{"id":3284,"date":"2019-09-21T06:26:11","date_gmt":"2019-09-21T09:26:11","guid":{"rendered":"http:\/\/blogopara.com.br\/?p=3284"},"modified":"2019-09-21T06:26:19","modified_gmt":"2019-09-21T09:26:19","slug":"sem-mascara-no-meio-da-fumaca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/2019\/09\/21\/sem-mascara-no-meio-da-fumaca","title":{"rendered":"SEM M\u00c1SCARA, NO MEIO DA FUMA\u00c7A"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Sentado no sof\u00e1 da sala de estar do primeiro batalh\u00e3o do Corpo de Bombeiros do Acre, o sargento Severo olha no celular a previs\u00e3o do tempo para ter uma ideia de como ser\u00e1 o dia de trabalho naquele domingo 1\u00ba de setembro. S\u00e3o 10 horas em Rio Branco e o term\u00f4metro j\u00e1 passa dos 30\u00baC. N\u00e3o ter um dia quente \u00e9 que seria anormal em qualquer m\u00eas na regi\u00e3o que abriga a maior floresta tropical do mundo. Agosto e setembro, contudo, est\u00e3o acima da m\u00e9dia, com a baixa umidade relativa do ar e a fuma\u00e7a das queimadas ampliando a sensa\u00e7\u00e3o de desconforto. \u00c9 quando o chamado \u201cver\u00e3o amaz\u00f4nico\u201d alcan\u00e7a o auge, e o per\u00edodo sem chuvas entre julho e agosto leva a umidade a cair e chegar perto dos 20%, quando o comum \u00e9 acima dos 80%. A temperatura alta e o ar seco criam o ambiente perfeito para a \u201climpeza\u201d de ro\u00e7ados e pastagens pelos moradores do campo \u2013 o problema \u00e9 que a limpeza \u00e9 feita com fogo. \u00c9 neste per\u00edodo que o c\u00e9u de Rio Branco amanhece cinza, e os 499 bombeiros militares do Acre precisam se multiplicar para dar conta de todos os pedidos para apagar queimadas florestais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ad\u00e3o da Rocha Severo iniciou o plant\u00e3o de domingo \u00e0s 8 da manh\u00e3 e ir\u00e1 at\u00e9 as 8 horas da segunda-feira. O sargento de 43 anos \u00e9 natural de Rio Branco, a capital do Acre, e ingressou no Corpo de Bombeiros em concurso de 2007. Nestes doze anos de servi\u00e7o, chegou \u00e0 patente de segundo-sargento e, naquele dia, seria o comandante da equipe de salvamento e combate a pequenos inc\u00eandios: al\u00e9m dele, um motorista e mais dois homens, ambos cabos, estavam no banco de tr\u00e1s. O ve\u00edculo \u00e9 uma Toyota Hilux chamada ARF: Auto R\u00e1pido Florestal, com mobilidade para chegar a inc\u00eandios em vegeta\u00e7\u00e3o. A Toyota puxa um tanque-reboque (chamada por eles de \u201ccarrocinha\u201d) com capacidade para 1 200 litros d\u2019\u00e1gua. Na carroceria, dois adesivos j\u00e1 desbotados, quase apagados, lembram que aquele ve\u00edculo foi comprado h\u00e1 aproximadamente seis anos com recursos do Fundo Amaz\u00f4nia. Este ano, em meio a uma crise pol\u00edtica internacional diante do aumento das taxas de desmatamento e queimadas no mais importante bioma do pa\u00eds, Noruega e Alemanha cancelaram repasses de quase R$ 300 milh\u00f5es para o fundo. Depois, o governo Bolsonaro recusou US$ 20 milh\u00f5es oferecido pelos pa\u00edses do G7 para combater os focos de fogo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na caminhonete h\u00e1 uma mangueira de 100 metros que permite ao bombeiro avan\u00e7ar na vegeta\u00e7\u00e3o at\u00e9 o foco da queimada. Se n\u00e3o for suficiente, os quatro abafadores na carroceria, mais as bombas costais (mochilas com 20 litros de \u00e1gua), v\u00e3o substituir a \u00e1gua. No carro est\u00e3o machados para abrir caminho na floresta, uma caixa para colocar animais silvestres feridos e uma escada de seis metros. Nos meses de calmaria, a escada \u00e9 usada mais para salvar gatinhos, e o resgate de um bichano est\u00e1 entre as ocorr\u00eancias mais inusitadas atendidas pelo sargento Severo, que encontrou o animal preso dentro do vaso sanit\u00e1rio. \u201cA \u00fanica solu\u00e7\u00e3o era quebrar o vaso para tirar o gato de l\u00e1. O problema era que o marido da dona casa n\u00e3o queria deixar, dizendo que ia sair muito caro. Ficamos no impasse\u201d, recorda Severo. A dona da casa deu a \u00faltima palavra, e Severo, com uma marreta, quebrou o vaso sanit\u00e1rio e resgatou o gato. \u201cDemorasse mais o bichano ia morrer.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nestes dias de agosto e setembro o sargento teve pouco tempo para acudir animais dom\u00e9sticos. O Acre estava, literalmente, pegando fogo. \u201cTinha dias em que sa\u00edamos de uma miss\u00e3o e j\u00e1 \u00edamos para outra\u201d, lembra. J\u00e1 foram oito ocorr\u00eancias de inc\u00eandios florestais este ano num \u00fanico dia apenas em seu batalh\u00e3o, e outras dez refor\u00e7ando equipes das outras duas bases de Rio Branco. O trabalho traz sempre situa\u00e7\u00f5es de risco n\u00e3o apenas por conta do fogo, mas tamb\u00e9m pelo ambiente no entorno. Em agosto, numa das ocasi\u00f5es em que ele e outros tr\u00eas brigadistas combatiam chamas numa vegeta\u00e7\u00e3o alta, o vento mudou de dire\u00e7\u00e3o e toda a fuma\u00e7a foi na dire\u00e7\u00e3o deles. \u201cFicamos numa situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, pois n\u00e3o t\u00ednhamos vis\u00e3o de onde est\u00e1vamos nem do fogo. A solu\u00e7\u00e3o foi deitar no ch\u00e3o e sair rastejando, nos guiando pela mangueira, chegando at\u00e9 o carro\u201d, conta Severo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Severo sofreu um acidente de moto no dia 10 de setembro e voltou ao trabalho no dia 19. No dia em que retornou j\u00e1 precisou encarar uma queimada\u00a0dentro de uma mata fechada, \u00e1rea de reserva legal em propriedade particular na estrada rural de Porto Acre. Fogo em mata fechada \u00e9\u00a0uma das situa\u00e7\u00f5es mais complicadas para um bombeiro, pois o vento e a fuma\u00e7a s\u00e3o \u201cinimigos\u201d do combatente. Al\u00e9m de mudar a dire\u00e7\u00e3o da fuma\u00e7a \u2013 deixando a equipe sem visibilidade \u2013 o vento pode derrubar \u00e1rvores que estejam com as bases bastante queimadas. Neste caso espec\u00edfico, o fogo se arrastava havia tr\u00eas dias. \u00c1rvores ca\u00edram perto dos bombeiros enquanto eles tentavam apagar as chamas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO pior foi o fator vento que estava muito forte e mudando de dire\u00e7\u00e3o. A fuma\u00e7a n\u00e3o deu tr\u00e9gua. O terreno era irregular, muitas \u00e1rvores no ch\u00e3o, e isso dificultou muito nosso trabalho.\u201d Foram necess\u00e1rias 5h15 para apagar o fogo. \u201cOs meus olhos ficaram totalmente vermelhos de tanta fuma\u00e7a.\u201d Os 1 200 litros do tanque-reboque n\u00e3o foram suficientes. A \u00e1gua de um a\u00e7ude dentro da fazenda foi usada para reabastecer as bombas costais. N\u00e3o fosse isso, o fogo teria que ser combatido no bra\u00e7o, usando apenas os abafadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O combate a inc\u00eandios florestais \u00e9 de bastante risco para os bombeiros. Dentro da floresta ocorre o chamado fogo a\u00e9reo, quando as chamas se espalham pelas copas das \u00e1rvores. Neste caso, explica o sargento Severo, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 recorrer a uma motosserra para derrub\u00e1-las, evitando que outras