{"id":18735,"date":"2021-02-01T15:20:00","date_gmt":"2021-02-01T18:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/blogopara.com.br\/?p=18735"},"modified":"2021-02-01T13:52:33","modified_gmt":"2021-02-01T16:52:33","slug":"flavio-luiz-juazeirense-por-nascimento-e-por-escolha-mas-cidadao-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/2021\/02\/01\/flavio-luiz-juazeirense-por-nascimento-e-por-escolha-mas-cidadao-do-mundo","title":{"rendered":"FL\u00c1VIO LUIZ: JUAZEIRENSE POR NASCIMENTO E POR ESCOLHA MAS CIDAD\u00c3O DO MUNDO."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Joseph Bandeira<\/em><\/p>\n<p>Em que pensaria \u201cO Pensador\u201d de Rodin sen\u00e3o na morte, tanta e tamanha a concentra\u00e7\u00e3o em que medita na \u201cPorta do Inferno\u201d? Por que tenta em v\u00e3o o homem tapar os ouvidos com as m\u00e3os para n\u00e3o ouvir \u201cO Grito\u201d do seu pr\u00f3prio desespero ante \u201ca dor do mundo\u201d, que Munch eternizou na mais valiosa tela do Expressionismo? Pode haver sensa\u00e7\u00e3o mais desagrad\u00e1vel que a do pensamento fixo na fuma\u00e7a e nas cinzas em que velozmente se transformam os desejos e os prazeres o \u201cda exist\u00eancia? Como racionalizar o paradoxo segundo o qual o \u201cpassar\u201d \u00e9 a pr\u00f3pria ess\u00eancia do \u201cser\u201d? Por que a dor e a morte n\u00e3o se cansam nunca de nos ca\u00e7ar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fl\u00e1vio Luiz deve ter-se-feito essas e outras perguntas vezes sem conta. Espontaneamente nascidas do \u201cemaranhado qu\u00e2ntico\u201d da exist\u00eancia com o pensamento, s\u00e3o fraturas expostas na s\u00edntese do fen\u00f4meno humano em si, relativizado na singularidade de homem ou mulher, hetero ou homossexual, rico ou pobre, branco ou negro, mu\u00e7ulmano ou budista, crist\u00e3o ou ateu, jovem ou velho, sadio ou enfermo, feliz ou infeliz. Respond\u00ea-las \u00e9 o escorchante imposto que pagamos \u00e0 consci\u00eancia de que vivemos para morrer. Que prova\u00e7\u00e3o das prova\u00e7\u00f5es n\u00e3o ser\u00e1, portanto, a da intelig\u00eancia que as formula, sabendo-as antecipadamente sem respostas que conven\u00e7am. Mas eu apenas aqui e agora as repito, ainda que sem aspas, porque absolutamente dispens\u00e1veis, sem lhes acrescentar, todavia, um s\u00f3 grama ou mil\u00edmetro de ang\u00fastia ou perplexidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo n\u00e3o tendo voca\u00e7\u00e3o para artista ou pensador, porque era um pragm\u00e1tico em tudo que fazia na vida, viver inclusive, Fl\u00e1vio Luiz, por ser culto, cultivava tamb\u00e9m o pensamento. \u201cViver por viver qualquer animal faz isso muito bem\u201d. Pensar cada vez mais sobre si e sobre o mundo \u00e9 colheita obrigat\u00f3ria da pr\u00f3pria fatalidade existencial. Saber \u00e9 o verdadeiro sabor de todo esse ininterrupto exerc\u00edcio de coragem e paci\u00eancia. Teorizar e praticar s\u00e3o o lado de dentro e o lado de fora dessa sabedoria entressonhada. Dos dois sentidos de praticar, entretanto, conversar jamais poderia ser o menos importante. E Fl\u00e1vio Luiz era um grande conversador. Perder dois dedos de prosa com ele era ganhar uma ou duas m\u00e3os de ajuda, sobretudo para despertar em seu eventual interlocutor melhor discernimento a respeito de qualquer assunto, perguntas de imposs\u00edveis respostas convincentes inclusive.