{"id":33913,"date":"2022-02-15T11:50:00","date_gmt":"2022-02-15T14:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogopara.com.br\/?p=33913"},"modified":"2022-02-15T09:08:29","modified_gmt":"2022-02-15T12:08:29","slug":"minas-e-a-vanguarda-modernista-da-decada-de-20","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/2022\/02\/15\/minas-e-a-vanguarda-modernista-da-decada-de-20","title":{"rendered":"Minas e a vanguarda modernista da d\u00e9cada de 20"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO movimento modernista ensinou a rir, antecipou a agita\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria brasileira e preparou o ambiente para a indaga\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica, a pesquisa de laborat\u00f3rio, o romance inspirado nos problemas da terra e do homem, o aproveitamento do material folcl\u00f3rico na m\u00fasica e nas artes pl\u00e1sticas. Fez tudo isso, e outras coisas. Divertiu, irritou, destruiu e construiu. E ainda perturba a ins\u00f4nia de alguns pobres diabos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um balan\u00e7o que oportunamente merece ser recuperado no ano do centen\u00e1rio da Semana de Arte Moderna. Foi assim que Carlos Drummond de Andrade reagiu quando questionado se, apenas duas d\u00e9cadas depois daquele ruidoso evento, considerado o ato inaugural do modernismo no pa\u00eds, o movimento \u2013 que buscava romper com o tradicionalismo art\u00edstico, ainda muito ligado a escolas europeias, e constituir uma arte de aut\u00eantica brasilidade em forma e conte\u00fado, isto \u00e9, falando de quest\u00f5es nacionais a partir de uma linguagem genuinamente brasileira \u2013 j\u00e1 estaria morto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PUBLICIDADE<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, mais do que apaixonada, a resposta do poeta parece apropriada. Afinal, a aten\u00e7\u00e3o dada aos cem anos da Semana de 22 \u00e9 digna de um grande acontecimento hist\u00f3rico, t\u00e3o marcante e determinante quanto at\u00edpico. Ali\u00e1s, at\u00edpico at\u00e9 no tempo de dura\u00e7\u00e3o: realizado no Theatro Municipal de S\u00e3o Paulo, que reuniu nomes que se tornaram \u00edcones da literatura e artes nacionais, como M\u00e1rio de Andrade, Menotti del Picchia, Oswald de Andrade, Anita Malfatti e Heitor Villa-Lobos, o evento se estendeu entre 13 e 17 de fevereiro, e, portanto, durou menos de sete dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O evento e o movimento que se consolidou a partir dele seguem em disputa. H\u00e1 quem considere que o modernismo, por ter sido rapidamente assimilado, tenha deixado de representar uma vanguarda e apenas tido resson\u00e2ncias espor\u00e1dicas entre as d\u00e9cadas de 50 e 80, como avalia o escritor Luiz Ruffato. Ou quem acredite que o legado deixado por esses autores, acima de tudo nos anos 20, \u00e9 t\u00e3o forte que seria dispens\u00e1vel pensar em reverbera\u00e7\u00f5es modernistas na contemporaneidade, como sustenta o soci\u00f3logo Sergio Miceli. E, para outros, a encurtada Semana de 22 foi a pedra angular de um movimento que, ironicamente, um s\u00e9culo depois, segue em aberto. \u00c9 o que defende Ivan Marques, professor de literatura brasileira da Universidade de S\u00e3o Paulo, autor de livros sobre o movimento modernista, entre os quais \u201cCenas de um Modernismo de Prov\u00edncia\u201d, que esmi\u00fa\u00e7a as caracter\u00edsticas do movimento em Minas, analisando obras dos mineiros Drummond, Jo\u00e3o Alphonsus, Cyro dos Anjos e Em\u00edlio Moura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele lembra que, assim como o evento agora celebrado, a Semaninha de Arte Moderna de Belo Horizonte, realizada em 1944, tamb\u00e9m causou furor \u2013 tanto que obras em exposi\u00e7\u00e3o chegaram a ser vandalizadas. Para