{"id":21586,"date":"2021-04-06T19:10:00","date_gmt":"2021-04-06T22:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogopara.com.br\/?p=21586"},"modified":"2021-04-05T16:35:46","modified_gmt":"2021-04-05T19:35:46","slug":"pms-sofrem-com-suicidios-e-transtornos-mentais-sem-apoio-da-corporacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/2021\/04\/06\/pms-sofrem-com-suicidios-e-transtornos-mentais-sem-apoio-da-corporacao","title":{"rendered":"PMs sofrem com suic\u00eddios e transtornos mentais sem apoio da corpora\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 cinco anos, o pai de Fernanda*, um\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/exame.com\/noticias-sobre\/policia-militar\">policial militar<\/a><\/strong>\u00a0de Santa Catarina, cometeu suic\u00eddio no caminho para o trabalho. O corpo do PM, de 40 e poucos anos, foi encontrado logo pela manh\u00e3 dentro do seu carro, estacionado pr\u00f3ximo \u00e0 casa da fam\u00edlia, que descobriu que a causa da morte era suic\u00eddio ao liberarem o corpo no IML. Jorge* usou a pr\u00f3pria arma de trabalho para por fim \u00e0 vida.<\/p>\n<p>\u201cFoi algo que ningu\u00e9m esperava, fomos descobrir que ele teve depress\u00e3o depois que ele se matou. A depress\u00e3o dele \u00e9 aquela que tem altera\u00e7\u00e3o de humor, ele sempre teve isso. Depois que se matou que fomos entender o que era. Meu pai nunca falou sobre isso [depress\u00e3o]. No dia achamos que tinham matado ele, n\u00e3o sab\u00edamos que tinha sido suic\u00eddio. At\u00e9 porque s\u00f3 falaram para a gente que ele tinha se matado perto do vel\u00f3rio. Foi dif\u00edcil porque ele n\u00e3o nos contava nada. Ele era bem fechado, era o jeito dele\u201d, diz a filha.<\/p>\n<p>A jovem, com 16 anos na \u00e9poca, conta que a Pol\u00edcia Militar tinha ci\u00eancia da necessidade de acompanhamento psicol\u00f3gico do seu pai. \u201cA pol\u00edcia tamb\u00e9m nunca tirou ele da rua, mesmo sabendo das situa\u00e7\u00f5es. A pol\u00edcia sabia, tanto que ele chegou a consultar um psic\u00f3logo da institui\u00e7\u00e3o, mas a\u00ed ele n\u00e3o quis mais ir, n\u00e3o gostou e n\u00e3o o obrigaram a sair da rua. Ele continuou trabalhando. Meu pai passou 20 anos na pol\u00edcia, todo esse tempo na rua.\u201d<\/p>\n<p>Em todas as regi\u00f5es do pa\u00eds, que conta com cerca de 425 mil policiais militares, s\u00e3o altas as taxas de suic\u00eddio e de transtornos mentais. Em S\u00e3o Paulo, por exemplo, estado com o maior efetivo policial do pa\u00eds (93.799 agentes),120 policiais militares cometeram suic\u00eddio entre 2012 e 2017.<\/p>\n<div class=\"ad-content\">\n<div id=\"abrAD_dyn_rectangle1\" class=\"appear\" data-appear-top-offset=\"300\" data-google-query-id=\"CK6764Gi4-8CFc4GuQYdQCQDvA\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/22033231199\/exame\/brasil_9__container__\"><iframe id=\"google_ads_iframe_\/22033231199\/exame\/brasil_9\" title=\"3rd party ad content\" name=\"google_ads_iframe_\/22033231199\/exame\/brasil_9\" width=\"300\" height=\"250\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\" sandbox=\"allow-forms allow-popups allow-popups-to-escape-sandbox allow-same-origin allow-scripts allow-top-navigation-by-user-activation\" data-google-container-id=\"6\" data-load-complete=\"true\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>S\u00e3o n\u00fameros explosivos, resultado de d\u00e9cadas de omiss\u00e3o, como explica Adilson Paes de Souza, hoje coronel reformado da Pol\u00edcia Militar de S\u00e3o Paulo. A primeira vez que viveu de perto um suic\u00eddio na institui\u00e7\u00e3o, lembra, foi nos anos 1980. Um de seus colegas na PM apareceu de surpresa no servi\u00e7o, visivelmente alcoolizado. N\u00e3o explicou o motivo da visita, mas Paes de Souza conta que ele fez quest\u00e3o de se despedir de um por um, antes de ir embora, de volta para o bar. Uma hora mais tarde, ele e seus colegas de farda foram chamados pelo superior para atender a ocorr\u00eancia de um suic\u00eddio. Aquele PM, que alguns conheciam desde os tempos de academia, havia se matado.