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando nos conhecemos entre o quarto e o quinto anos prim\u00e1rios, na escola das professoras Lourdes Duarte e Terezinha Miranda, and\u00e1vamos em torno dos sete para oito anos. Como pertenc\u00edamos a mundos diversos, social e economicamente, fomos apenas colegas distantes naqueles dias. Disput\u00e1vamos, ent\u00e3o, \u00e0s vezes com algum acirramento, o primeiro lugar em todas as disciplinas que nos eram ministradas. Se um tirava nota 10 em matem\u00e1tica ou portugu\u00eas o outro tirava 9,9, obrigatoriamente. Mas a longa competi\u00e7\u00e3o de semanas e meses a fio, ao oposto do que se poderia imaginar, nunca foi motivo para afastamentos ou rancores. Seria, ao contr\u00e1rio, causa eficiente de uma cada vez maior admira\u00e7\u00e3o rec\u00edproca, a consolidar-se sempre mais e de tal sorte que, quase vinte anos depois, quando j\u00e1 est\u00e1vamos voltando de Salvador para Juazeiro (ele engenheiro civil e administrador e eu advogado e professor universit\u00e1rio), tornamo-nos amigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nunca conheci ningu\u00e9m que pensasse mais, e com min\u00facias, este munic\u00edpio, esta cidade, seu potencial, sua l\u00f3gica desenvolvimentista, suas voca\u00e7\u00f5es maiores, seus problemas. Quando fui companheiro de chapa do saudoso Prefeito Arnaldo Vieira do Nascimento em 1976, Fl\u00e1vio Luiz, como era de esperar, j\u00e1 que crescera numa tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica diferente da nossa, n\u00e3o p\u00f4de nos apoiar com seu voto. Doze anos depois, tornou-se, em contrapartida, meu maior colaborador na elei\u00e7\u00e3o de 1988 e, logo em seguida, o melhor assessor de planejamento que qualquer prefeito poderia ter tido em sua primeira administra\u00e7\u00e3o municipal, como a que tive a honra de liderar a partir de janeiro de 1989. Em 1992, como n\u00e3o poderia deixar de ser, foi ele o candidato que contou com meu integral apoio na batalha eleitoral para suceder-me na Prefeitura. O eventual insucesso nas urnas naquele pleito nunca me fez, entretanto, por um momento sequer, duvidar do que eu sempre soubera, mesmo ainda na escola prim\u00e1ria: ele era, j\u00e1 desde aquela \u00e9poca, e at\u00e9 os dias de hoje, entre todas as pessoas com as quais convivi em mais de quarenta anos de vida p\u00fablica, o juazeirense mais preparado para governar nossa terra, o que inexplicavelmente nunca p\u00f4de acontecer. Que vis\u00e3o estrat\u00e9gica e detalhada de tudo! Que paci\u00eancia inesgot\u00e1vel para ouvir a repetitiva arenga das mais estranhas personagens da pe\u00e7a pol\u00edtica em cartaz, qualquer que seja a ocasi\u00e3o! No pr\u00e9lio eleitoral do ano passado, para n\u00e3o fugir \u00e0 regra, ei-lo novamente como o principal articulador das candidaturas vitoriosas, para prefeita e vice, de Suzana e Leonardo. Quando a vit\u00f3ria esmagadora se consumou em 15 de novembro, por\u00e9m, ele j\u00e1 n\u00e3o estava mais aqui. E eu nem pude, formalmente, dele me despedir, porque ambos est\u00e1vamos, cada qual em seu isolamento, sob estrita prescri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, lutando para resistir aos efeitos tenebrosos da Covid-19, que nos acometera naquele mesmo trist\u00edssimo per\u00edodo fatal de outubro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cViver para contar\u201d \u00e9 o t\u00edtulo do primeiro volume, que acabou sendo o \u00fanico, das mem\u00f3rias de Garcia M\u00e1rquez, por ele mesmo redigidas. Tivesse tido tempo para preparar sua sa\u00edda de cena, uma vez que n\u00e3o lhe faltavam motivos biogr\u00e1ficos relevantes para isso, certamente Fl\u00e1vio Luiz, que nunca foi nem aspirou a ser literato, menos ainda Nobel de Literatura, poderia ter contratado algu\u00e9m para lhe escrever a biografia, com algum t\u00edtulo semelhante. Cairia talvez melhor \u201cConfesso que vivi\u201d, como se autobiografou Neruda. Eu at\u00e9 j\u00e1 imagino como o biografado, surpreso consigo mesmo, a certa altura do necess\u00e1rio depoimento confessional ao seu bi\u00f3grafo se definiria, em ess\u00eancia, como, apenas, um homem p\u00fablico &#8211; um pol\u00edtico, portanto, no mais rigoroso sentido da palavra e do conceito de Pol\u00edtica, que s\u00f3 pode ser assim definida: permanente a\u00e7\u00e3o pessoal em benef\u00edcio da p\u00f3lis, isto \u00e9, dos