{"id":27679,"date":"2021-08-31T18:37:00","date_gmt":"2021-08-31T21:37:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogopara.com.br\/?p=27679"},"modified":"2021-08-31T14:21:13","modified_gmt":"2021-08-31T17:21:13","slug":"enedina-alves-marques-a-primeira-engenheira-negra-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/2021\/08\/31\/enedina-alves-marques-a-primeira-engenheira-negra-do-brasil","title":{"rendered":"Enedina Alves Marques, a primeira engenheira negra do Brasil"},"content":{"rendered":"\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><\/h1>\n\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\">Faz 41 anos que Enedina Alves Marques faleceu de infarto. Sozinha em seu apartamento, localizado na Rua Emerlino Le\u00e3o, no centro de Curitiba, foi encontrada ca\u00edda no ch\u00e3o frio e azulejado da cozinha. Aos 68 anos, a sa\u00fade debilitada e o corpo desgastado pela a\u00e7\u00e3o do tempo, terminou seus dias tragada pelo anonimato e pela invisibilidade a que s\u00e3o submetidos milhares de seres humanos, especialmente as mulheres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O apagamento de seus feitos em vida pouco contrasta com as homenagens p\u00f3stumas, incapazes de projet\u00e1-la para fora do labirinto do descaso. Mas as homenagens, cabe reconhecer, s\u00e3o esfor\u00e7os salutares na tentativa de inscrever a hist\u00f3ria da personagem nos anais da mem\u00f3ria nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enedina faleceu em agosto de 1981, durante o rigoroso inverno paranaense. Foi preciso descer a sepultura para que tra\u00e7os de sua trajet\u00f3ria fossem recompostos e alguns agraciamentos pipocassem na cidade que ajudou a construir. No bairro do Cajuru, em Curitiba, uma rua foi batizada em sua homenagem. O Memorial da Mulher, tamb\u00e9m na capital paranaense, outorgou seu nome entre as 53 mulheres \u201cnot\u00e1veis\u201d \u2013 todas elas brasileiras. Maring\u00e1, cidade vizinha, n\u00e3o ficou \u00e0 deriva e inaugurou o Instituto de Mulheres Negras Enedina Alves Marques, reverenciando a personagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, estimada leitora, ante a listagem dos tributos, cabe a pergunta: quem foi Enedina Alves Marques? Qual sua contribui\u00e7\u00e3o para hist\u00f3ria do Paran\u00e1, que a laureou em distintos espa\u00e7os p\u00fablicos e institui\u00e7\u00f5es privadas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascida em 13 de janeiro de 1913, em Curitiba, Enedina era filha de negros imigrantes que chegaram \u00e0 cidade em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida. Numa Curitiba majoritariamente rural, marcada pelo mandonismo e que ensaiava um processo de urbaniza\u00e7\u00e3o, a fam\u00edlia de Enedina, cuja proced\u00eancia desconhecemos, somava-se \u00e0s centenas de brasileiros e imigrantes europeus estabelecidos na regi\u00e3o. Sua m\u00e3e, Virg\u00edlia Alves Marques, provia o sustento da prole trabalhando em casas de fam\u00edlia e lavando roupas daqueles que a contratavam. Enquanto isso, seu pai, Paulo Marques, prestava pequenos servi\u00e7os de reparos em moradias e ch\u00e1caras para custear as demais despesas familiares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O matrim\u00f4nio de Virg\u00edlia e Paulo sucumbiu ao desgaste originado das brigas do casal, algo que empurrou a matriarca, junto com os filhos, a irem morar na casa onde Virg\u00edlia trabalhava. Agora, num c\u00f4modo apertado e pouco ventilado, viviam na propriedade de Domingos Nascimento, importante intelectual republicano paranaense.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os anos de Enedina na nova casa foi marcado pelo trabalho dom\u00e9stico, brincadeiras com os filhos do republicano e por leituras espor\u00e1dicas nos momentos de descanso. O acesso aos livros que circulavam pela moradia despertou o interesse da personagem pelos estudos, alfabetizada aos 12 anos numa cidade em que a maioria dos habitantes eram iletrados. O empenho nos estudos resultou em sua diploma\u00e7\u00e3o no ensino prim\u00e1rio e, tempos depois, na conclus\u00e3o do \u201censino complementar\u201d que a credenciava como \u201cprofessora normalista\u201d. Outorgado seu novo status, passou a lecionar em diferentes escolas do interior paranaense.