<\/p>\n<p>Pesquisador de seguran\u00e7a p\u00fablica, Paes de Souza \u00e9 doutorando da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), e seu tema principal \u00e9 a inadequa\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o policial para lidar com a press\u00e3o da viol\u00eancia cotidiana. O treinamento exigente \u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/apublica.org\/2015\/07\/treinados-pra-rinha-de-rua\/\">quando n\u00e3o abusivo<\/a>\u00a0\u2013 desde a entrada na corpora\u00e7\u00e3o prolonga-se em um cotidiano de rigidez hier\u00e1rquica e intimida\u00e7\u00e3o, agravando o estresse, o medo e a ang\u00fastia inerentes \u00e0 profiss\u00e3o. Quase sempre vividos em silenciosa solid\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 muitos casos que n\u00e3o s\u00e3o notificados e muitos n\u00e3o buscam o tratamento psiqui\u00e1trico porque v\u00e3o sofrer chacota no ambiente de trabalho. Ser\u00e3o chamados de covardes e fracos; os comandantes podem crer que eles est\u00e3o enrolando para matar servi\u00e7o, por exemplo. \u00c9 um ambiente bem machista e de virilidade, em que n\u00e3o podemos assumir fraquezas. Eu fui treinado assim, com os trotes na academia, os trotes das unidades em que passei. Voc\u00ea \u00e9 humilhado e tem que aguentar porque o bom militar aguenta, o guerreiro aguenta toda e qualquer viol\u00eancia e acha isso normal. Nos fazem achar que fomos feitos para isso, mas ningu\u00e9m foi feito para isso. Quando a PM n\u00e3o assume que seus policiais t\u00eam problemas, a institui\u00e7\u00e3o est\u00e1 fechando uma panela de press\u00e3o vazia, sem \u00e1gua, que vai explodir um dia\u201d, adverte Paes de Souza, que ainda carrega as cicatrizes da viol\u00eancia sofrida na profiss\u00e3o. \u201cBom, eu fa\u00e7o terapia\u201d, diz.<\/p>\n<h3>Viol\u00eancia policial e sofrimento individual<\/h3>\n<p>O problema ocorre em todo o pa\u00eds, especialmente nas regi\u00f5es em que a pol\u00edcia \u00e9 mais violenta, como o Rio de Janeiro. Um grupo de psic\u00f3logos da PM com pesquisadores do Grupo de Estudo e Pesquisa em Suic\u00eddio e Preven\u00e7\u00e3o (GEPeSP), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), investigou a quest\u00e3o atrav\u00e9s de uma pesquisa realizada entre 2010 e 2012 entre policiais militares. Entre as conclus\u00f5es, um dado impressionante: no Rio, os PMs t\u00eam quatro vezes mais chances de cometer suic\u00eddio em compara\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o civil.<\/p>\n<p>Os resultados do estudo foram publicados em 2016 no livro\u00a0<a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/0B-East9kqv2ATzNPRTlqTVBQeV9lejQ2QkdWcGh6ZldTaXNz\/view?usp=sharing\">Por que policiais se matam?<\/a>, coordenado pela p\u00f3s-doutora em sociologia pela Uerj Dayse Miranda. Entre os problemas apontados, est\u00e3o a dificuldade de pedir ajuda e a forma como s\u00e3o tratados na corpora\u00e7\u00e3o quando adoecem.<\/p>\n<p>Entrevistado pelos pesquisadores, um pra\u00e7a da PM disse que passou a ser tratado de forma pejorativa pelos colegas e oficiais ap\u00f3s a licen\u00e7a m\u00e9dica e seu retorno ao posto. \u201cFiquei 15 dias em casa; quando eu voltei pra trabalhar, eu estava trabalhando j\u00e1 com arma de fogo, normalmente. N\u00e3o entrei nem em Sina [Servi\u00e7o Interno n\u00e3o Armado]. Quando eu voltei, eu fiquei seis dias detido no batalh\u00e3o, preso. \u00c9. Meu tratamento foi esse. Eu fiquei dois dias hospitalizado e 15 dias em casa. No 16\u00b0 dia, eu voltei \u00e0 companhia. Me entregaram \u00e0 tropa e fui punido\u201d, disse.<\/p>\n<p>Os dados apresentados pelo estudo de Dayse e sua equipe revelam que 58 policiais militares tiraram a pr\u00f3pria vida e 36 tentaram suic\u00eddio entre 1995 e 2009 no Rio de Janeiro. \u201cEmbora esses n\u00fameros sejam altos, o trabalho de campo revelou que essas cifras est\u00e3o subestimadas. Muitos dos casos de suic\u00eddios consumados e tentativas de suic\u00eddio n\u00e3o s\u00e3o informados ao setor respons\u00e1vel por in\u00fameras raz\u00f5es. Entre elas, est\u00e3o as quest\u00f5es socioculturais \u2013 o tabu em torno do fen\u00f4meno; a prote\u00e7\u00e3o ao familiar da v\u00edtima (a preserva\u00e7\u00e3o do direito ao seguro de vida) e a exist\u00eancia de preconceito ao policial militar diagnosticado com problemas emocionais e psiqui\u00e1tricos\u201d, afirma o relat\u00f3rio da pesquisa.<\/p>\n<p>De acordo com dados obtidos via Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o na Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Estado do Rio de Janeiro, entre janeiro de 2014 e junho de 2018 tr\u00eas PMs foram diagnosticados, por dia, com transtornos mentais. Entre janeiro e agosto de 2018, 2.500 policiais militares foram afastados por transtornos mentais, mais que o dobro dos afastados em todo o ano de 2014 (836).