outros, sin\u00f4nimo, consequentemente, de exerc\u00edcio militante da \u00c9tica de Responsabilidade. Tenho certeza de que esse seria o mais fidedigno retrato de Fl\u00e1vio Luiz, que poder\u00edamos estar inaugurando hoje na galeria dos mais destacados filhos desta terra, justamente na data em que ele completaria 71 anos de idade se ainda aqui estivesse. Essa constata\u00e7\u00e3o em nada prejudica a vis\u00e3o que dele sempre tivemos: a de algu\u00e9m que fazia quest\u00e3o de ser, e parecer, um estudioso de manuais t\u00e9cnicos sobre como fazer melhor o que precisa ser feito. E como se sabe, t\u00e9cnica \u00e9 apenas aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o do conhecimento t\u00e9cnico\/cient\u00edfico, ali\u00e1s, \u00e9 um verdadeiro assombro. Qualquer ci\u00eancia tem hoje, de fato, uma chave mestra, pelo menos, com que possa abrir portas secretas, cada dia mais escancaradas para o desconhecido. Maravilhados, os cientistas viram e reviram o todo pelo avesso e nos afirmam que nada \u00e9 imposs\u00edvel. Se ainda s\u00e3o infinitas as perguntas sem respostas, a raz\u00e3o, que milenarmente as tem feito, nada perde por esper\u00e1-las. A qualidade e a quantidade das informa\u00e7\u00f5es sobre a natureza e a hist\u00f3ria da mat\u00e9ria universal e seu movimento no espa\u00e7o e no tempo (sant\u00edssima trindade que tudo habita, do \u00e1tomo c\u00f3smico ao cosmos at\u00f4mico), p\u00f5em em relevo, cada vez maior, a m\u00e1gica ou a m\u00edstica de qualquer saber provado e comprovado, a come\u00e7ar pelo mundo mais conceitualmente puro e absolutamente ideal da matem\u00e1tica. N\u00e3o j\u00e1 foi dito por Galileu, quinhentos anos atr\u00e1s, que \u2018A matem\u00e1tica \u00e9 o alfabeto com o qual Deus escreveu o universo\u2019? Tamb\u00e9m n\u00e3o disse Pit\u00e1goras, dois mil anos antes de Galileu, que o n\u00famero \u00e9 a ess\u00eancia do todo, vis\u00edvel em qualquer de suas partes? Contando sempre com essa perene intermedia\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito santo da matem\u00e1tica, o que dizer da f\u00edsica, da qu\u00edmica e da biologia, com seus arsenais tecnol\u00f3gicos de alcance quase inimagin\u00e1vel em termos de possibilidades de compreens\u00e3o dos fen\u00f4menos universais? Isto inobstante, a doen\u00e7a continua a ser advers\u00e1ria implac\u00e1vel da sa\u00fade, e a morte acaba sempre derrotando a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde a descoberta primordial dos meios de produzir e usar o fogo, passando pela sele\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies vegetais mais adequadas \u00e0 sua nutri\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, sem minimizar a domestica\u00e7\u00e3o de certos animais selvagens, alguns dos quais submissos, desde ent\u00e3o, ao controle \u00e0s vezes desp\u00f3tico de sua vontade, quando n\u00e3o \u00e0 engorda e ao corte para aliment\u00e1-lo e vesti-lo, a humanidade tem aprendido a conviver com a brutalidade da natureza, e at\u00e9 mesmo a tirar proveito de suas darwinianas leis irrevog\u00e1veis, evoluindo, quase \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o, na pr\u00e1tica dessa que \u00e9 a mais bela e de mais dif\u00edcil cultivo dentre todas as artes: a da sobreviv\u00eancia. Foi assim que passou a prever e aproveitar para a agricultura as enchentes dos rios, a utilizar a for\u00e7a dos ventos para o \u00eaxito da navega\u00e7\u00e3o ou a guiar-se no meio dos oceanos e dos desertos pelo c\u00e9u estrelado. At\u00e9 as pedras e sua aparente imprestabilidade despertaram a imagina\u00e7\u00e3o do homem das cavernas, que num primeiro momento passou a lasc\u00e1-las e noutro a poli-las, para transform\u00e1-las em instrumentos de luta e labuta em sua faina di\u00e1ria de confrontos com a hostilidade dos elementos naturais, principalmente nos primeiros momentos de adapta\u00e7\u00e3o do meio humano