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o ingresso no servi\u00e7o p\u00fablico, Enedina substituiu a vassoura pelos livros e os servi\u00e7os como empregada dom\u00e9stica foram temporariamente interrompidos. Agora se dedicava a cuidar de sua pr\u00f3pria casa, adquirida com recursos obtidos na doc\u00eancia, bem como no letramento dos estudantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enedina era incans\u00e1vel. Conciliava as muitas aulas nas escolas regulares com servi\u00e7os volunt\u00e1rios prestados aos desassistidos \u2013 crian\u00e7as e adultos. E aqui servi\u00e7o tem uma conota\u00e7\u00e3o objetiva: significa \u201cservir ao outro\u201d, \u201cservir ao humano\u201d. Por isso, recebia pessoas em sua casa, promovia cursos de alfabetiza\u00e7\u00e3o, atendia popula\u00e7\u00f5es vivendo em rinc\u00f5es pouco visitados, inclusive pelo governo local, pouco interessante em suprir as demandas b\u00e1sicas dos desafortunados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O parco sal\u00e1rio de professora a impossibilitava de bancar um curso universit\u00e1rio em Engenharia Civil, algo com o qual sonhava desde a forma\u00e7\u00e3o no magist\u00e9rio. Naquele per\u00edodo, meados de 1930, havia uma determina\u00e7\u00e3o legislativa aos postulantes do curso de Engenharia: precisavam fazer uma capacita\u00e7\u00e3o profissional de tr\u00eas anos, desembolsando recursos pr\u00f3prios, numa etapa chamada \u201cCurso complementar\u201d. Somente ap\u00f3s o fim da jornada, ratificada a \u201captid\u00e3o\u201d, estavam autorizados a seguirem para Universidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o intuito de viabilizar a forma\u00e7\u00e3o superior, decidiu conciliar as aulas na escola com trabalhos em casa de fam\u00edlia \u2013 a falta de recursos, portanto, e a determina\u00e7\u00e3o da gradua\u00e7\u00e3o, fizeram Enedina relembrar os anos trabalhando como empregada dom\u00e9stica. Na nova empreitada, escolheu a casa de Iracena e Mathias Caron, fam\u00edlia curitibana de muitas posses e com inser\u00e7\u00e3o nos altos escal\u00f5es hier\u00e1rquicos da Curitiba novecentista. A fam\u00edlia, inclusive, ciente das habilidades da contratada, aproveitava tanto suas habilidades no cuidado com a casa como a facilidade no trato das letras e dos n\u00fameros. Nesse sentido, pediam \u00e0 professora que alfabetizasse seus filhos nos intervalos das faxinas e demais cuidados da moradia. Uma mulher negra e pobre, vejam s\u00f3, letrando as crian\u00e7as ricas de uma cidade at\u00e9 hoje manchada pelo racismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dupla jornada de trabalho regular (professora \u2013 empregada dom\u00e9stica) possibilitou que Enedina juntasse recursos, ingressasse no curso complementar e sa\u00edsse dele diplomada \u2013 isso nos idos de 1939. No mesmo ano, redigiu um requerimento endere\u00e7ado ao diretor da Faculdade de Engenharia do Paran\u00e1 (FEP) solicitando sua inscri\u00e7\u00e3o nos exames de habilita\u00e7\u00e3o para gradua\u00e7\u00e3o em engenharia civil. O pedido foi deferido e a data do exame foi marcada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s ser aprovada nos exames, apresentar a documenta\u00e7\u00e3o exigida e fazer o pagamento da matr\u00edcula, Enedina ingressou como caloura no curso de engenharia civil destinado a formar a elite paranaense. \u00danica mulher da turma, \u00fanica negra, \u00fanica trabalhadora de origem pobre, Enedina Marques dinamitou as barreiras impostas por \u00e0queles que tentaram interditar seu sonho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Pragmatismo Pol\u00edtico\u00a0<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Faz 41 anos que Enedina Alves Marques faleceu de infarto. Sozinha em seu apartamento, localizado na Rua Emerlino Le\u00e3o, no centro de Curitiba, foi encontrada ca\u00edda no ch\u00e3o frio e azulejado da cozinha. 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