{"id":36096,"date":"2022-04-19T13:10:00","date_gmt":"2022-04-19T16:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogopara.com.br\/?p=36096"},"modified":"2022-04-19T13:10:56","modified_gmt":"2022-04-19T16:10:56","slug":"margareth-menezes-cantora-diz-que-racismo-impediu-projecao-como-a-de-daniela-mercury","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/2022\/04\/19\/margareth-menezes-cantora-diz-que-racismo-impediu-projecao-como-a-de-daniela-mercury","title":{"rendered":"Margareth Menezes: cantora diz que racismo impediu proje\u00e7\u00e3o como a de Daniela Mercury"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/cultura\/gravacao-do-por-acaso-tem-ivete-sangalo-inimiga-do-fim-reverencia-ao-canto-de-margareth-menezes-com-farao-veja-fotos-25457708\">Margareth Menezes<\/a>\u00a0est\u00e1 encostada num m\u00f3vel da sala do apartamento de\u00a0<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/cultura\/gilberto-gil-sobre-pos-pandemia-se-vamos-recomecar-deixaremos-para-tras-muito-do-que-temos-sido-ate-aqui-24398742\">Gilberto Gil<\/a>, em Salvador, enquanto Daniela Mercury concentra as aten\u00e7\u00f5es soltando a voz ao redor de uma mesa. Maga, como \u00e9 carinhosamente apelidada pelos f\u00e3s, s\u00f3 se aproxima quando algu\u00e9m puxa uma cadeira para que se junte ao coro de &#8220;Pai e m\u00e3e&#8221;, can\u00e7\u00e3o de Gil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cena aconteceu no in\u00edcio do m\u00eas em um sarau informal e diz muito sobre a personalidade da cantora baiana de 59 anos, famosa por hits como &#8220;Fara\u00f3&#8221; e &#8220;Elegib\u00f4&#8221; e de import\u00e2ncia seminal para o Ax\u00e9 Music. Por tr\u00e1s da artista, de for\u00e7a imensa no palco, est\u00e1 a discri\u00e7\u00e3o em pessoa. Algu\u00e9m que &#8220;chega devagar&#8221; e nunca foi &#8220;de se jogar&#8221;. Tudo muda, no entanto, quando ela sobe na ribalta e solta a vigorosa voz grave.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniela Mercury:<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/cultura\/daniela-mercury-brasil-nunca-precisou-tanto-de-axe-24170449\">&#8216;O Brasil nunca precisou tanto de ax\u00e9&#8217;<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o que far\u00e1 no pr\u00f3ximo dia 21, data em que o Baile da Maga chega a Salvador natal de Margareth (mais precisamente no Sollar Ba\u00eda, no Museu de Arte Moderna) pela primeira vez. A apresenta\u00e7\u00e3o, que celebra a energia do carnaval e conta com sucessos como &#8220;Dandalunda&#8221;, marca seu retorno oficial ao palco p\u00f3s-pandemia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 \u00c9 um show dan\u00e7ante para matar a saudade, agora que d\u00e1 para abra\u00e7ar. Vamos reanimar a nossa energia, porque temos que ser feliz em algum momento, n\u00e9? \u2014 diz a criadora do estilo musical afropop brasileiro, que mistura elementos africanos, brasileiros e pop.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A apresenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 parte das comemora\u00e7\u00f5es pelos 35 anos de carreira da artista que, em fevereiro, lan\u00e7ou &#8220;Terra Afef\u00e9&#8221; em parceria com Carlinhos Brown. A can\u00e7\u00e3o estar\u00e1 em seu novo disco, previsto para o segundo semestre. Produzido em parceria com Russo Passapusso, o \u00e1lbum ter\u00e1 nove composi\u00e7\u00f5es. M\u00fasicas pr\u00f3prias, de novos artistas e de nomes importantes para a carreira de Margareth.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Turn\u00ea, biografia escrita por Djamila Ribeiro e um document\u00e1rio dirigido por Joelma Oliveira Gonzaga tamb\u00e9m est\u00e3o em andamento. O filme abordar\u00e1 a trajet\u00f3ria de Margareth que, no ano passado foi reconhecida como uma das 100 personalidades negras mais influentes do mundo pela Mipad 100 (institui\u00e7\u00e3o chancelada pela ONU) e indicada pela quarta vez ao Grammy.