{"id":16833,"date":"2020-12-07T07:33:24","date_gmt":"2020-12-07T10:33:24","guid":{"rendered":"http:\/\/blogopara.com.br\/?p=16833"},"modified":"2020-12-06T21:52:48","modified_gmt":"2020-12-07T00:52:48","slug":"ex-microsoft-ajudou-a-acelerar-600-startups-de-impacto-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/2020\/12\/07\/ex-microsoft-ajudou-a-acelerar-600-startups-de-impacto-social","title":{"rendered":"Ex-Microsoft ajudou a acelerar 600 startups de impacto social"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Depois de passar anos no mercado empresarial, Andrea Gomides est\u00e1 hoje no que considera a contram\u00e3o das grandes aceleradoras. H\u00e1 13 anos, o instituto Ekloos, fundado por ela, se dedica a impulsionar neg\u00f3cios de impacto social criados por mulheres, jovens e negros perif\u00e9ricos.<\/p>\n<p>O instituto \u00e9 hoje a maior aceleradora social do Brasil, gerenciando mais de 600 organiza\u00e7\u00f5es. Entre seus casos de maior sucesso, est\u00e1 a primeira loja f\u00edsica de bonecas negras no pa\u00eds &#8211; a Era uma vez o Mundo, da historiadora Jaciana Melquiades.<\/p>\n<p>Para a empres\u00e1ria, que antes de montar seu neg\u00f3cio passou pela Microsoft e HP, embora o empreendedorismo social esteja crescendo no Brasil, ainda caminha a passos lentos.<\/p>\n<p>A principal dificuldade, diz ela, \u00e9 a de capacitar pessoas com boas ideias, mas que tiveram pouco acesso a ferramentas do empreendedorismo. A segunda \u00e9 atrair investidores-anjos &#8211; ou seja, pessoas dispostas a aplicarem o capital inicial em uma startup com esse foco.<\/p>\n<p>PERGUNTA: Quais s\u00e3o os maiores desafios para tornar mais diverso o ecossistema de startups?<\/p>\n<p>ANDREA GOMIDES &#8211; Nos dois \u00faltimos editais n\u00f3s trabalhamos com 54% de iniciativas lideradas por negros, 57% por mulheres. S\u00e3o dois perfis, mesmo o de mulheres brancas, que s\u00e3o minorias no universo de startups.<\/p>\n<p>A gente tem duas quest\u00f5es: por um lado eles t\u00eam muito conhecimento do problema, mas tiveram pouco acesso \u00e0 forma\u00e7\u00e3o empreendedora. Essa \u00e9 uma das principais dificuldades. Conseguir inseri-los no universo do empreendedorismo com uma l\u00f3gica do mercado e marketing, porque no processo de forma\u00e7\u00e3o tiveram pouco acesso.<\/p>\n<p>Trabalhamos com pessoas geniais do ponto de vista de cria\u00e7\u00e3o, mas que do ponto de vista do empreendedorismo, n\u00e3o v\u00e3o te dar as respostas geniais que startups &#8220;pops&#8221;, &#8220;bombadas&#8221;, dariam. Tentamos inseri-los nesse mundo, para que possam ter sucesso em uma rodada de investimento.<\/p>\n<p>A segunda quest\u00e3o \u00e9 a dificuldade que eles t\u00eam de obter capital semente, investimentos iniciais para que consigam escalar, porque n\u00e3o conseguem investir do pr\u00f3prio bolso. Se voc\u00ea pega uma pessoa de classe m\u00e9dia alta, que tem uma ideia maravilhosa, ela vai ter &#8220;paitrocinador&#8221; ou ela mesma vai ter o dinheiro.<\/p>\n<p>Quando a gente t\u00e1 falando de jovens perif\u00e9ricos, negros e mulheres, essas pessoas n\u00e3o t\u00eam o capital inicial. No Brasil a gente tem muito pouco investimento para o que seria o capital semente, quando eu ainda n\u00e3o estou faturando, mas eu preciso de um recurso para comprar m\u00e1quina, comprar mat\u00e9ria-prima, conseguir me desenvolver.<\/p>\n<p>Acho que esses dois fatores atrelados: a defici\u00eancia na forma\u00e7\u00e3o empreendedora, o zero capital inicial, dificultam muito o desenvolvimento do empreendedor negro e de mulheres perif\u00e9ricas.<\/p>\n<p>P: Como avalia o ecossistema de empreendedorismo social no Brasil atualmente?