ao meio ambiente. Mas que li\u00e7\u00f5es nos legaram as doen\u00e7as ou a pr\u00f3pria morte, que possam ser utilizadas vitoriosamente contra elas mesmas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somando somente algumas das conquistas da intelig\u00eancia do homem, desde a inven\u00e7\u00e3o da roda e das roldanas, das armas de guerra e da p\u00f3lvora, da b\u00fassola, da caravela e do motor de propuls\u00e3o, at\u00e9 a produ\u00e7\u00e3o em s\u00e9rie de locomotivas e autom\u00f3veis, precedida pela dos navios, sem falar nos mais diversos e sofisticados modelos de submarinos e avi\u00f5es, estes logo considerados como os meios mais r\u00e1pidos e seguros de transporte e locomo\u00e7\u00e3o, contando-se ainda com a inven\u00e7\u00e3o dos analg\u00e9sicos, das vacinas, da anestesia, das t\u00e9cnicas cir\u00fargicas de transplantes de \u00f3rg\u00e3os, sem esquecer a clonagem, j\u00e1 exitosamente experimentada em diversas esp\u00e9cies de animais (o que abre caminho para que se possa tamb\u00e9m replicar em laborat\u00f3rio, a qualquer momento, sen\u00e3o ainda os pr\u00f3prios corpos humanos, por inteiro, ao menos alguns de seus \u00f3rg\u00e3os mais importantes), n\u00e3o seria justo que hoje cada um de n\u00f3s esperasse muito mais em termos de longevidade e qualidade da vida? Para enriquecer ainda mais a percep\u00e7\u00e3o completa e detalhada de toda essa verdadeira maravilha, que dizer do mapeamento e da decodifica\u00e7\u00e3o do DNA, da fiss\u00e3o nuclear do \u00e1tomo e da possibilidade multiusos de sua c\u00f3smica energia? Ou do rastreamento da pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o do universo em laborat\u00f3rios de acelera\u00e7\u00e3o de part\u00edculas? Pode algum romance ser mais belo e comovente do que este (o da hist\u00f3ria de amor do homem com a sabedoria, muito mais cativante que \u2018As mil e uma noites\u2019)? N\u00e3o \u00e9 como se j\u00e1 tiv\u00e9ssemos chegado \u00e0 antessala das moradas dos velhos deuses de todas as mais antigas mitologias? Mas em que pese todo esse saber-poder te\u00f3rico-pr\u00e1tico, que avan\u00e7a s\u00e9culos em apenas dias, da engenharia de materiais (veja-se a revolu\u00e7\u00e3o causada pela nanotecnologia) \u00e0 reengenharia gen\u00e9tica, da medicina ortomolecular \u00e0 \u201cmaterializa\u00e7\u00e3o virtual\u201d das possibilidades de teletransporte, atrav\u00e9s da manipula\u00e7\u00e3o das leis da eletroeletr\u00f4nica (\u201cA holografia em 3D se aproveita das propriedades ondulat\u00f3rias da luz, captando-a no meio do ar para criar um objeto virtual com a mesma profundidade do real\u201d), pergunta-se, em conclus\u00e3o: apesar desses \u00eaxtases de Narciso, justificadamente embriagado pela imagem da pr\u00f3pria beleza no espelho de \u00e1gua lustral da verdade em que se banha, por que a morte sempre acaba matando a vida desse soberbo homo sapiens que se vai velozmente transformando em homo deus?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que h\u00e1 de errado em vivermos eternamente, ou pelo menos por mil anos, para que tenhamos de sofrer t\u00e3o implac\u00e1vel persegui\u00e7\u00e3o do tempo, das doen\u00e7as, que nem sabemos a que ou a quem atribuir? Por que ainda nos \u00e9 vedado conhecer qualquer coisa sobre os depois e tamb\u00e9m os antes da experi\u00eancia totalizadora que \u00e9 a vida, conceitualmente eterna, e todavia ef\u00eamera em cada uma de suas manifesta\u00e7\u00f5es individualizadas? Se a vida \u00e9 a mais completa defini\u00e7\u00e3o da perfei\u00e7\u00e3o universal, e viver, isto posto, a mais perfeita s\u00edntese do significado da preval\u00eancia do cosmos contra o caos, por que n\u00e3o pode durar para sempre em todos e cada um de n\u00f3s, se como experi\u00eancia de interesse cient\u00edfico, filos\u00f3fico, religioso e art\u00edstico j\u00e1 deu certo, por sucessivos dias, meses, anos e d\u00e9cadas? Que defeito cong\u00eanito seria esse de que padecemos, contra o qual a sabedoria humana , que pode tanto, nada p\u00f4de at\u00e9 agora?