{"id":27304,"date":"2021-08-21T15:02:00","date_gmt":"2021-08-21T18:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogopara.com.br\/?p=27304"},"modified":"2021-08-21T12:06:40","modified_gmt":"2021-08-21T15:06:40","slug":"taxa-de-morte-por-cancer-infantil-no-brasil-e-duas-vezes-a-dos-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/2021\/08\/21\/taxa-de-morte-por-cancer-infantil-no-brasil-e-duas-vezes-a-dos-eua","title":{"rendered":"Taxa de morte por c\u00e2ncer infantil no Brasil \u00e9 duas vezes a dos EUA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A falta de diagn\u00f3stico precoce e de acesso a tratamento especializado faz com que a taxa de mortalidade do c\u00e2ncer infantojuvenil no Brasil seja o dobro da verificada em pa\u00edses desenvolvidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00e9dia brasileira est\u00e1 em 43,4 mortes por milh\u00e3o, um patamar que permanece estagnado h\u00e1 20 anos e com grandes disparidades regionais e de ra\u00e7a\/cor. Nos EUA, a m\u00e9dia \u00e9 22 mortes por milh\u00e3o.<br \/>\nEnquanto estados como Bahia, Minas Gerais e S\u00e3o Paulo exibem taxas pr\u00f3ximas a 40 \u00f3bitos por milh\u00e3o, Piau\u00ed, Roraima e Amap\u00e1 quase batem em 60 por milh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 servi\u00e7os oncol\u00f3gicos na regi\u00e3o Sudeste com taxas de sobrevida compat\u00edveis aos de pa\u00edses desenvolvidos \u201480% ou mais. J\u00e1 outros nas regi\u00f5es Centro Oeste e Norte est\u00e3o abaixo de 50%.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre crian\u00e7as e adolescentes ind\u00edgenas, a taxa de mortes chega a ser 58% acima da m\u00e9dia nacional \u201467,7 por milh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dados s\u00e3o at\u00e9 2019 e constam em um levantamento in\u00e9dito sobre o panorama da oncologia pedi\u00e1trica no pa\u00eds, realizado pelo Instituto Desiderata, com apoio t\u00e9cnico de profissionais da Funda\u00e7\u00e3o do C\u00e2ncer, do Instituto Nacional de C\u00e2ncer e da Iniciativa Global da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade para o C\u00e2ncer Infantil na Am\u00e9rica Latina e Caribe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 preocupa\u00e7\u00e3o adicional dos especialistas com o impacto da pandemia de Covid-19 no atendimento a crian\u00e7as e adolescentes com c\u00e2ncer. Existem relatos de que em 2020 houve atrasos no encaminhamento de casos suspeitos, cancelamento de procedimentos ou mesmo a demora pela procura de tratamento, o que pode diminuir as chances de sobrevida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lan\u00e7ado em um f\u00f3rum oncol\u00f3gico h\u00e1 duas semanas, o documento integra uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es dentro de uma iniciativa global da OMS (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade) que busca diminuir as disparidades regionais e aumentar as chances de sobreviver ao c\u00e2ncer infantil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A meta da iniciativa \u00e9 atingir 60% de sobreviv\u00eancia no c\u00e2ncer infantojuvenil at\u00e9 2030. O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade designou pessoas para acompanhar a articula\u00e7\u00e3o, mas ainda n\u00e3o assinou o compromisso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de representar apenas de 2% a 3% do total dos casos de tumores diagnosticados no Brasil, o c\u00e2ncer \u00e9 a principal causa de morte por doen\u00e7as entre zero e 19 anos \u2014s\u00f3 perde para as mortes violentas. S\u00e3o cerca de 8.500 novos casos anuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na iniciativa global, h\u00e1 uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es preconizadas como capacita\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria para reconhecer sinais da doen\u00e7a e encaminhar a pessoa rapidamente para concluir o diagn\u00f3stico, al\u00e9m do acesso a centros de tratamento de excel\u00eancia e terapias necess\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m se discute a necessidade de benef\u00edcios sociais para que n\u00e3o haja abandono do tratamento. Como muitas crian\u00e7as precisam sair de suas cidades para se tratar, o pai ou a m\u00e3e precisa abandonar o emprego ou o resto da fam\u00edlia e n\u00e3o h\u00e1 como se bancar longe de casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas regi\u00f5es Norte e Centro Oeste, h\u00e1 um menor n\u00famero de servi\u00e7os habilitados e m\u00e9dicos especializados em oncologia pedi\u00e1trica. Com isso, h\u00e1 um grande fluxo de pacientes em dire\u00e7\u00e3o a S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De todas as crian\u00e7as que deixam seu estado de origem e v\u00e3o para outro para receber tratamento, 70,4% acabam em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEssas crian\u00e7as enfrentam grandes problemas de deslocamento para que possam ter seu tratamento em centros especializados. Precisamos pensar em pol\u00edticas que possam trazer mais equidade de tratamento\u201d, disse Nevi\u00e7olino Pereira de Carvalho Filho, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Pedi\u00e1trica, na abertura do f\u00f3rum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Roberta Costa Marques, diretora-executiva do Desiderata, todo o movimento \u00e9 no sentido de tentar melhorar