<\/p>\n<p>AG &#8211; Olhando uma linha do tempo na l\u00f3gica social, partimos de organiza\u00e7\u00f5es sem fins lucrativos que tinham um vi\u00e9s muito assistencialista, muito liderados por primeiras-damas, por exemplo, como a dona Ruth Cardoso [1930-2008], que teve um protagonismo muito grande nesse processo das ONGs no Brasil.<\/p>\n<p>Passando por esse assistencialismo, voc\u00ea come\u00e7a a ter ONGs preocupadas em capacitar pessoas, ONGs que d\u00e3o acesso. E a\u00ed a gente vem mais recentemente, atrasados em rela\u00e7\u00e3o ao restante do mundo, com essa l\u00f3gica do setor 2,5: os neg\u00f3cios de impacto. N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o vamos mais ter as duas anteriores, mas s\u00e3o oportunidades que resolvem problemas diferentes.<\/p>\n<p>Hoje voc\u00ea j\u00e1 v\u00ea os neg\u00f3cios de impacto em crescimento. A Pipe Social [plataforma que conecta neg\u00f3cios sociais com investidores], na \u00faltima an\u00e1lise que fez, mapeou 1.200 neg\u00f3cios de impacto, sendo que no nosso \u00faltimo edital recebemos mais de 800 neg\u00f3cios inscritos.<\/p>\n<p>Vemos um crescimento desse vi\u00e9s empreendedor, que n\u00e3o est\u00e1 preocupado em fazer s\u00f3 mais uma geladeira que fale, mas pensa o que meu produto vai fazer de transforma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o temos, por\u00e9m, uma configura\u00e7\u00e3o jur\u00eddica e de imposto que favore\u00e7a isso. O neg\u00f3cio de impacto \u00e9 uma empresa comum? Ou \u00e9 uma ONG? E falta uma vis\u00e3o dos pr\u00f3prios investidores-anjos em entenderem as oportunidades que os neg\u00f3cios de impacto t\u00eam. Estamos no processo de migra\u00e7\u00e3o de vis\u00e3o. Mas vejo um cen\u00e1rio de crescimento e um cen\u00e1rio positivo.<\/p>\n<p>P: Como voc\u00ea montou a aceleradora?<\/p>\n<p>AG &#8211; Eu venho do mercado corporativo. Trabalhei muitos anos na HP, depois na Microsoft, fui respons\u00e1vel pelas vendas indiretas da Microsoft no Brasil, mas paralelo a essa carreira corporativa sempre fiz trabalho social dentro das comunidades.<\/p>\n<p>Em 2007, h\u00e1 13 anos, li um livro chamado &#8220;Sa\u00ed da Microsoft para Mudar o Mundo&#8221; (John Wood, 2007), em que um executivo da empresa resolve fundar uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos, e no livro ele conta como usou conceitos de gest\u00e3o empresarial e as metodologias do mercado corporativo para que a organiza\u00e7\u00e3o dele desse certo.<\/p>\n<p>Por uma s\u00e9rie de fatores, conhecendo a realidade dessas organiza\u00e7\u00f5es, eu achei que faltava para esse setor de impacto o conhecimento estrat\u00e9gico de gest\u00e3o e de inova\u00e7\u00e3o pra que pudesse fazer transforma\u00e7\u00e3o social maior. Em 2007 eu resolvo sair da Microsoft para fundar o instituto Ekloos.<\/p>\n<p>P: Como atuam desde ent\u00e3o?<\/p>\n<p>AG &#8211; Ele \u00e9 configurado como organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos, e desde ent\u00e5o a gente faz o que chamo de programa de acelera\u00e7\u00e3o social. Nosso objetivo, diferente de outras aceleradoras, \u00e9 desenvolver iniciativas de empreendedores sociais, seja sem fins lucrativos ou com, mas nosso principal objetivo \u00e9 talvez trabalhar at\u00e9 na contram\u00e3o das grandes aceleradoras, porque n\u00e3o somos focados em empreendedores de classe m\u00e9dia-alta.<\/p>\n<p>Investimos em mulheres, jovens e negros perif\u00e9ricos. Acreditamos que pessoas que v\u00eam da periferia conhecem seus problemas e conseguem identificar solu\u00e7\u00f5es mais inovadoras. Ent\u00e3o esse \u00e9 nosso principal foco da atua\u00e7\u00e3o. Nesse tempo n\u00f3s j\u00e1 trabalhamos com mais de 600 iniciativas, outras organiza\u00e7\u00f5es sem fins lucrativos, ou neg\u00f3cios de impacto social como a WoTec [empresa que fabrica equipamentos de cinema para cineastas da periferia].