tamb\u00e9m sejam queimadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"capitalize\">D<\/span>ificuldades em combate a inc\u00eandios Severo enfrenta desde que entrou na corpora\u00e7\u00e3o. Em 2009, para apagar um inc\u00eandio florestal, seu comandante decidiu colocar fogo em outra \u00e1rea, na t\u00e9cnica conhecida como fogo contra fogo. \u201cA vegeta\u00e7\u00e3o estava muito seca, e passou a ventar muito. O fogo mudou de dire\u00e7\u00e3o e veio para onde a gente estava. Do outro lado tinha o foco original, ficamos entre os dois e n\u00e3o tinha como atravessar pois as chamas estavam densas, n\u00e3o estava com a roupa apropriada\u201d, diz. A solu\u00e7\u00e3o foi subir numa \u00e1rvore e ir passando de uma \u00e1rvore a outra, at\u00e9 conseguir escapar. \u201cDeixamos tudo para tr\u00e1s, abafadores e as bombas costais.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro risco \u00e9 o de se deparar com animais perigosos. Este ano, enquanto apagava uma queimada durante a noite numa \u00e1rea de mata pr\u00f3xima ao posto da Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal na BR-364, um de seus soldados pisou numa jararaca. \u201cFicamos naquela press\u00e3o psicol\u00f3gica de ter que combater o fogo, pois ele podia atingir o posto da PRF, e o receio de algu\u00e9m ser atacado pela cobra\u201d, afirma ele. Dois anos atr\u00e1s o sargento foi picado por um escorpi\u00e3o. No momento em que reabastecia sua bomba costal, Severo retirou o capacete e o colocou no ch\u00e3o. Ao recolocar o equipamento, sentiu uma forte dor na cabe\u00e7a. \u201cTirei o capacete na hora, fiquei assustado. Achei que fosse uma cobra, mas nada encontramos. Na hora j\u00e1 tive as primeiras rea\u00e7\u00f5es, comecei a perder os movimentos. Levaram-me para uma UPA pr\u00f3xima onde me deram soro e medica\u00e7\u00e3o. L\u00e1 o m\u00e9dico me disse que tinha sido um escorpi\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas ocorr\u00eancias s\u00e3o em terrenos baldios na Zona Urbana de Rio Branco e em \u00e1reas de vegeta\u00e7\u00e3o \u00e0s margens de rodovias e estradas da Zona Rural, chamadas na Amaz\u00f4nia de ramais. \u201cAs pessoas t\u00eam o costume de queimar o mato de suas propriedades \u00e0s margens das estradas\u201d, diz. Muitas vezes, o fogo acaba saindo do controle. Segundo o Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em agosto deste ano o Acre registrou 3 051 focos de queimada. No mesmo m\u00eas do ano passado, foram 1 368 registros. Apesar do elevado n\u00famero de focos de calor detectado este ano, o Acre n\u00e3o apresentou registros de grandes queimadas dentro de \u00e1reas de floresta, como ocorreu em 2005. Naquele ano, segundo dados do governo estadual, mais de 300 mil hectares de floresta foram incendiados, incluindo \u00e1reas dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes. Geralmente a queimada \u00e9 feita em \u00e1reas j\u00e1 desmatadas (novas ou antigas) para se fazer a limpeza de ro\u00e7ados ou pastagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estudo elaborado pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amaz\u00f4nia (Ipam) aponta que na compara\u00e7\u00e3o com 2016, quando o Acre passou por uma severa estiagem provocada por um El Ni\u00f1o, as queimadas ao longo de 2019 est\u00e3o 23% superiores; j\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o a 2018 os focos observados pelos sat\u00e9lites est\u00e3o 57% acima. Em maio, o governador do Acre, Gladson Cameli (Progressistas), em visita ao munic\u00edpio de Sena Madureira, discursou dizendo que os produtores rurais autuados pelo Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac) n\u00e3o precisavam mais pagar as multas: \u201cQuem for da Zona Rural, e que o seu Imac estiver multando, algu\u00e9m me avise porque eu n\u00e3o vou permitir que venham prejudicar quem quer trabalhar. Avise-me e n\u00e3o pague nenhuma multa porque quem est\u00e1 mandando agora sou eu. N\u00e3o paguem.