<\/p>\n<p>Para os autores do estudo, os profissionais da sa\u00fade da PM devem estar atentos para sinais de deteriora\u00e7\u00e3o da sa\u00fade mental dos agentes, \u201cno atendimento ao policial militar, principalmente aquele em atividade-fim, e em constante atua\u00e7\u00e3o de enfrentamento junto \u00e0 criminalidade, o profissional de sa\u00fade dever\u00e1 estar atento a comportamentos que demonstrem o afastamento das condutas de seguran\u00e7a requeridas para a pr\u00e1tica da a\u00e7\u00e3o policial militar\u201d, e complementa: \u201cdeve-se afast\u00e1-lo de sua arma de fogo ou outro meio que tenha \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o e conduzi-lo ao psic\u00f3logo. \u00c9 interessante entrar em contato com familiares ou amigos pr\u00f3ximos na tentativa de fortalecer a rede de apoio\u201d.<\/p>\n<h3>N\u00fameros explosivos<\/h3>\n<p>Ao longo de dois meses, a reportagem enviou mais de 50 solicita\u00e7\u00f5es de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o para os 26 estados e Distrito Federal, questionando as secretarias de Seguran\u00e7a P\u00fablica sobre o n\u00famero de policiais que cometeram suic\u00eddio e a quantidade de PMs afastados do servi\u00e7o por transtorno mental. Onze estados e o DF informaram ter registros de suic\u00eddios, mas apenas dois enviaram os dados referentes ao per\u00edodo de janeiro de 2008 e julho de 2018, como solicitado pela reportagem: Pernambuco e Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>Ainda que incompletas, as informa\u00e7\u00f5es obtidas mostram que a quantidade de policiais militares afastados nos estados que responderam \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es \u00e9 alta. H\u00e1 relatos de afastamentos e suic\u00eddios em todos os 26 estados e no Distrito Federal. No Esp\u00edrito Santo, por exemplo, aumentou o n\u00famero de tentativas de suic\u00eddio entre PMs ap\u00f3s a greve que paralisou parte dos policiais no estado no in\u00edcio de 2017. A Associa\u00e7\u00e3o de Cabos e Soldados da Pol\u00edcia Militar e Bombeiro Militar do Esp\u00edrito Santo (ACS\/ES) registrou, nos meses seguintes \u00e0 greve, pelo menos cinco suic\u00eddios. Al\u00e9m disso, ao menos 13 policiais da 5\u00aa Companhia do 4\u00ba Batalh\u00e3o da PM foram afastados por agravamento de transtornos ps\u00edquicos. Entre as causas mais comuns relatadas est\u00e1 a persegui\u00e7\u00e3o perpetrada por oficiais de patentes superiores nos momentos p\u00f3s-greve.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, entre 2006 e 2016, 182 policiais militares cometeram suic\u00eddio: uma morte a cada 20 dias. A partir de 2012, a situa\u00e7\u00e3o piorou. Entre aquele ano e 2017, 120 policiais militares tiraram a pr\u00f3pria vida, um a cada 15 dias. Dados do relat\u00f3rio da Ouvidoria das Pol\u00edcias do estado, publicados pela\u00a0<a href=\"https:\/\/ponte.org\/suicidio-de-policiais-em-sp-aumenta-73-de-2017-para-2018-segundo-ouvidoria-das-policias\/\">Ponte Jornalismo<\/a>, mostram que houve 71 casos de suic\u00eddio em entre 2017 e 2018. Mais grave: houve crescimento de 73% nas ocorr\u00eancias, com 20 casos ao longo de 2017 e 51 registros em 2018.<\/p>\n<p>No Rio Grande do Sul, 50 PMs cometeram suic\u00eddio entre 2008 e 2018, per\u00edodo em que 10 se mataram em Pernambuco. No Cear\u00e1, entre 2011 e 2018, foram 18 PMs mortos por suic\u00eddio; enquanto no Rio Grande do Norte, entre 2010 e 2018, foram oito os suic\u00eddios \u2013 mesmo n\u00famero dos ocorridos entre 2015 e 2018 em Alagoas.<\/p>\n<p>J\u00e1 no Distrito Federal, foram 11 suic\u00eddios entre 2016 e 2018, mesmo per\u00edodo em que 21 PMs se mataram na Bahia, de acordo com a Associa\u00e7\u00e3o de Policiais e Bombeiros e de seus Familiares do Estado da Bahia (Aspra-BA). A PM baiana n\u00e3o confirma nem disponibiliza outros dados referentes aos suic\u00eddios cometidos no per\u00edodo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m forneceram dados sobre suic\u00eddios de PMs Maranh\u00e3o \u2013 cinco mortes entre 2014 e 2018 \u2013, Mato Grosso do Sul \u2013 12 suic\u00eddios \u2013 e Paran\u00e1, 26.