{"id":33842,"date":"2022-02-13T17:25:00","date_gmt":"2022-02-13T20:25:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogopara.com.br\/?p=33842"},"modified":"2022-02-13T10:28:41","modified_gmt":"2022-02-13T13:28:41","slug":"como-os-artistas-da-semana-de-22-foram-de-demolidores-a-cancelados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/2022\/02\/13\/como-os-artistas-da-semana-de-22-foram-de-demolidores-a-cancelados","title":{"rendered":"Como os artistas da Semana de 22 foram de demolidores a cancelados"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O modernismo celebrado e propagado pela\u00a0<strong>Semana de Arte Moderna de 1922<\/strong>\u00a0tinha uma forte caracter\u00edstica iconoclasta. Os artistas e intelectuais futuristas (s\u00f3 posteriormente eles seriam rotulados de modernistas) queriam se livrar do \u201cpassadismo\u201d. E dentro nessa defini\u00e7\u00e3o imprecisa e el\u00e1stica cabiam muitos alvos: parnasianismo, academicismo, simbolismo e praticamente quaisquer outros \u201cismos\u201d vindos do passado. Em busca da renova\u00e7\u00e3o nas artes, os modernistas torciam o nariz para o perfeccionismo anat\u00f4mico das est\u00e1tuas cl\u00e1ssicas gregas, mas louvavam as linhas \u201cduras\u201d e geom\u00e9tricas das obras de Victor Brecheret. Eles se enfastiavam com a simetria e organiza\u00e7\u00e3o dos quadros renascentistas, mas batiam palmas para liberdade de escalas e propor\u00e7\u00f5es do cubismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um exerc\u00edcio fascinante imaginar como essa iconoclastia se apresentaria nos dias de hoje, 100 anos ap\u00f3s a Semana de 22 \u2013 efem\u00e9ride que se comemorar\u00e1 nesta sexta-feira, 11 de fevereiro. Mais que isso, \u00e9 inevit\u00e1vel constatar: nem mesmo aqueles vanguardistas empenhados em demolir as conven\u00e7\u00f5es escapam da f\u00faria da cultura do cancelamento \u2013 a tem\u00edvel forma contempor\u00e2nea de a\u00e7\u00e3o iconocl\u00e1stica que viceja nas redes sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma hist\u00f3ria protagonizada por um dos l\u00edderes da Semana de 22, o escritor M\u00e1rio de Andrade, ilustra bem essa ironia hist\u00f3rica. Em 1920, Andrade estava ansioso para chegar em casa, no Largo do Paissandu, no centro de S\u00e3o Paulo, e mostrar para sua fam\u00edlia uma imagem de Cristo que ele havia adquirido. Andando a p\u00e9 para economizar com bonde e valendo-se de empr\u00e9stimos, ele comprara uma c\u00f3pia em bronze da obra\u00a0<em>Cabe\u00e7a de Cristo<\/em>, do ent\u00e3o jovem escultor Victor Brecheret. \u201cSensualissimamente feliz\u201d, ele desembrulhou o pacote na sala, na frente de seus pais e de uma tia mais velha, a matriarca da fam\u00edlia. A imagem da face de Jesus em formato piramidal, com tra\u00e7os fortes, angulosos e de l\u00e1bios volumosos causou espanto aos cat\u00f3licos Andrade. Seus pais e sua tia, devotos fervorosos, ficaram particularmente escandalizados com as trancinhas no cabelo de Cristo, classificando a imagem como \u201cmedonha\u201d e \u201cher\u00e9tica\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andrade ficou muito aborrecido e posteriormente, numa carta, contou o que se passou naquela noite: \u201cFiquei alucinado, palavra de honra. Minha vontade era bater. Jantei por dentro, num estado inimagin\u00e1vel de estra\u00e7alho. Depois subi para o meu quarto, era noitinha, na inten\u00e7\u00e3o de me arranjar, sair, espairecer um bocado, botar uma bomba no centro do mundo. Me lembro que cheguei \u00e0 sacada, olhando sem ver o meu largo. Ru\u00eddos, luzes, falas abertas subindo dos choferes de aluguel. Eu estava aparentemente calmo, como que indestinado. N\u00e3o sei o que me deu. Fui at\u00e9 a escrivaninha, abri um caderno, escrevi o t\u00edtulo em que jamais pensara, Pauliceia Desvairada.\u201d Pouco mais de uma semana depois, estava praticamente pronto seu primeiro livro de poesias modernistas, sem m\u00e9tricas fixas, sem rimas e com seus 22 poemas tratando de temas exclusivamente urbanos. O livro seria publicado em 1922, alguns meses depois da Semana de Arte Moderna, que, entre outras obras, exibiu esculturas do Brecheret no sagu\u00e3o do Teatro Municipal de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Curioso notar o percurso hist\u00f3rico de in\u00fameras obras modernistas nesses 100 anos que se passaram desde a Semana de 22. Elas foram incompreendidas e criticadas no lan\u00e7amento. Mais tarde, assimiladas, aplaudidas e comercializadas por valores expressivos. Agora, finalmente, caem na vala comum das produ\u00e7\u00f5es culturais canceladas. Como M\u00e1rio de Andrade e seus colegas reagiriam \u00e0s cr\u00edticas ao\u00a0<em>Monumento \u00e0s Bandeiras<\/em>, de Brecheret, por ele retratar homens brancos subjugando escravos negros? O que diriam sobre o cancelamento do quadro\u00a0<em>A Negra<\/em>, de Tarsila do Amaral?