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A declara\u00e7\u00e3o foi captada como um sinal verde para o desmatamento e o uso do fogo pelo homem do campo. A \u00e1rea desmatada no Acre cresceu de forma significativa em 2019: segundo o \u00faltimo Boletim do Desmatamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amaz\u00f4nia Legal (Imazon), 187 quil\u00f4metros quadrados de floresta nativa foram desmatados no estado em julho deste ano; no mesmo m\u00eas de 2018, a \u00e1rea de mata perdida chegou a 35 km2\u00a0\u2013 varia\u00e7\u00e3o de 434%. O crescimento tamb\u00e9m foi registrado em compara\u00e7\u00e3o com anos anteriores: de agosto de 2017 a julho de 2018, o desmatamento no Acre foi 104 km2; de agosto do ano passado a julho \u00faltimo, o total de floresta derrubada ficou em 371 km2\u00a0\u2013 uma alta de 257%. No Par\u00e1, estado que sempre lidera o ranking de desmatamento na Amaz\u00f4nia, essa varia\u00e7\u00e3o foi de 21%, enquanto o Mato Grosso registrou redu\u00e7\u00e3o de 17%.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com as queimadas v\u00eam a fuma\u00e7a e polui\u00e7\u00e3o. Dados do programa de monitoramento da qualidade do ar mantido pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico do Acre apontam que quatro cidades do estado apresentaram n\u00edvel de concentra\u00e7\u00e3o de material particulado acima do recomendado pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS). De acordo com dados da Secretaria Estadual de Sa\u00fade, 54 785 moradores do Acre passaram por algum tipo de atendimento ambulatorial por conta de doen\u00e7as respirat\u00f3rias de janeiro a agosto de 2019. No mesmo per\u00edodo do ano passado, segundo a secretaria, foram 68 124 atendimentos, redu\u00e7\u00e3o de 19,5%.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os que inalaram fuma\u00e7a est\u00e3o o sargento Severo e sua equipe. Durante todo este per\u00edodo cr\u00edtico de queimadas, os bombeiros do Acre trabalharam sem a m\u00e1scara facial duplo filtro, que impede a entrada de micropart\u00edculas no sistema respirat\u00f3rio. O cabo Pal\u00fa Nogueira, que integrava a equipe de Severo naquele 1\u00ba de setembro, tirou do pr\u00f3prio bolso R$ 80 para comprar o equipamento para si. \u201cSe n\u00e3o quiser inalar fuma\u00e7a tem que ser assim\u201d, disse. Enquanto o equipamento apropriado n\u00e3o \u00e9 comprado, os militares v\u00e3o usando apenas a balaclava, esp\u00e9cie de touca que protege a regi\u00e3o da cabe\u00e7a e do pesco\u00e7o, mas n\u00e3o impede a inala\u00e7\u00e3o de fuma\u00e7a. Questionados sobre a falta de m\u00e1scaras de duplo filtro, o Corpo de Bombeiros e a Secretaria de Seguran\u00e7a n\u00e3o responderam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por conta do ritmo apertado de trabalho nas semanas de inc\u00eandios no Acre, Severo tem pouco tempo para estar em casa. \u00c9 pai de tr\u00eas filhos e prefere n\u00e3o falar da vida pessoal. \u201cSomando a semana toda n\u00e3o fico 24 horas em casa\u201d, calcula. Ao final do plant\u00e3o de 24 horas, o sargento tem folga de 72 horas, mas est\u00e1 sempre de sobreaviso. \u201cPerdi as contas das vezes que precisei trabalhar estando na folga. Mas o trabalho do bombeiro \u00e9 esse mesmo, essa \u00e9 a nossa vida.