<\/p>\n<h3>Suic\u00eddio de PMs por estado<\/h3>\n<div class=\"content-image alignnone wp-caption\">\n<div class=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-3295920\" title=\"suicidio-de-pms\" src=\"https:\/\/exame.com\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/suicidio-de-pms.png\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/exame.com\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/suicidio-de-pms.png 1800w, https:\/\/exame.com\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/suicidio-de-pms.png?resize=150,90 150w, https:\/\/exame.com\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/suicidio-de-pms.png?resize=300,181 300w, https:\/\/exame.com\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/suicidio-de-pms.png?resize=768,462 768w, https:\/\/exame.com\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/suicidio-de-pms.png?resize=1024,616 1024w, https:\/\/exame.com\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/suicidio-de-pms.png?resize=1536,924 1536w, https:\/\/exame.com\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/suicidio-de-pms.png?resize=928,558 928w\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"616\" border=\"0\" data-restrict=\"false\" data-portal-copyright=\"Ag\u00eancia P\u00fablica\" data-image-caption=\"\" data-image-title=\"\" \/><\/div>\n<p class=\"caption\">\u00a0(Ag\u00eancia P\u00fablica\/Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<\/div>\n<h3>PMs afastados por transtornos mentais por estado<\/h3>\n<div id=\"standard_5\" class=\"st-placement standard_5 inImage\">\n<div class=\"st-adunit st-reset st-show\"><\/div>\n<\/div>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-3295921\" title=\"totais-pms-afastados-por-transtornos-mentais\" src=\"https:\/\/exame.com\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/totais-pms-afastados-por-transtornos-mentais.png\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/exame.com\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/totais-pms-afastados-por-transtornos-mentais.png 1400w, https:\/\/exame.com\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/totais-pms-afastados-por-transtornos-mentais.png?resize=150,83 150w, https:\/\/exame.com\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/totais-pms-afastados-por-transtornos-mentais.png?resize=300,166 300w, https:\/\/exame.com\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/totais-pms-afastados-por-transtornos-mentais.png?resize=768,426 768w, https:\/\/exame.com\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/totais-pms-afastados-por-transtornos-mentais.png?resize=1024,568 1024w, https:\/\/exame.com\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/totais-pms-afastados-por-transtornos-mentais.png?resize=928,514 928w\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"568\" border=\"0\" data-restrict=\"false\" data-portal-copyright=\"Ag\u00eancia P\u00fablica\" data-image-caption=\"\" data-image-title=\"\" \/><\/p>\n<p>Os demais estados alegaram falta de informa\u00e7\u00f5es precisas sobre afastamentos e suic\u00eddios ocorridos na \u00faltima d\u00e9cada, uma dificuldade que o pesquisador Adilson Paes de Souza conhece de perto: \u201cA institui\u00e7\u00e3o [Pol\u00edcia Militar] n\u00e3o se abre. Voc\u00ea mal consegue dados e, sem eles, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel estudar o fen\u00f4meno ou entender como ele surgiu, como se manifesta e quais os caminhos para se superar esses problemas. Os poucos dados que se obt\u00eam pela Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o s\u00e3o, na maioria das vezes, incompletos\u201d, diz.<\/p>\n<p>Para Paes de Souza, a rotina de negar ou proteger dados relacionados \u00e0 seguran\u00e7a p\u00fablica no Brasil ganhou for\u00e7a durante o regime militar. \u201cEm 1969, no auge da repress\u00e3o, houve um decreto-lei, o 667, de 1969, que criou os policiais \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a do Ex\u00e9rcito. Uma tropa militarizada para combater os inimigos da sociedade. E essa tropa militarizada era considerada a nata, a casta, os \u00fanicos que poderiam salvar a na\u00e7\u00e3o do comunismo. Os militares acreditavam e acreditam que s\u00e3o a elite, que s\u00e3o os \u00fanicos que sabem o que \u00e9 bom para todos. E, portanto, eles n\u00e3o precisam prestar contas a ningu\u00e9m. \u00c9 por isso que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil conseguir dados\u201d, afirma.<\/p>\n<p>O problema dos dados se repete quando a pergunta \u00e9 sobre a quantidade de PMs afastados da fun\u00e7\u00e3o devido a transtornos mentais. No estado de S\u00e3o Paulo, dados obtidos via Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o apontam que 4.115 policiais foram afastados para se submeterem a tratamentos psiqui\u00e1tricos entre 2008 e 2018. Entretanto, em setembro de 2017, o portal de not\u00edcias VICE Brasil recebeu, tamb\u00e9m via Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o, dados que apontavam que \u201centre 2006 e 2016, 15.787 PMs foram afastados temporariamente da corpora\u00e7\u00e3o para se submeterem a tratamentos psiqui\u00e1tricos\u201d. Procurada pela P\u00fablica, a Pol\u00edcia Militar do Estado de S\u00e3o Paulo n\u00e3o deu esclarecimentos sobre a discrep\u00e2ncia num\u00e9rica at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem.<\/p>\n<p>Seis estados negaram \u00e0 reportagem o acesso aos dados: Cear\u00e1, Par\u00e1, Goi\u00e1s, Rond\u00f4nia, Sergipe e Piau\u00ed. No geral, a justificativa apresentada pelos estados foi que as informa\u00e7\u00f5es requeridas eram de car\u00e1ter pessoal dos policiais e, portanto, sigilosas. Os dados requeridos pela reportagem n\u00e3o previam a identifica\u00e7\u00e3o de nenhum servidor, apenas estat\u00edsticas e informa\u00e7\u00f5es quantitativas.<\/p>\n<h3>Medo de morrer<\/h3>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o \u201cpolicial militar\u201d est\u00e1 entre as mais perigosas, e o peso da alta mortandade profissional, somado ao temor da morte, pode ser, paradoxalmente, dois entre muitos fatores que influenciam a decis\u00e3o do PM de cometer suic\u00eddio. De acordo com o F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/FBSP_Anuario_Brasileiro_Seguranca_Publica_Infogr%C3%A1fico_2018.pdf\">um policial militar ou civil foi morto por dia em 2017 no Brasil<\/a>.<\/p>\n<p>Em 2014, o Rio de Janeiro foi o estado em que mais pessoas morreram em decorr\u00eancia de a\u00e7\u00f5es policiais, foram cerca de 3 mil mortes. Paradoxalmente, no mesmo ano, o estado tamb\u00e9m foi o que mais perdeu policiais para a viol\u00eancia, com 98 mortos, seguido de S\u00e3o Paulo, com 91. \u201cNo geral, dos 398 policiais militares mortos por homic\u00eddios em 2014, quase 25% correspondem \u00e0s mortes de policiais somente no estado do Rio de Janeiro. Esses dados sugerem que a alta exposi\u00e7\u00e3o de policiais militares \u00e0 letalidade policial pode torn\u00e1-los mais suscet\u00edveis \u00e0 vitimiza\u00e7\u00e3o letal\u201d, explicam os autores de \u201cPor que policiais se matam?\u201d.<\/p>\n<p>O temor de adquirir transtornos mentais e comportamentais foi um dos temas da pesquisa realizada pelo F\u00f3rum de Seguran\u00e7a P\u00fablica em 2015. De acordo com o estudo, que ouviu mais de 10 mil agentes de seguran\u00e7a p\u00fablica, 53,7% dos PMs t\u00eam receio \u201calto\u201d e \u201cmuito alto\u201d de desenvolver transtornos mentais. Dos PMs entrevistados, 15,1% sofrem de transtornos mentais comportamentais (TMC), como depress\u00e3o e esquizofrenia, por exemplo.<\/p>\n<p>H\u00e1 outros fatores de risco para suic\u00eddios e transtornos mentais aos quais PMs est\u00e3o expostos. A come\u00e7ar pela rigidez hier\u00e1rquica, que faz com que os agentes escondam o problema de seus superiores. De acordo com a pesquisa \u201cVitimiza\u00e7\u00e3o e percep\u00e7\u00e3o de risco entre profissionais do sistema de seguran\u00e7a p\u00fablica\u201d, realizada pelo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica em 2015, 55,4% dos policiais militares t\u00eam receio \u201calto\u201d e \u201cmuito alto\u201d de manifestar discord\u00e2ncia da opini\u00e3o de um superior. Um problema agravado pela forma\u00e7\u00e3o a que se submetem, como afirmou Paes de Souza, o que faz com que esses profissionais sequer procurem ajuda.<\/p>\n<p>\u201cNo Rio de Janeiro, muitos PMs resistem ao afastamento porque acabam n\u00e3o entendendo [a sua necessidade]. Por serem formados para servir em qualquer circunst\u00e2ncia, muitos t\u00eam o sentimento do dever e chegam a trabalhar [durante a folga] prestando servi\u00e7os de seguran\u00e7a. Isso \u00e9 muito comum\u201d, explica Dayse Miranda. Ela tamb\u00e9m alerta para os preju\u00edzos concretos que sofre o PM que passa por atendimento m\u00e9dico. \u201cCom o tratamento psiqui\u00e1trico e a licen\u00e7a, o PM perde a gratifica\u00e7\u00e3o ou adicional por algum tipo de trabalho. Isso \u00e9 puni-lo duas vezes, puni-lo por estar doente. A desculpa \u00e9 que o estado n\u00e3o garante isso. O estado do Rio n\u00e3o se importa com a sa\u00fade do policial militar. Eles querem colocar homens na rua e n\u00e3o consideram a sua vida. Os PMs saem atirando a esmo porque est\u00e3o com medo\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Em Santa Catarina, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 diferente. \u201cAqui, se voc\u00ea tira licen\u00e7a m\u00e9dica ou tira f\u00e9rias, o PM perde R$ 700 do sal\u00e1rio, ent\u00e3o o policial prefere trabalhar do que perder aquele valor. Eles n\u00e3o param. Meu pai trabalhava como seguran\u00e7a por fora. Ele trabalhava cerca de 15 ou 16 horas. Trabalhava como seguran\u00e7a particular em supermercados e padarias, mas n\u00e3o podia, a PM n\u00e3o deixa\u201d, conta Fernanda*.