<\/p>\n<p>Como funciona o processo de acelera\u00e7\u00e3o? Trabalhamos simultaneamente com v\u00e1rios programas, dependendo dos nossos financiadores. Recentemente fizemos uma parceria com o Oi Futuro. Selecionamos nesse processo 20 iniciativas sociais do estado do Rio de Janeiro e fizemos um acompanhamento durante nove meses.<\/p>\n<p>Fazemos diagn\u00f3stico, entendemos as defici\u00eancias das organiza\u00e7\u00f5es e a partir disso utilizamos metodologias do mercado corporativo adaptadas \u00e0 realidade social. Usamos uma metodologia que a gente chama de Canvas de Impacto Social, com a qual fazemos um plano de viabilidade financeira e estrat\u00e9gia de atua\u00e7\u00e3o e reposicionamento de marca. Conseguimos assim transformar boas ideias em empresas de verdade, que possam ser sustent\u00e1veis.<\/p>\n<p>P: Que tipo de empresas procuram?<\/p>\n<p>AG &#8211; Trabalhamos tanto com ONGs, com objetivo somente social, sem visar lucros, como tamb\u00e9m com startups que visam lucro, mas t\u00eam vi\u00e9s social forte, por isso chamamos de neg\u00f3cios de impacto. N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o v\u00e3o gerar lucro, ter bons sal\u00e1rios, mas o principal objetivo \u00e9 combater a quest\u00e3o social a qual est\u00e3o se propondo. Todo o reinvestimento \u00e9 para possibilitar o desenvolvimento social.<\/p>\n<p>Gostamos muito de trabalhar com iniciativas que j\u00e1 passaram do est\u00e1gio de idea\u00e7\u00e3o, j\u00e1 est\u00e3o um pouco mais maduras, mas est\u00e3o zerados. Damos esse empurr\u00e3o inicial. Principalmente com as mentorias, que ligam a chavinha do empreendedor.<\/p>\n<p>P: E de onde v\u00eam os recursos?<\/p>\n<p>AG -No nosso caso, como somos uma ONG, recebemos incentivos de empresas para passarmos por esses processos de mentorias com as startups. Tem com o Oi Futuro, outro com o Instituto Neoenergia, ent\u00e3o a gente tem financiadores que possibilitam trabalho com jovens perif\u00e9ricos que t\u00eam grandes ideias para a transforma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>P: Destacaria alguma iniciativa com a qual trabalharam?<\/p>\n<p>AG &#8211; Citaria a Estante M\u00e1gica, que \u00e9 uma startup de educa\u00e7\u00e3o. A Estante come\u00e7ou com o objetivo de fazer com que a crian\u00e7a, dentro da sala de aula, com o professor, escreva seu pr\u00f3prio livro que vira um ebook gratu\u00edto. A partir do momento que esse livro est\u00e1 pronto, os pais dessa crian\u00e7a podem pagar para que vire um livro impresso.<\/p>\n<p>A Estante M\u00e1gica possibilita que voc\u00ea fa\u00e7a novos escritores, incentive a leitura e a escrita. Quando come\u00e7amos a trabalhar com a estante, ela estava em um est\u00e1gio inicial, j\u00e1 tinha uma hist\u00f3ria, tinha em torno de 30 funcion\u00e1rios, e hoje ela est\u00e1 com 150. J\u00e1 passou por uma rodada de investimentos, j\u00e1 se internacionalizou.<\/p>\n<p>Outro exemplo \u00e9 de uma lideran\u00e7a mulher, negra, perif\u00e9rica, \u00e9 o Era uma vez o Mundo, que produz bonecas de pano negras. Quando a Jaciana Melquiades chegou para a gente ela tinha j\u00e1 tentado, n\u00e3o tinha dado certo, estava parado, mas queria continuar com o sonho. Hoje ela est\u00e1 com duas lojas f\u00edsicas, vendendo muito bem durante a pandemia, o que \u00e9 maravilhoso. Cresceu muito em termos de faturamento. Temos outros, mas s\u00e3o dois orgulhos, para te citar s\u00f3 dois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: BahiaNoticias<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de passar anos no mercado empresarial, Andrea Gomides est\u00e1 hoje no que considera a contram\u00e3o das grandes aceleradoras. H\u00e1 13 anos, o instituto Ekloos, fundado por ela, se dedica a impulsionar neg\u00f3cios de impacto social criados por mulheres, jovens e negros perif\u00e9ricos. 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