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"capitalize\">N<\/span>aquele domingo de 1\u00ba de setembro, com sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica perto dos 40 graus, as ocorr\u00eancias de fogo come\u00e7aram a surgir ap\u00f3s o meio-dia, pouco antes do in\u00edcio da partida entre Flamengo e Palmeiras na briga pela lideran\u00e7a do Brasileiro. A equipe de Severo trocou o jogo e o ar condicionado em frente \u00e0 tev\u00ea por uma miss\u00e3o na Zona Rural de Rio Branco. \u201cO bicho costuma pegar a partir do meio-dia. \u00c9 o hor\u00e1rio que as pessoas usam para queimar. Como de manh\u00e3 cedo ainda h\u00e1 muita umidade t\u00edpica da nossa regi\u00e3o, elas esperam a vegeta\u00e7\u00e3o ficar mais seca \u00e0 medida que a temperatura vai subindo, ent\u00e3o o fogo pega mais f\u00e1cil\u201d, explica o sargento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s atracar a carrocinha na traseira da caminhonete, os bombeiros v\u00e3o com destino ao Ramal do Mutum, e a maior parte do percurso \u00e9 em estrada de barro mesmo. A informa\u00e7\u00e3o repassada ao 193 dava conta de um fogo de grandes propor\u00e7\u00f5es em \u00e1rea de floresta. A reportagem da\u00a0<b>piau\u00ed<\/b>\u00a0acompanhou o trabalho de Severo e sua equipe. Antes de chegar ao destino, pequenos inc\u00eandios \u00e0s margens da estrada precisam ser apagados, para evitar que eles se espalhem por outras \u00e1reas, invadindo propriedades, destruindo casas e planta\u00e7\u00f5es inteiras. A equipe vai at\u00e9 o local informado, mas n\u00e3o encontra o foco. Volta ao batalh\u00e3o. O Flamengo est\u00e1 ganhando a partida e assumindo a lideran\u00e7a no Brasileiro. Severo vai para o andar de cima elaborar o relat\u00f3rio daquela ocorr\u00eancia, registrando tudo o que foi feito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cada ano os bombeiros acrianos lidam com duas situa\u00e7\u00f5es extremas. As chuvas intensas do \u201cinverno amaz\u00f4nico\u201d \u2013 que no Acre vai de outubro a mar\u00e7o \u2013 provocam enchentes que desabrigam centenas de fam\u00edlias. Cabe a eles entrar nas \u00e1reas alagadas, com a \u00e1gua acima da cintura, para retirar as pessoas e seus pertences. De agosto a setembro, o maior trabalho s\u00e3o os inc\u00eandios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando n\u00e3o est\u00e1 no batalh\u00e3o, Severo aproveita o tempo livre para ministrar cursos para forma\u00e7\u00e3o de brigadistas de inc\u00eandio em empresas. \u00c9 a forma de complementar a renda, pois o posto de segundo-sargento lhe rende um sal\u00e1rio bruto de R$ 6.500. \u201cCom desconto do Imposto de Renda e Previd\u00eancia sobram livres uns R$ 3.800.\u201d Outra tarefa, esta n\u00e3o remunerada, \u00e9 dar aulas de primeiros-socorros e no\u00e7\u00f5es de combate a inc\u00eandios aos alunos das academias de Pol\u00edcia Civil e Militar. Ainda precisa sobrar tempo para a pr\u00e1tica de atividades f\u00edsicas, exig\u00eancia para a atua\u00e7\u00e3o de um bom bombeiro.\u201cSempre estou fazendo minha corrida e nata\u00e7\u00e3o que \u00e9 para manter o corpo bem preparado.