<\/p>\n<p>Um estudo realizado em 2009 por Joana Helena Rodrigues da Silva, mestre em psicologia escolar e desenvolvimento humano pelo Instituto de Psicologia da USP, aponta para a rela\u00e7\u00e3o entre a pr\u00e1tica policial e implica\u00e7\u00f5es na sa\u00fade mental dos agentes. Para Joana Helena, o mesmo policial que vai \u00e0s ruas com o intuito de combater a viol\u00eancia est\u00e1 vulner\u00e1vel a ela e \u201cn\u00e3o somente enquanto cidad\u00e3o, mas tamb\u00e9m quando se coloca como combatente\u201d.<\/p>\n<p>Assim, o indiv\u00edduo submetido \u00e0s pr\u00e1ticas policiais passa a enxergar a sobreviv\u00eancia de maneira f\u00edsica, comprometendo sua capacidade de reflex\u00e3o, ou seja, \u201crenuncia a tudo aquilo que n\u00e3o seja a destrui\u00e7\u00e3o daqueles que querem destru\u00ed-lo\u201d.<\/p>\n<h3>Corda bamba<\/h3>\n<p>Em uma padaria na regi\u00e3o central de Joinville, Henrique*, um ex-policial militar de Santa Catarina e marido de Fernanda*, reflete sobre esse assunto: \u201cO policial est\u00e1 sempre em uma corda bamba: se voc\u00ea vacilar, voc\u00ea morre. Se voc\u00ea exagerar, vai preso. Ser\u00e1 que eu arrisco levar um tiro ou arrisco dar um tiro?\u201d.<\/p>\n<p>O relato do ex-PM catarinense corrobora a tese defendida por Joana Helena de que o policial em situa\u00e7\u00e3o de risco pode recorrer involuntariamente \u00e0 viol\u00eancia como mecanismo de defesa e, assim, utilizar as ferramentas \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o para tal: a for\u00e7a f\u00edsica, a arma de fogo e o respaldo jur\u00eddico.<\/p>\n<p>As promo\u00e7\u00f5es na carreira tamb\u00e9m ficam prejudicadas, de acordo com Paes de Souza. \u201cA promo\u00e7\u00e3o de oficiais \u00e9 por merecimento ou por tempo de pol\u00edcia. E por merecimento voc\u00ea pode ser promovido mais r\u00e1pido, por\u00e9m, se voc\u00ea tem algum transtorno psicol\u00f3gico na sua ficha, \u00e9 poss\u00edvel que voc\u00ea n\u00e3o seja escolhido para determinados postos para \u2018n\u00e3o dar problema l\u00e1\u2019\u201d, explica.<\/p>\n<p>Outro fator de risco para os policiais s\u00e3o os problemas familiares, que surgem como consequ\u00eancia do estresse da profiss\u00e3o e do baixo valor dos sal\u00e1rios. Segundo a mesma pesquisa do F\u00f3rum de Seguran\u00e7a P\u00fablica, 51% dos policiais militares j\u00e1 tiveram problemas para garantir o sustento de suas fam\u00edlias. Para complicar, 39,4% dos PMs t\u00eam familiares que sofreram algum tipo de viol\u00eancia e\/ou amea\u00e7a por serem parentes de um policial, e 31,8% sofreram algum tipo de viol\u00eancia e\/ou amea\u00e7a como forma de retalia\u00e7\u00e3o pela atua\u00e7\u00e3o do parente.<\/p>\n<p>Ter um comportamento violento dentro de casa em consequ\u00eancia da tens\u00e3o profissional tamb\u00e9m \u00e9 comum. \u201cO cara vai descontar em casa; vai desenvolver alcoolismo, uso de drogas il\u00edcitas, depend\u00eancia de rem\u00e9dios, como antidepressivos, e tentativas de suic\u00eddio. Se algu\u00e9m acha que \u00e9 normal a cada 15 dias um policial militar cometer suic\u00eddio, esse algu\u00e9m deve estar louco\u201d, diz Paes de Souza.<\/p>\n<p>Uma pesquisa realizada pelo mestre em psicologia e coordenador da Sa\u00fade da Pol\u00edcia Militar de Santa Catarina,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.escavador.com\/sobre\/5531823\/gustavo-klauberg-pereira#profissional\">Gustavo Klauberg<\/a>, organizou dados do afastamento de 5.777 policiais e bombeiros militares do estado entre 2013 e 2016. Dentre as conclus\u00f5es de Klauberg, destaca-se a preval\u00eancia de 6,32% de servidores com TMCs.<\/p>\n<p>A pesquisa de Klauberg utilizou o\u00a0<a href=\"http:\/\/scielo.iec.gov.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0101-59072006000400001\">sistema de corte transversal<\/a>\u00a0para analisar os dados de afastamentos da PM-SC. Na pr\u00e1tica, isso significa que as causas prov\u00e1veis das doen\u00e7as e seus efeitos foram observados no mesmo intervalo temporal. Isso se mostra importante na an\u00e1lise, pois, sendo os transtornos mentais doen\u00e7as influenciadas pelo cotidiano do paciente, contextos sociais espec\u00edficos podem criar um ambiente favor\u00e1vel para o aumento no n\u00famero de casos.