol\u00edtico construiu uma hegemonia pela direita nos anos do Eduardo Cunha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o foi isso s\u00f3 que aconteceu. A arma Lava Jato, que \u00e9 fundamental, foi constru\u00edda para destruir o PT. Mas ela teve tamb\u00e9m um efeito que foi atingir os partidos que n\u00e3o estavam previstos para serem atingidos, como o PSDB. Mesmo eles sendo tratados de forma absolutamente diferenciada, eles foram bastante atingidos. Em especial, aquele que n\u00e3o soube perder. Nosso querido golpista, que n\u00e3o soube perder. Mas eles acertaram ao construir um governo ileg\u00edtimo como o de Michel Temer e levar para o governo toda a proposta&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque o Temer tem raz\u00e3o quando diz que&nbsp;Bolsonaro completa ele. \u00c9 verdade. Ambos s\u00e3o neoliberais. Mas o que acontece \u00e9 que, com isso, o centro \u00e9 destru\u00eddo. Ou melhor dizendo, o centro se destruiu. A\u00e9cio Neves, Jos\u00e9 Serra, pelo PSDB. O PSDB desmontou. O Alckmin foi um concorrente importante \u00e0 Presid\u00eancia e levou 4% s\u00f3 na \u00faltima elei\u00e7\u00e3o, que produziu Bolsonaro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O centro foi destru\u00eddo pelo processo. N\u00e3o cria um cara de centro-direita graciosamente. Ao contr\u00e1rio do que ocorreu nos Estados Unidos e na Alemanha, que o neoliberalismo se imp\u00f5e nos marcos da democracia liberal, aqui, para impor o neoliberalismo foi necess\u00e1rio um governo neofascista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E esse governo neofascista constr\u00f3i na destrui\u00e7\u00e3o do centro. Ent\u00e3o, qual \u00e9 o centro que \u00e9 pass\u00edvel de se conversar? Que n\u00e3o esteja completamente comprometido e contaminado pela pol\u00edtica neoliberal neofascista? Porque achar que o neofascismo \u00e9 algo solit\u00e1rio, sozinho, e n\u00e3o \u00e9 como uma esp\u00e9cie de irm\u00e3o siam\u00eas do neoliberalismo \u00e9 n\u00e3o entender a hist\u00f3ria. \u00c9 n\u00e3o entender que aqueles que posam de centro e que s\u00e3o neoliberais, eles compactuam com o neofascismo. Podem at\u00e9 franzir os narizes e levantar as sobrancelhas, mas apoiam. Porque s\u00f3 eles podem entregar as reformas neoliberais que eles querem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, a elei\u00e7\u00e3o precisa desse polo verdadeiramente democr\u00e1tico que \u00e9 integrado pelo pessoal mais progressista de esquerda.&nbsp;E&nbsp;que percebe que n\u00e3o existe neofascismo sem neoliberalismo,e n\u00e3o existe neoliberalismo sem neofascismo.&nbsp;N\u00e3o d\u00e1 para acreditar na divis\u00e3o desses dois. \u00c9 isso que caracteriza as elei\u00e7\u00f5es de 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Presidenta, sobre o document\u00e1rio&nbsp;<em>Democracia em Vertigem<\/em>, n\u00e3o se fala em outra coisa nesta semana desde que o filme foi indicado ao Oscar de 2020. Como a senhora recebeu a not\u00edcia da indica\u00e7\u00e3o e o que significa politicamente esse reconhecimento internacional da obra da diretora Petra Costa?&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu acredito que o filme&nbsp;<em>Democracia em Vertigem<\/em>&nbsp;tem um grande m\u00e9rito, que \u00e9 denunciar o surgimento no Brasil de um processo de extrema direita, que de uma certa forma tem caracter\u00edsticas similares ao que acontece em outros pa\u00edses do mundo. Mas, para efeito s\u00f3 do pa\u00eds, eu considero que \u00e9 muito importante o que a Petra Costa mostra nesse filme. Porque ela mostra com imagens do momento o que, do ponto de vista dela, ocorreu. E do meu ponto de vista tamb\u00e9m: que foi um golpe de Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, um processo em base nos fundamentos jur\u00eddicos da Constitui\u00e7\u00e3o Brasileira, que prev\u00ea um impeachment no caso de crime de responsabilidade, sem crime de responsabilidade. Coloca na pauta um golpe de Estado justamente para viabilizar uma agenda que tinha sido derrotada em quatro elei\u00e7\u00f5es consecutivas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu acho que essa narrativa mostra toda a a\u00e7\u00e3o dos principais sujeitos daquele momento. Ent\u00e3o, a imprensa, as responsabilidades da imprensa neste processo do golpe est\u00e3o evidenciadas. Assim como a responsabilidade do PSDB, as responsabilidades no surgimento das lideran\u00e7as de direita, que hoje ocupam o cen\u00e1rio. E, sobretudo, ela evidencia como \u00e9 que isso abriu caminho para a chegada do Bolsonaro ao poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Fonte: Brasil de Fato<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s 50 anos de sua pris\u00e3o na ditadura militar, Dilma fala sobre mem\u00f3ria, companheirismo, resist\u00eancia e cen\u00e1rio 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