o pesquisador, essa percep\u00e7\u00e3o escandalizada de ambos acontecimentos \u00e9 entendida como natural, uma vez que ainda h\u00e1 grande incompreens\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica produzida por essa vanguarda cultural. \u201cE isso me faz pensar que este \u00e9 um processo mais longo, que, embora seja o marco simb\u00f3lico, n\u00e3o nasce em 1922 e, apesar de o movimento ser rapidamente assimilado, ele tampouco se esgota naquela mesma d\u00e9cada\u201d, avalia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO modernismo continua apontando aqui e ali, em acontecimentos e correntes de maior e menor repercuss\u00e3o\u201d, diz Marques, citando reverbera\u00e7\u00f5es dessa matriz de pensamento em diversas searas art\u00edsticas, como no regionalismo, na segunda metade de 1940, no concretismo, na d\u00e9cada de 50, na poesia marginal da Gera\u00e7\u00e3o Mime\u00f3grafo dos anos 70, no Tropicalismo e no Cinema Novo, fundamentalmente ap\u00f3s de 1968.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPosteriormente, o legado modernista deixa de ser uma inspira\u00e7\u00e3o t\u00e3o presente e h\u00e1 um progressivo esvaziamento potencializado pelo momento em que vivemos, que \u00e9 mais globalizado\u201d, sugere. \u201cNo entanto, diante de um contexto de grande retrocesso e potencializado pela celebra\u00e7\u00e3o do centen\u00e1rio da Semana de 22, minha hip\u00f3tese \u00e9 que as discuss\u00f5es propostas pelo movimento \u2013 isto \u00e9, pensar o pa\u00eds sem tanta concess\u00e3o, identificando problemas e pensando no que queremos construir \u2013 se tornem mais urgentes. Por isso, avalio que este \u00e9 um processo em aberto\u201d, justifica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre o moderno e o provinciano<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Minas Gerais, particularmente, antes de 1922, Drummond \u2013 antenado \u00e0s novidades que vinham sobretudo do Rio de Janeiro, mas tamb\u00e9m de S\u00e3o Paulo \u2013 j\u00e1 citava em cr\u00f4nicas publicadas em jornais belo-horizontinos autores ligados \u00e0 vanguarda modernista. Al\u00e9m disso, naquelas publica\u00e7\u00f5es, ele fazia experimenta\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, flertando com ideias que mais tarde seriam organizadas pelo movimento. \u00c9 poss\u00edvel, portanto, identificar, mesmo antes da realiza\u00e7\u00e3o da Semana de Arte Moderna, tra\u00e7os de um modernismo \u00e0 mineira, que, \u201cdiscreto, (que) fez-se em surdina\u201d, como j\u00e1 descreveu Cyro dos Anjos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ademais, para al\u00e9m de um flerte distante, dois artistas de Minas participaram efetivamente do evento cujo centen\u00e1rio celebramos hoje e que \u00e9 considerado seminal para o modernismo no Brasil. Acontecimento que ainda \u00e9 percebido com fei\u00e7\u00f5es quase absolutamente paulistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 cem anos, estavam presentes no Theatro Municipal de S\u00e3o Paulo o poeta Agenor Barbosa, nascido em Montes Claros, no Norte do Estado, e a pintora belo-horizontina Zina Aita, de fam\u00edlia italiana. O escritor, ali\u00e1s, foi um dos poucos a serem aplaudidos pelo p\u00fablico na ocasi\u00e3o, conforme relatam a professora e escritora Ivana Ferrante Rebello e o arque\u00f3logo e historiador Fabiano Lopes de Paula no livro \u201cUma Tristeza Mineira numa Capa de Garoa \u2013 Agenor Barbosa: Um Poeta Mineiro na Semana de Arte Moderna\u201d, lan\u00e7ado em 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As revistas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de presentes e interessados, s\u00f3 em 1924 os modernistas mineiros passaram a ser reconhecidos como interlocutores e passaram a participar mais ativamente das discuss\u00f5es daquela vanguarda cultural. \u201cFoi a partir da aproxima\u00e7\u00e3o do grupo de Minas com o grupo de S\u00e3o Paulo, por ocasi\u00e3o da famosa \u2018caravana paulista\u2019 que passou pelo Estado\u201d, comenta Marques, fazendo men\u00e7\u00e3o a viagem que reuniu M\u00e1rio de Andrade, Oswald de Andrade e o filho dele, Non\u00ea, Tarsila do Amaral, o jornalista Ren\u00e9 Thiolier e Ol\u00edvia Guedes Penteado, uma das grandes incentivadoras do modernismo no pa\u00eds, al\u00e9m do advogado Godofredo Telles e do poeta franco-su\u00ed\u00e7o Blase Cendrars.