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2021, a artista tamb\u00e9m foi nomeada embaixadora da cultura popular do Brasil pela Unesco, eleita uma das cinco mulheres inspiradoras no Latin America Lifetime Award e protagonista do seriado &#8220;Casa da v\u00f3&#8221;. O programa, da plataforma Wolo TV, a primeira no pa\u00eds com conte\u00fado focado na popula\u00e7\u00e3o negra, est\u00e1 sendo exibido em Portugal e em pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa da \u00c1frica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Margareth, que ainda se dedica ao projeto social F\u00e1brica Cultural na Pen\u00ednsula de Itapagipe, complexo de favelas onde nasceu, afirma que a culpa de n\u00e3o ter tido a proje\u00e7\u00e3o de Daniela e Ivete \u00e9 do racismo estrutural e lembra a dor de um aborto espont\u00e2neo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A celebra\u00e7\u00e3o pelos seus 35 anos de carreira come\u00e7ou com o lan\u00e7amento de &#8220;Terra Afef\u00e9&#8221;. A can\u00e7\u00e3o fala sobre a revolu\u00e7\u00e3o que a mulher faz a partir do momento que come\u00e7a a se movimentar e a perceber o seu poder. Quando voc\u00ea tomou consci\u00eancia do seu?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minha vida foi luta o tempo todo. Em algum momento, vi que tinha que criar a minha identidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica. &#8220;Maga \u00e9 o que?&#8221; Afropop brasileiro! Comecei a defender essa identidade musical, porque o ax\u00e9 music foi um r\u00f3tulo de generaliza\u00e7\u00e3o. Vi que a m\u00fasica que eu fazia tinha todo o meu legado. Sempre gostei de percuss\u00e3o, do meu hist\u00f3rico ancestral, mas tamb\u00e9m da coisa urbana. Havia toda uma urbanidade que me influenciava: Tropic\u00e1lia, Belchior, Fagner, Jo\u00e3o Gilberto, Dorival Caymmi, Rita Lee, Elis Regina, Ney Matogrosso&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Me via nisso tudo, mas com o tambor sempre tocando no meu cora\u00e7\u00e3o. \u00c9 a base do meu talento, do meu legado, das coisas que tenho dentro de mim. A\u00ed vem o afropop brasileiro, o estilo, Gil, Caetano, Ijex\u00e1, os blocos afro. Abri meu cora\u00e7\u00e3o para receber tudo isso. Est\u00e1 dentro do ax\u00e9 music, mas tamb\u00e9m \u00e9 uma conex\u00e3o com o mundo, com esse caldeir\u00e3o que significa worl music.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afef\u00e9 \u00e9 o vento forte que acompanha as apari\u00e7\u00f5es de Ians\u00e3 na mitologia afro-brasileira. Isso \u00e9 muito forte por tudo que significa, a for\u00e7a feminina, o vento que movimenta a atmosfera, o mar, leva coisa ruins, traz coisas novas, as voltas que o mundo d\u00e1 ao redor do planeta. &#8220;Terra Afef\u00e9&#8221; \u00e9 a energia que concentra tudo isso, a renova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Estrela do mar&#8221;, para lan\u00e7ar seus discos. Ao se ver sem patroc\u00ednio para fazer live no carnaval da pandemia, p\u00f4s a boca no trombone nas redes sociais e, rapidinho, foi convidada para um projeto. Margareth n\u00e3o \u00e9 de se conformar com o \u201cn\u00e3o\u201d? Usa obst\u00e1culos que poderiam desmotivar para se reinventar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acredito que exista sa\u00edda enquanto estivermos vivos, que a gente tem que procurar porque tem o &#8220;sim&#8221; em algum lugar. Pode ficar puto, xingar, se sentir deixado de lado, ir l\u00e1 no fundo do po\u00e7o, mas tem que voltar, a gente n\u00e3o pode aceitar o n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de voc\u00ea ter vindo antes e de ser seminal para a m\u00fasica baiana, Daniela Mercury e Ivete Sangalo tiveram mais proje\u00e7\u00e3o. Por que?