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que seria um objeto, qualquer objeto, sem que houvesse um sujeito, qualquer sujeito, que o percebe e assim igualmente se percebe percebendo-o, e o delimita, e o classifica, e em tantas outras opera\u00e7\u00f5es sens\u00edveis, racionais e emp\u00edricas de certo modo dele se apropria, sobretudo analiticamente, transformando a intelig\u00eancia e a consci\u00eancia que dele passa a ter no reino do saber art\u00edstico\/religioso\/filos\u00f3fico\/cient\u00edfico? Por que deixa mem\u00f3ria de si mesmo qualquer objeto, quando acaba sendo erodido pelo tempo, no p\u00f3 em que lentamente se transforma (inclusive e principalmente o p\u00f3 das estrelas), e de um sujeito, que tudo observa e, pela observa\u00e7\u00e3o do todo, ou de qualquer uma de suas partes, de tudo se apossa, n\u00e3o sobraria, ao contr\u00e1rio, nada de vis\u00edvel ou palp\u00e1vel? Por que o principal ator desse espet\u00e1culo sem igual que \u00e9 estar vivo deve, \u00e0s vezes antes mesmo do fim da encena\u00e7\u00e3o, justo na hora dos aplausos, simplesmente desaparecer?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que n\u00e3o pare\u00e7a justo n\u00e3o pode ser nem bom nem verdadeiro. Seria preciso tratar-se de irremiss\u00edvel niilista, sobre um irracional sem cura, quem quer que fosse capaz de admitir que tudo de repente se torne absolutamente nada. Se a hip\u00f3tese da cria\u00e7\u00e3o de tudo a partir do nada costuma ofender a l\u00f3gica de alguns, que dizer da hip\u00f3tese muito mais contradit\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o do nada a partir de tudo, impossibilidade ontol\u00f3gica absoluta? O pessimismo e o otimismo n\u00e3o se resumem somente a duas vis\u00f5es de mundo. O otimismo atuante ser\u00e1 sempre mais capaz, salvo melhor ju\u00edzo, de acenar com vantagem, logica ou ontologicamente, para qualquer homem que al\u00e9m de saber existir saiba tamb\u00e9m pensar, em compara\u00e7\u00e3o com o resignado pessimismo amargo. Quando menos, torna-se um GPS, o mais confi\u00e1vel poss\u00edvel, para qualquer viagem, f\u00edsica ou metaf\u00edsica, que se pretenda segura e agrad\u00e1vel no tr\u00e1fego pesado das estradas da vida. Como posso chegar a um lugar que j\u00e1 sei n\u00e3o existir? De fato, \u00e9 preciso crer, para que se possa esperar, seja o que for, onde quer que esteja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem pode dizer, quando algu\u00e9m nasce, que nele a vida j\u00e1 est\u00e1 completa? Por que ent\u00e3o quando algu\u00e9m morre deve ser considerado completamente morto? Ignoraremos de prop\u00f3sito que a ci\u00eancia j\u00e1 convive, h\u00e1 mais de duzentos anos, com a certeza de que \u201cNa natureza nada se perde, nada cria, tudo se transforma\u201d? No que seria mais razo\u00e1vel crer, na vida ou na morte? O que seria menos irrazo\u00e1vel esperar? \u201cSe o gr\u00e3o n\u00e3o morrer a planta n\u00e3o nasce\u201d. A mat\u00e9ria desaparece porque volta a ser pura energia. A transforma\u00e7\u00e3o parece ser o conte\u00fado essencial de toda e qualquer mudan\u00e7a. \u201cA nuvem bebe \u00e1gua salgada e chove \u00e1gua doce\u201d. Aqui a m\u00e1gica da Ci\u00eancia faz as pazes com a m\u00edstica da Religi\u00e3o. Quem duvidar concentre-se um pouco mais, como \u201cO Pensador\u201d de Rodin, na medita\u00e7\u00e3o absolutamente profunda. Sufocando ainda na garganta \u201cO Grito\u201d de Munch, feche os olhos e fa\u00e7a sil\u00eancio absoluto dentro de si mesmo. Imagine ent\u00e3o a dan\u00e7a c\u00f3smica da cria\u00e7\u00e3o come\u00e7ando. Seguindo ou n\u00e3o qualquer tradicional cosmogonia, essa medita\u00e7\u00e3o transcendental abrir\u00e1 caminho para um est\u00e1gio de maior e mais clara capacidade