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabendo da passagem deles por Minas, Drummond busca se aproximar do grupo, iniciando a promissora amizade liter\u00e1ria com M\u00e1rio de Andrade, documentada em cartas. Ent\u00e3o, j\u00e1 enfronhado no movimento, o itabirano re\u00fane-se com Pedro Nava, Em\u00edlio Moura e Cyro dos Anjos para lan\u00e7ar, em 1925, \u201cA Revista\u201d. \u201cEsta \u00e9 uma publica\u00e7\u00e3o que est\u00e1 alinhada aos ideais vanguardistas de ent\u00e3o, mas, do ponto de vista gr\u00e1fico, n\u00e3o traz novidades e, em termos de conte\u00fado liter\u00e1rio, podemos encontrar tanto textos que rompem com a tradi\u00e7\u00e3o quanto textos conservadores, que convivem ali pacificamente\u201d, analisa o escritor Luiz Ruffato, que possui pesquisa sobre o despertar do modernismo mineiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele lembra que, a partir de 1922, \u00e9 poss\u00edvel perceber uma replica\u00e7\u00e3o de grupos modernistas no Brasil inteiro. \u201cEm Minas, temos uma caracter\u00edstica curiosa e \u00fanica: o movimento floresceu n\u00e3o s\u00f3 na capital. Em Cataguases (na regi\u00e3o Zona da Mata), \u00e9 lan\u00e7ada, em 1927, a \u2018Revista Verde\u2019 (dirigida por Henrique de Resende e tendo como redatores Ant\u00f4nio Martins Mendes e Ros\u00e1rio Fusco) que, diferentemente da publica\u00e7\u00e3o belo-horizontina, est\u00e1 vinculada a uma ala mais radical e, portanto, apesar de n\u00e3o haver um alinhamento t\u00e1cito, se aproxima mais do vanguardismo proposto ent\u00e3o por M\u00e1rio de Andrade e Oswald de Andrade\u201d, pontua ele que, incomodado com o fato de muitos ainda insistirem que a ader\u00eancia do modernismo em uma cidade do interior de Minas seria um fen\u00f4meno inexplic\u00e1vel, lan\u00e7ou recentemente o livro \u201cA Revista Verde, de Cataguases: Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 Hist\u00f3ria do Modernismo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTodo fen\u00f4meno sociol\u00f3gico \u00e9 absolutamente explic\u00e1vel, e esse n\u00e3o seria diferente. O que muita gente ignora \u00e9 que, nos anos 20, BH era uma cidade muito jovem, com apenas algumas dezenas de milhares de habitantes. A diferen\u00e7a populacional entre os dois munic\u00edpios n\u00e3o era exorbitante, e, portanto, n\u00e3o faz sentido pensar que Cataguases fosse uma cidadezinha interiorana, menos ainda dizer que era rural. Pelo contr\u00e1rio, estamos falando de uma cidade que se industrializava em um pa\u00eds rural. E isso muda completamente o panorama\u201d, pondera, lembrando que, n\u00e3o por acaso, o cinema brasileiro surge naquele lugar sob as lentes de Humberto Mauro.<\/p>\n<p>Fonte: O Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO movimento modernista ensinou a rir, antecipou a agita\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria brasileira e preparou o ambiente para a indaga\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica, a pesquisa de laborat\u00f3rio, o romance inspirado nos problemas da terra e do homem, o aproveitamento do material folcl\u00f3rico na m\u00fasica e nas artes pl\u00e1sticas. Fez tudo isso, e outras coisas. Divertiu, irritou, destruiu e construiu. 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