\u201d Antes de passar no concurso dos Bombeiros, Severo foi carteiro dos Correios por tr\u00eas anos, mas n\u00e3o gostava do trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro trabalho de Severo foi o de soldado do Ex\u00e9rcito, em 1995. Iniciou a vida na caserna aos 18 anos, quando se apresentou para o servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio. Serviu no 4\u00ba Batalh\u00e3o de Infantaria de Selva (BIS) por sete anos. Foi dispensado e voltou \u00e0 vida civil. Insatisfeito fora do quartel, procurou uma forma de reingressar. \u201cSer bombeiro \u00e9 muito bom. As pessoas precisam de ajuda, ent\u00e3o voc\u00ea chega e resolve aquela situa\u00e7\u00e3o, que vai desde uma casa em chamas at\u00e9 retirar o anel preso no dedo de uma crian\u00e7a\u201d, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Severo j\u00e1 encarou situa\u00e7\u00f5es em que ficou entre a vida e a morte. Certa feita, ao atender uma ocorr\u00eancia de inc\u00eandio em uma casa de madeira na periferia de Rio Branco, soube que dentro havia uma crian\u00e7a. As chamas avan\u00e7avam muito r\u00e1pido. \u201cMinha equipe foi a primeira a chegar. O problema \u00e9 que n\u00e3o est\u00e1vamos com a roupa adequada para enfrentar o fogo, s\u00f3 de farda comum. Por nossas normas de seguran\u00e7a eu n\u00e3o poderia entrar na casa\u201d, comenta. O sargento pediu um len\u00e7ol dos vizinhos emprestado, molhou-o e entrou. N\u00e3o encontrou o menino. \u201cDe repente um colega avisou que o menino tinha conseguido se salvar. J\u00e1 quase com o cobertor pegando fogo s\u00f3 fiz pular a janela\u201d, relata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s 14h30, a atendente na central de opera\u00e7\u00f5es volta a acionar a equipe do sargento para resgatar um bicho-pregui\u00e7a num quintal no bairro S\u00e3o Francisco. Este tipo de chamada \u00e9 comum neste per\u00edodo das queimadas. Com a mata incendiada, os animais fogem para a Zona Urbana. Alguns s\u00e3o atropelados em estradas e ruas dentro da cidade. Cobras, tamandu\u00e1s e bicho-pregui\u00e7a s\u00e3o as principais v\u00edtimas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegar ao quintal leva menos de 15 minutos. Para entrar na casa, por\u00e9m, s\u00e3o necess\u00e1rios mais cinco minutos de espera, porque a dona do im\u00f3vel est\u00e1 prendendo seus quatro cachorros. O bicho-pregui\u00e7a n\u00e3o \u00e9 encontrado. Com a miss\u00e3o frustrada, \u00e9 hora de regressar \u00e0 base. O ve\u00edculo nem bem estaciona e o r\u00e1dio chama. \u00c9 a mesma ocorr\u00eancia no Ramal do Mutum. A pessoa diz que o fogo continua l\u00e1 e avan\u00e7ando. Agora sargento Severo fala diretamente com a fonte para saber a localiza\u00e7\u00e3o precisa, e a equipe volta ao trabalho. Ao chegar ao local indicado, a equipe constata que n\u00e3o h\u00e1 mais fogo, apenas troncos de \u00e1rvores queimados que ainda expelem fuma\u00e7a. \u00c9 uma t\u00edpica queimada da regi\u00e3o. Foi derrubada uma \u00e1rea de mata \u2013 a chamada broca \u2013 e depois ateado o fogo. \u00c9 a \u201climpeza\u201d. Ali j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 muito o que fazer. Mais uma viagem perdida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na volta para a base, a equipe ouve o chamado de um grande inc\u00eandio em outra regi\u00e3o de Rio Branco, mas \u00e9 \u00e1rea de outro batalh\u00e3o. Uma t\u00edmida chuva cai em alguns pontos da cidade. A calma naquele primeiro dia do m\u00eas poderia ser sinal de tr\u00e9gua ap\u00f3s um agosto incendi\u00e1rio. Mas o sargento Severo sabe que, antes de voltar a socorrer os desabrigados pelas chuvas a partir de outubro, precisa vencer o fogo de setembro.<\/p>\n<pre>Fonte: Piau\u00ed<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre o combate \u00e0s queimadas e o resgate frustrado de um bicho-pregui\u00e7a, a rotina de trabalho de um bombeiro na Amaz\u00f4nia em 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