de percep\u00e7\u00e3o. A anula\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria dos cinco sentidos os magnifica, por mais contradit\u00f3rio possa isso parecer. Inesperadamente sua nova sensibilidade racionalmente o levar\u00e1 a conceber a diferencia\u00e7\u00e3o e a indiferencia\u00e7\u00e3o como somente o lado de dentro e o lado de um absoluto continuum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para ter-se uma p\u00e1lida ideia da \u201cm\u00fasica das esferas\u201d que alimenta a \u201cdan\u00e7a da cria\u00e7\u00e3o\u201d retorne-se \u00e0 voz do sil\u00eancio, em seu permanente di\u00e1logo com o mist\u00e9rio. Os ad\u00e1gios da sexta, s\u00e9tima, oitava e nona sinfonias de Bruckner conservam algo desse herm\u00e9tico concerto. Ouvi-los pode abrir a cortina do palco onde o eterno espet\u00e1culo da vida, em sua batalha infinita contra a morte, se desenrola. D\u00e1 para perceber assim, pelos ouvidos, o que os olhos negam. Na conclus\u00e3o do quarto movimento da nona de Mahler, que nela faz quest\u00e3o de homenagear seu antigo mestre, citando-o na abertura, talvez a percep\u00e7\u00e3o seja ainda mais exata quanto ao \u201chorizonte de eventos\u201d em que tudo e nada, j\u00e1 diferenciados, de novo retornam \u00e0 plenitude da indiferencia\u00e7\u00e3o. Num ou noutro caso a \u201cmat\u00e9ria sonora\u201d renuncia \u00e0 sua pr\u00f3pria identidade para poder fazer parte do sil\u00eancio total, no qual todos os sons se somam e se subtraem, multiplicando-se ou dividindo-se. Como se obedecesse a uma contagem progressiva ou regressiva autom\u00e1tica, como a de um cora\u00e7\u00e3o pulsante dentro do c\u00e9rebro de cada espec\u00edfica sensibilidade humana, outra vez tudo \u00e9 um. Lembra-me um rio que irresignado perde, lentamente, sua necess\u00e1ria perenidade, como tantos na geografia nordestina, ou um outro que com relut\u00e2ncia luta ainda, e sempre, para n\u00e3o se perder no mar completamente. J\u00e1 houve quem conseguisse pintar com palavras o quadro definitivo dessa misteriosa mudan\u00e7a: \u201c&#8230; E o rio morrendo e resistindo, morrendo e resistindo, resistindo e morrendo\u201d.<\/p>\n<p>As realidades e as ideias sobre o todo e cada uma de suas partes parecem \u00e0s vezes t\u00e3o contradit\u00f3rias entre si que acabam ensejando, ante o problema ou o mist\u00e9rio da exist\u00eancia, a hip\u00f3tese da desnecess\u00e1ria divis\u00e3o do \u201cum\u201d em \u201cdois\u201d, imaginando-se assim melhor resolv\u00ea-los. Da\u00ed por diante, a pitag\u00f3rica sobre cartesiana opera\u00e7\u00e3o geom\u00e9trica que \u00e9 compreend\u00ea-lo, j\u00e1 \u00e9 a pr\u00f3pria necessidade de repetir-se, indefinidamente. Surge assim do \u201cuno\u201d o \u201cm\u00faltiplo\u201d, a d\u00e9cada da unidade. Substancialmente, no entanto, o diverso n\u00e3o passaria de um conjunto de manifesta\u00e7\u00f5es \u201cpara si pr\u00f3prio\u201d do \u201cem si mesmo\u201d. Os sistemas de pensamento podem, portanto, tentar reconciliar-se tamb\u00e9m, de uma vez por todas, conquanto permane\u00e7am, em muitos aspectos, ainda contradit\u00f3rios. Que prova maior se teria do universo do que o multiverso? No sentido oposto, urge, por\u00e9m, que as divis\u00f5es cessem, porque tudo parece j\u00e1 ter sido dito. Pode parecer for\u00e7ado dar exemplos. Mas quando Zoroastro afirma, entre os s\u00e9culos VII e VI antes de Cristo, que \u201cO que vale mais em qualquer trabalho \u00e9 a dedica\u00e7\u00e3o do trabalhador\u201d n\u00e3o j\u00e1 estaria, sem poder saber e sobretudo sem poder querer, antecipando Marx, em sua \u201cMais valia\u201d? O \u201cConhece-te a ti mesmo\u201d que o Or\u00e1culo de Delfos ensinou a S\u00f3crates h\u00e1 dois mil e quinhentos anos, li\u00e7\u00e3o de vida que ele por sua vez passou a ministrar diariamente na escola do mundo, que ainda n\u00e3o a aprendeu (aprendizagem essa em consequ\u00eancia da qual, por coer\u00eancia consigo mesmo, ele iria perder a pr\u00f3pria vida), n\u00e3o j\u00e1 seria uma antecipa\u00e7\u00e3o do \u201cTorna-te quem tu \u00e9s\u201d de Nietzsche?