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem o pr\u00f3prio Andrade, estrela maior da constela\u00e7\u00e3o modernista, est\u00e1 a salvo. Sua obra-prima\u00a0<em>Macuna\u00edma<\/em>\u00a0\u00e9 acusada de fazer \u201capropria\u00e7\u00e3o cultural\u201d e deturpar lendas e saberes dos povos nativos. O escritor e m\u00fasico ind\u00edgena Cristino Wapichana escreveu recentemente na revista\u00a0<em>Quatro Cinco Um<\/em>: \u201cA forma como [M\u00e1rio de Andrade] descreveu Macuna\u00edma refor\u00e7ou o sentimento anti ind\u00edgena dos brasileiros, que ainda persiste 93 anos depois da publica\u00e7\u00e3o do c\u00e9lebre livro. A mistura dos diversos personagens ind\u00edgenas, como muiraquit\u00e3, ceuci e Tainak\u00e3, fortalece a ignor\u00e2ncia e a falta de humanidade dos n\u00e3o ind\u00edgenas.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 algo de moderno ou modernista no atual cancelamento? Para os especialistas, esse movimento tem aspectos positivos, mas traz tamb\u00e9m riscos. De um lado h\u00e1 a necessidade de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e de constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais igualit\u00e1ria. Do outro, h\u00e1 os perigos do apagamento da hist\u00f3ria e do revisionismo. \u201cN\u00e3o adianta derrubar, apagar a mem\u00f3ria nacional. Somos o resultado da somat\u00f3ria de coisas boas e negativas. O Monumento \u00e0s Bandeiras\u00a0 \u00e9 um dos \u00fanicos grandes monumentos do pa\u00eds. Vale a pena destru\u00ed-lo para sempre ou encar\u00e1-lo e estud\u00e1-lo de forma cr\u00edtica?\u201d, questiona a historiadora, curadora e cr\u00edtica de arte Aracy Amaral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c9 justo que grupos reivindiquem atualiza\u00e7\u00f5es na hist\u00f3ria e novas interpreta\u00e7\u00f5es. Grupos identit\u00e1rios n\u00e3o pertencem a uma classe, a um pa\u00eds, mas a uma linhagem cultural. Faz sentido, mas a express\u00e3o p\u00fablica disso \u00e9 problem\u00e1tica, pois n\u00e3o h\u00e1 superioridade moral. Esse debate \u00e9 leg\u00edtimo e necess\u00e1rio, mas n\u00e3o tem cabimento apagar. Se for assim, a gente apaga tudo, toda a heran\u00e7a colonial brasileira. N\u00e3o quero relativizar nem diminuir a dor dos que foram oprimidos, mulheres, LGBTQIA+, ind\u00edgenas, negros. Na minha rep\u00fablica ideal, o espa\u00e7o p\u00fablico e a hist\u00f3ria t\u00eam de ser debatidos, n\u00e3o cancelados\u201d, avalia Lu\u00eds Augusto Fischer, ensa\u00edsta e professor de literatura brasileira da UFRGS.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo passa \u2013 e a iconoclastia assume novas e inesperadas formas. Diante disso, a pergunta que n\u00e3o quer calar: se a Semana de 22 ocorresse agora, os jovens equivalentes de M\u00e1rio de Andrade e dos demais modernistas estariam do lado dos canceladores ou cancelados? Resumindo as diferentes percep\u00e7\u00f5es dos especialistas ouvidos por VEJA, conclui-se que a contesta\u00e7\u00e3o do passado \u00e9 uma atitude bem modernista, mas o aniquilamento, n\u00e3o. Salvo por cr\u00edticas feitas em manifestos e ensaios, os modernistas jamais chegaram a destruir obras consideradas passadistas. \u201cUma coisa \u00e9 o embate te\u00f3rico e est\u00e9tico e outra, bem diferente, \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o f\u00edsica\u201d, explica Regina Teixeira, historiadora da arte e curadora. \u201c\u00c9 sempre importante rever e discutir, mas nunca \u00e9 bom apagar o passado. Proponho aos artistas e questionadores fazerem uma obra anti-Borba Gato. Apagar a hist\u00f3ria \u00e9 prejudicial para todos, at\u00e9 para quem critica as est\u00e1tuas\u201d, diz, referindo-se \u00e0 est\u00e1tua do bandeirante incendiada em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De Tarsila a M\u00e1rio de Andrade, os mesmos modernistas que atacavam com f\u00faria o passado agora s\u00e3o alvos da iconoclastia das redes 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