<\/p>\n<p>O pesquisador conclui que \u201ccuidar da sa\u00fade do policial militar estadual \u00e9, portanto, estrat\u00e9gico para o Estado de Santa Catarina, tanto do ponto de vista econ\u00f4mico, considerando o investimento de dinheiro p\u00fablico nas for\u00e7as de seguran\u00e7a, quanto de efici\u00eancia profissional, j\u00e1 que a sa\u00fade exerce importante influ\u00eancia no desempenho e na qualidade do servi\u00e7o prestado\u201d. Ele ressalta que, entre 2014 e 2016, o governo do estado de Santa Catarina gastou mais de R$ 40 milh\u00f5es com o pagamento de sal\u00e1rios de PMs e bombeiros afastados. Em 2014, o governo desembolsou cerca de R$ 6,5 milh\u00f5es; j\u00e1 em 2016, o valor superou os R$ 18 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os dados mostram que 79% dos 5.777 afastados tinham fun\u00e7\u00f5es operacionais, como o policiamento. Klauberg conclui ainda que a maioria esmagadora dos pacientes, 97,3%, est\u00e1 nos cargos mais baixos da hierarquia. Entre 2014 e 2016, o aumento de servidores afastados foi de 238,4%.<\/p>\n<p>S\u00e3o muitos os fatores que podem elevar o estresse dos agentes a n\u00edveis cr\u00edticos. Entre os que aparecem com maior frequ\u00eancia em pesquisas, como a de Klauberg e de Dayse Miranda, est\u00e3o hist\u00f3ricos de abuso de \u00e1lcool e outras subst\u00e2ncias, exposi\u00e7\u00e3o a situa\u00e7\u00f5es de estresse e viol\u00eancia, trabalhos em dois turnos e, tamb\u00e9m, maus-tratos por superiores na hierarquia militar.<\/p>\n<h3>Risco para si e para sociedade<\/h3>\n<p>De acordo com o Anu\u00e1rio do F\u00f3rum de Seguran\u00e7a P\u00fablica Brasileiro de 2018, 5.144 pessoas morreram em decorr\u00eancia de interven\u00e7\u00f5es policiais no Brasil. Isso equivale a 14 mortos por dia.<\/p>\n<p>Um policial militar com transtornos mentais n\u00e3o diagnosticados ou n\u00e3o tratados pode representar um risco para si e para a sociedade; a alta exposi\u00e7\u00e3o a situa\u00e7\u00f5es de risco de vida acarreta, explica Klauberg, em sua disserta\u00e7\u00e3o, no aumento dos n\u00edveis de cortisol do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>O cortisol \u00e9 um horm\u00f4nio envolvido diretamente no controle do estresse. Quando em excesso, pode resultar em falta de aten\u00e7\u00e3o, lapsos de mem\u00f3ria, dificuldade de concentra\u00e7\u00e3o e, a longo prazo, dist\u00farbios do sono e alimentares. Esses sintomas, somados ao porte de arma e \u00e0 atividade estressante da fun\u00e7\u00e3o policial, podem acarretar, por exemplo, excessos durante abordagens cotidianas que, teoricamente, seriam simples.<\/p>\n<p>Para o coronel Adilson Paes de Souza, \u00e9 poss\u00edvel compreender o comportamento violento e excessivo de policiais em abordagens com base no estudo da psique pela \u00f3tica do psicanalista refer\u00eancia na \u00e1rea, Sigmund Freud. Paes de Souza ressalta: \u201cSegundo Freud, em A psicologia das massas, a massa tem uma psique pr\u00f3pria, que \u00e9 muito mais do que a jun\u00e7\u00e3o das psiques dos sujeitos que a comp\u00f5em. \u00c9 a\u00ed que mora o perigo. Eu posso estar conversando com voc\u00eas sobre viol\u00eancia, depois ir ao Morumbi assistir a um jogo e matar um cara junto com outros torcedores violentos; e a\u00ed voc\u00ea me pergunta: por qu\u00ea, Adilson? E eu n\u00e3o tenho como explicar, eu fui assimilado pela massa e aconteceu. Da mesma forma que os policiais crist\u00e3os v\u00e3o \u00e0 igreja, s\u00e3o absolutamente religiosos, mas quando assumem o servi\u00e7o saem na rua e matam um, dois\u201d.<\/p>\n<p>Ele explica que a forma\u00e7\u00e3o do policial militar, assim como a dos militares das For\u00e7as Armadas, tem uma ideologia pr\u00f3pria e \u00e9 transmitida a todos os policiais. \u201cEu fui formado durante a ditadura. Fui formado para saber que \u2018militar \u00e9 superior ao tempo; militar n\u00e3o chora; militar n\u00e3o sente medo; paisano [civil] \u00e9 bom, mas tem muito\u2019. Hoje, depois de 30 anos de PM e de estudos, eu percebo que est\u00e1vamos sendo doutrinados\u201d, relata. Para ele, essa ideologia transmite a sensa\u00e7\u00e3o de hero\u00edsmo aos PMs. Em sua analogia, o coronel compara os policiais ao Super-Homem [Superman]. \u201c\u2019Eu sou o Super-Homem, tenho superpoderes, mas n\u00e3o sou bem resolvido\u2019. Esse \u00e9 o policial militar. O suic\u00eddio \u00e9 uma das op\u00e7\u00f5es. O PM n\u00e3o aguenta. O falso eu do policial \u00e9 ser um super-her\u00f3i. Ent\u00e3o, talvez, o PM cometa suic\u00eddio para eliminar esse falso eu e proteger o verdadeiro eu\u201d, conclui.<\/p>\n<h3>800 mil suic\u00eddios\u00a0por ano<\/h3>\n<p>Todos os anos, cerca de 800 mil pessoas cometem suic\u00eddio no mundo. Na pr\u00e1tica, isso equivale a uma morte a cada 40 segundos. Os dados s\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS). S\u00f3 no Brasil, mais de 11 mil pessoas se matam todos os anos.