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jung, o genial disc\u00edpulo de Freud, que do mestre dissentiu, no entanto, porque n\u00e3o atribu\u00eda import\u00e2ncia absoluta \u00e0s puls\u00f5es sexuais como fundamento \u00fanico da Psican\u00e1lise (da\u00ed o porqu\u00ea de ter sido o fundador da Psicologia Anal\u00edtica), escreveu dois livros fundamentais que o Ocidente precisa reler: &#8211; \u201cResposta a J\u00f3\u201d e \u201cSete Serm\u00f5es aos Mortos\u201d. Este, principalmente, come\u00e7a assim (Primeiro Serm\u00e3o): \u201cOs mortos voltaram de Jerusal\u00e9m, onde n\u00e3o encontraram o que estavam procurando, e pediram para serem admitidos \u00e0 minha presen\u00e7a, exigindo serem por mim instru\u00eddos. Ent\u00e3o eu os instru\u00ed. \u201cOuvi: eu come\u00e7o com o Nada. Nada \u00e9 o mesmo que plenitude. No estado de infinito, plenitude \u00e9 o mesmo que vazio. O Nada \u00e9 ao mesmo tempo vazio e pleno. Pode-se, \u00e9 claro, afirmar alguma outra coisa a respeito do Nada, como por exemplo que ele seria branco ou negro, existente ou inexistente. Mas aquilo que \u00e9 infinito e eterno n\u00e3o possui qualidades, porque cont\u00e9m todas as qualidades. O Nada ou plenitude \u00e9 chamado por n\u00f3s de PLEROMA. Nele pensamento e exist\u00eancia cessam, porque o eterno \u00e9 desprovido de qualidades. Nele n\u00e3o existe ningu\u00e9m, porque se existisse algu\u00e9m este se diferenciaria do PLEROMA. E possuiria qualidades que dele o distinguiriam. No PLEROMA n\u00e3o existe nada e existe tudo. N\u00e3o \u00e9 bom pensar sobre o PLEROMA, pois faz\u00ea-lo significaria dissolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja Ortodoxa Grega traduz esse rar\u00edssimo estado de estar do ser, ao existir em plenitude, pela palavra grega PLEROMA. Quando traduz a Carta de Paulo, 2,9, aos Colossenses, chega mesmo a enfatizar o sentido esot\u00e9rico do texto, para reconciliar esp\u00edrito e a letra, seu sentido esot\u00e9rico. Dir-se-ia ent\u00e3o que o d\u00e9cimo terceiro integrante do Col\u00e9gio Apost\u00f3lico do Cristianismo estaria se referindo ao PLEROMA quando afirma a \u201cplenitude da divindade\u201d de Cristo? Seria o Ap\u00f3stolo dos Gentios um Gn\u00f3stico? O espanto n\u00e3o nos assusta. Que seria o Gnosticismo sen\u00e3o uma bela tentativa de concerta\u00e7\u00e3o j\u00e1 tardia entre as verdades da Igreja Cat\u00f3lica e as de muitas das chamadas Heresias que de certo modo tentaram corrigi-la no curso dos s\u00e9culos? Por que n\u00e3o valeria a pena igualmente qualquer tentativa de refazer o di\u00e1logo h\u00e1 muito interrompido entre o Catolicismo e o Protestantismo, ou entre o Cristianismo e o Juda\u00edsmo, o Islamismo ou o Budismo? No terreno da Filosofia, que nasceu do espanto, n\u00e3o haveria de ser mais belamente espantoso ver tamb\u00e9m totalmente reconciliados Parm\u00eanides e Her\u00e1clito, Arist\u00f3teles e Plat\u00e3o, Zen\u00e3o C\u00edcio e Epicuro, S\u00e3o Tomaz e Santo Agostinho, Descartes e Bacon, Voltaire e Leibniz, Hume e Kant, Schopenhauer e Hegel, Bachelard e Bergson, Popper e Wittgenstein?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Spinoza lentamente foi se tornando para muitos o maior fil\u00f3sofo. Primeiro, porque assim sempre foi considerado por grande parte dos maiores cientistas modernos. Segundo, porque foi exemplar como homem. Terceiro, por ter dito verdades t\u00e3o fundamentais no campo da Filosofia em si como no da Teologia, verdades que, como era de esperar, lhe valeram duas excomunh\u00f5es absolutamente injustas: a dos judeus e a dos crist\u00e3os. Entre os pensadores que pensaram mais profundamente sobre Deus nenhum se lhe compara. Ao diagnosticar que \u201ca mente humana n\u00e3o pode absolutamente ser destru\u00edda com a morte\u201d tornou-se l\u00edder de uma nova vanguarda do pensamento. Que homem extraordin\u00e1rio! \u201c\u00c9 chegado o momento de passarmos a considerar o que pertence \u00e0 dura\u00e7\u00e3o da mente sem rela\u00e7\u00e3o com o corpo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negando assim que a mat\u00e9ria tenha realidade de massa divis\u00edvel, finita e local (a extens\u00e3o cartesiana), o fil\u00f3sofo judeu luso- holand\u00eas (apud Marilena Chau\u00ed, in \u201cA Nervura do Real), sabiamente afirma (1) a espiritualidade do que \u00e9 material; a iman\u00eancia de Deus ao mundo (2), por meio do intelecto infinito imediato (primeira emana\u00e7\u00e3o divina, correspondendo exatamente ao que a tradi\u00e7\u00e3o cabal\u00edstica nomeava como Ad\u00e3o Kadmon, Messias ou Cristo, a partir da tradi\u00e7\u00e3o gn\u00f3stica, neoplat\u00f4nica e joanina da pr\u00e9-exist\u00eancia do Logos criador, isto \u00e9, o Verbo, como Filho Unig\u00eanito de seu Pai Divino, Homem Celeste, Pastor e Par\u00e1clito. Compare-se ent\u00e3o o que ele diz com o que disseram Mois\u00e9s e Jo\u00e3o Evangelista a respeito: \u201cNo princ\u00edpio Adonai Eloim criou o C\u00e9u e a Terra. A Terra era sem forma e vazia e o esp\u00edrito de Deus pairava sobre a face do abismo Ent\u00e3o Deus disse: Fa\u00e7a-se a luz\u201d. \u201cNo princ\u00edpio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele e nada do que seria feito sem Ele se fez. Nele estava a vida e a vida \u00e9 a luz dos homens\u201d; a diferen\u00e7a de ess\u00eancia entre Deus e o mundo (3), pois a iman\u00eancia n\u00e3o identifica (contrariamente ao que afirmam de m\u00e1 f\u00e9 os que sem refletir se op\u00f5em ao Pante\u00edsmo), Natura Naturans e Natura Naturata. Deus, o absoluto inef\u00e1vel (sujeito absolutamente infinito da cria\u00e7\u00e3o eterna objetiva), \u00e9 o verdadeiro e \u00fanico En-Soph, pot\u00eancia eterna e infinita que engendra o mundo por emana\u00e7\u00e3o, sem que o criador, portanto, coincida nem com a cria\u00e7\u00e3o nem com a criatura, conquanto delas nunca se separe; o mundo, como ser vivo ou animado (\u201cTodas as coisas s\u00e3o animadas em graus diversos\u201d, cf. primeira parte da \u00c9tica), vive apenas porque Deus \u00e9 o \u00edmpeto criador de que tudo \u00e9 gerado (4), o esp\u00edrito e a mat\u00e9ria especialmente; (5) Spinoza chama o amor intelectual da alma do mundo por Deus de gl\u00f3ria, como nos Livros Santos da Cabala, nos quais Kabod, a gl\u00f3ria, \u00e9 o sinal da Divina Presen\u00e7a: a Shekinah.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Spinoza (e uma multid\u00e3o de pensadores e cientistas antes e depois dele), a Cabala (que atribui a cada uma das 304.805 letras das palavras hebraicas que comp\u00f5em a Tor\u00e1 significados ocultos sobre Deus e as leis do universo), a Gnose Crist\u00e3 ou a Mu\u00e7ulmana, a B\u00edblia, o Alcor\u00e3o, os Vedas, todos os livros sagrados de todas as religi\u00f5es do mundo n\u00e3o podem estar errados. A vida vive mesmo depois da morte. N\u00e3o tenho vergonha de dizer que assim creio e espero. \u201cAquele que cr\u00ea em mim ainda que esteja morto viver\u00e1\u201d. Como se v\u00ea, Fl\u00e1vio Luiz, que era um homem de f\u00e9, decerto ainda est\u00e1 vivo. Como n\u00e3o teve tempo de despedir-se ao partir imagino que se o tivesse tido repetiria Paulo, em II Tim\u00f3teo, 4\/7-8: \u201cQuanto a mim j\u00e1 estou sendo derramado por liba\u00e7\u00e3o&#8230; Combati o bom combate, terminei minha carreira e guardei a f\u00e9\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Joseph Bandeira Em que pensaria \u201cO Pensador\u201d de Rodin sen\u00e3o na morte, tanta e tamanha a concentra\u00e7\u00e3o em que medita na \u201cPorta do Inferno\u201d? 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