a efici\u00eancia e a organiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os oncol\u00f3gicos, especialmente os p\u00fablicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O panorama oncol\u00f3gico mostra v\u00e1rios problemas relacionados \u00e0 assist\u00eancia adequada. Por exemplo: 43% dos pacientes entre 15 e 19 anos foram tratados em hospitais sem habilita\u00e7\u00e3o em oncologia pedi\u00e1trica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orienta\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais indicam o tratamento em centros especializados para esse p\u00fablico, mesmo que seja um adulto jovem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA oncologia pedi\u00e1trica vai muito al\u00e9m dos 14, 15 anos, depende da caracter\u00edstica do tumor. Tem gente que defende que at\u00e9 os 21 anos ainda \u00e9 c\u00e2ncer infantil. Porque o protocolo de tratamento \u00e9 o infantil, n\u00e3o \u00e9 o de adulto.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mortalidade por c\u00e2ncer \u00e9 maior entre os adolescentes (51,1\/milh\u00e3o), seguida de crian\u00e7as de 0 a 4 anos (46,9\/ milh\u00e3o). Nas faixas et\u00e1rias de 5 a 9 e 10 a 14, os valores s\u00e3o pr\u00f3ximos: 37,9 e 37,1 por milh\u00e3o, respectivamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O diagn\u00f3stico preciso dos tumores \u00e9 um outro desafio no pa\u00eds: 8% deles foram classificados como neoplasias n\u00e3o especificadas nos RCBP (Registros de C\u00e2ncer de Base Populacional). Nos Estados Unidos, esse valor \u00e9 inferior a 1%.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A oncologista Maria Inez Gadelha, da secretaria de aten\u00e7\u00e3o especializada do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, diz ter ficado \u201cdeprimida e preocupada\u201d com fato de que, a despeito de todos os esfor\u00e7os de organiza\u00e7\u00e3o e de financiamento dos servi\u00e7os oncol\u00f3gicos pedi\u00e1tricos, as taxas de mortalidade se mantiveram estagnadas em patamares altos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAinda que tenhamos taxas excelentes [em alguns centros], que correspondem a pa\u00edses desenvolvidos, no global, confesso a minha depress\u00e3o pelas fragilidades do monitoramento e avalia\u00e7\u00e3o [dos centros oncol\u00f3gicos com resultados ruins].\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para ela, a discuss\u00e3o fundamental agora \u00e9 melhorar a capacidade instalada. \u201cN\u00e3o adianta criar novos centros.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rafael Dall Alba, consultor nacional em doen\u00e7as n\u00e3o transmiss\u00edveis da Opas (Organiza\u00e7\u00e3o Pan-Americana de Sa\u00fade) lembrou que nos \u00faltimos anos houve enorme progresso nas terapias para o c\u00e2ncer infantil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNo caso da leucemia aguda, 30 anos atr\u00e1s era considerada inevitavelmente fatal. Atualmente \u00e9 o c\u00e2ncer infantil mais frequente e com taxa de sobreviv\u00eancia em cinco anos superior a 70%\u201d, afirmou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas os especialistas chamam a aten\u00e7\u00e3o para o fato de o pa\u00eds enfrentar o desabastecimento recorrente de quimioter\u00e1picos fundamentais para combater tumores pedi\u00e1tricos \u2014o que impacta diretamente nas estrat\u00e9gias de tratamento.<br \/>\nSegundo o oncologista pedi\u00e1trico Claudio Galv\u00e3o de Castro J\u00fanior, do Hospital S\u00e3o Camilo (de S\u00e3o Paulo), o maior problema continua sendo os medicamentos antigos, que est\u00e3o desaparecendo do mercado por serem muito baratos e, por isso, n\u00e3o despertar mais o interesse das farmac\u00eauticas, associados a problemas de distribui\u00e7\u00e3o, legisla\u00e7\u00e3o, carga tribut\u00e1ria e a dificuldades nas plantas de fabrica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os substitutos dessas drogas, quando existem, s\u00e3o muito caros, o que inviabiliza o acesso. Um exemplo \u00e9 a bleomicina, fundamental no tratamento do linfoma de Hodgkin, que custava R$ 240 e que sumiu do mercado. Seu substituto \u00e9 o brentuximabe, que custa cerca de R$ 18 mil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Temos denunciado isso h\u00e1 uma d\u00e9cada, mas nada de concreto foi feito. Agora, com a pandemia, a discuss\u00e3o parou de vez&#8221;, diz Castro J\u00fanior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o oncologista Gelcio Luiz Quintella, do Inca (Instituto Nacional do C\u00e2ncer), o cuidado integral da crian\u00e7a com c\u00e2ncer tamb\u00e9m precisa ser estendido para os sobreviventes e para as sequelas tardias do tratamento, como complica\u00e7\u00f5es cardiovasculares e metab\u00f3licas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o menos importante, segundo ele, s\u00e3o os cuidados paliativos, voltados para as crian\u00e7as sem chances de cura. &#8220;Essa discuss\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 mais avan\u00e7ada no c\u00e2ncer adulto, mas n\u00e3o no infantojuvenil.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A falta de diagn\u00f3stico precoce e de acesso a tratamento especializado faz com que a taxa de mortalidade do c\u00e2ncer infantojuvenil no Brasil seja o dobro da verificada em pa\u00edses desenvolvidos. 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