<\/p>\n<p>O ato de atentar contra a pr\u00f3pria vida n\u00e3o \u00e9 uma novidade deste s\u00e9culo, mas est\u00e1 crescendo em ritmo acelerado, junto com a ocorr\u00eancia de transtornos mentais. O suic\u00eddio j\u00e1 foi considerado uma doen\u00e7a, uma esp\u00e9cie de \u201cloucura moment\u00e2nea\u201d, mas essa ideia foi descartada e enterrada com a publica\u00e7\u00e3o de O suic\u00eddio, de \u00c9mile Durkheim no s\u00e9culo 17. De acordo com o soci\u00f3logo franc\u00eas, s\u00e3o in\u00fameras as causas que podem levar uma pessoa a dar fim \u00e0 pr\u00f3pria vida. S\u00e3o tantas as possibilidades que n\u00e3o seria poss\u00edvel apontar causas, mas apenas disposi\u00e7\u00f5es e fatores agravantes.<\/p>\n<p>De acordo com o autor, ainda em 1897 j\u00e1 era poss\u00edvel dizer que o suic\u00eddio n\u00e3o \u00e9 um evento individual nem uma loucura que toma conta do ser humano. Para Durkheim, o suic\u00eddio nasce da soma de tend\u00eancias suicidas, transtornos mentais e contextos sociais. Por\u00e9m, nenhum desses elementos seria a sua causa e, sim, pontos de press\u00e3o que podem ou n\u00e3o culminar num suic\u00eddio consumado.<\/p>\n<p>Para Durkheim, o suic\u00eddio \u00e9 um fato social e sua preponder\u00e2ncia nas sociedades se d\u00e1 pela coes\u00e3o social, ou seja, quando a sociedade n\u00e3o \u00e9 unida e vive entre tens\u00f5es sociais, verifica-se maior ocorr\u00eancia de suic\u00eddios.<\/p>\n<p>Quando as institui\u00e7\u00f5es sociais n\u00e3o cumprem t\u00e3o bem seu papel porque est\u00e3o desmoronando, as normas de conv\u00edvio social acabam enfraquecidas e a vida em sociedade pode se tornar angustiante e desmotivadora, de maneira que essas ocorr\u00eancias se somam a quest\u00f5es individuais que terminam por levar o sujeito a cogitar o suic\u00eddio.<\/p>\n<p>Durkheim sugere, logo de in\u00edcio, que o suic\u00eddio est\u00e1 ligado ao passar do tempo. Ele traz dados de pa\u00edses que, no s\u00e9culo 17, j\u00e1 demonstravam maior ocorr\u00eancia de mortes volunt\u00e1rias autoinfligidas em pessoas com mais de 40 anos, aumentando com o envelhecimento.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o s\u00f3 o suic\u00eddio \u00e9 muito raro na inf\u00e2ncia, mas \u00e9 com a velhice que atinge o seu apogeu e, entre a inf\u00e2ncia e a velhice, aumenta regularmente com a idade [\u2026] Mesmo o recuo por volta dos 80 anos, al\u00e9m de ligeiro e nem um pouco geral, \u00e9 relativo. Visto que os nonagen\u00e1rios se suicidam em igual ou maior propor\u00e7\u00e3o que os sexagen\u00e1rios, e sobretudo mais que os homens em plena for\u00e7a da vida. Por aqui n\u00e3o se v\u00ea que a causa respons\u00e1vel pela varia\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio n\u00e3o poderia consistir em uma impuls\u00e3o cong\u00eanita e imut\u00e1vel, mas na a\u00e7\u00e3o progressiva da vida social?\u201d, escreveu.<\/p>\n<p>\u00c9 importante ressaltar que, no per\u00edodo em que Durkheim chegou a tais conclus\u00f5es, o mundo tinha outros contextos sociais que permeavam o suic\u00eddio como fato social. Agora, nos primeiros 19 anos do s\u00e9culo 21, tem-se noticiado um aumento expressivo e alarmante de suic\u00eddio na inf\u00e2ncia. De acordo com o Mapa da Viol\u00eancia Letal contra Crian\u00e7as e Adolescentes do Brasil, entre 2003 e 2013 houve um aumento de 10% nos casos de suic\u00eddio entre crian\u00e7as e adolescentes dos 9 aos 19 anos no pa\u00eds. Um dos fatores que pode estar ligado a esse aumento, por exemplo, \u00e9 a dificuldade que pais e professores t\u00eam de notar sinais que indicariam a possibilidade de ocorr\u00eancia de transtornos mentais.<\/p>\n<p>De qualquer forma, o suic\u00eddio ainda impera entre os mais velhos. E as suposi\u00e7\u00f5es de Durkheim encontram eco nas mortes de policiais militares em todo o Brasil, n\u00e3o somente quando relacionadas a faixa et\u00e1ria, mas tamb\u00e9m quando somadas ao contexto social e profissional em que vivem as v\u00edtimas.<\/p>\n<p>*Os nomes foram modificados para preservar a identidade da fonte.<\/p>\n<p>Essa reportagem \u00e9 resultado da Microbolsa de Viol\u00eancia Policial, realizado pela Ag\u00eancia P\u00fablica\u00a0e a Conectas Direitos Humanos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Treinados para n\u00e3o revelarem suas pr\u00f3prias dores, policiais militares de todo o pa\u00eds enfrentam n\u00fameros explosivos de 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