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o hist\u00f3rias de patamares diferentes e existem a\u00ed v\u00e1rias coisas dentro do mesmo pacote. Tem a quest\u00e3o racial, o racismo estrutural da nossa sociedade. A isso, soma-se a est\u00e9tica, o padr\u00e3o da televis\u00e3o. N\u00f3s, mulheres artistas negras, n\u00e3o t\u00ednhamos as mesmas oportunidades, aberturas, convites.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro diferencial \u00e9 que Daniela e Ivete, mulheres fant\u00e1sticas e grandes talentos com contribui\u00e7\u00f5es enormes na cultura, tiveram a oportunidade de participar de blocos com estrutura, j\u00e1 com a log\u00edstica arrumada, patrocinadores. N\u00e3o tinham as mesmas preocupa\u00e7\u00f5es que eu, que venho da m\u00fasica e de trio independente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, tive a sagacidade de conseguir o meu espa\u00e7o dentro disso tudo. Fui uma artista inquieta, sempre gostei de fazer coisas diferentes e sobrevivi a uma situa\u00e7\u00e3o brutal, fiquei oito anos sem gravadora (depois do disco &#8220;Luz dourada&#8221;, de 1993, e at\u00e9 o &#8220;Maga &#8211; Afropop brasileiro&#8221;, de 2001, lan\u00e7ado em parceria com a Universal). Mesmo assim, fiz uma carreira de destaque aqui e fora do Brasil. Continuei os projetos e pude atravessar o deserto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas consigo entender cada coisa em seu lugar sem ferir a minha rela\u00e7\u00e3o com elas, por quem tenho muito respeito. Daniela, inclusive, vai fazer participa\u00e7\u00e3o no meu show e sempre me convida tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode contar algo que estar\u00e1 na sua biografia? Vai falar sobre a rela\u00e7\u00e3o com seus pais?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou feliz de poder realizar isso. Com o tempo, a gente vai percebendo a import\u00e2ncia de contarmos nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Por mais que as narrativas alheias sejam bacanas, sempre vai faltar o sentimento de quem viveu. Tenho momentos bons e ruins na carreira, um sentimento diante das coisas que vivi, e quero deixar isso registrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vou falar da ideia dos Blocos dos Mascarados, do movimento afropop brasileiro&#8230; Foram ideias criadas n\u00e3o para proveito pr\u00f3prio, mas para resgatar o l\u00fadico, a alegria, criar espa\u00e7os de diversidade e fortalecer alguns apelos em rela\u00e7\u00e3o ao espa\u00e7o dentro do carnaval.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E tamb\u00e9m para aproveitar esse espa\u00e7o para mostrar a minha pesquisa musical.Vou falar dos meus pais, pessoas de origem humilde. Ele, que era motorista, aprendeu a ler e a dirigir sozinho. Ela era, cozinheira, costureira&#8230; Os dois eram muito simples, mas com uma vis\u00e3o de vida que favoreceu muito a gente. Viemos de fam\u00edlia pobre, mas n\u00e3o chegamos a passar necessidade como a maioria das pessoas negras e pobres. Tive uma rela\u00e7\u00e3o dura com meu pai. Ele era radical em tudo. Depois, a gente p\u00f4de se resgatar um pouco e pude viver coisas melhores com ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato de voc\u00ea ser artista o incomodava?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nunca foi muito bem aceito por ele. Meu pai providenciou o estudo para a gente. Era escola p\u00fablica, mas ele n\u00e3o deixava faltar livros, fazia um esfor\u00e7o muito grande. Para a cabe\u00e7a dele, me ver num grupo de teatro&#8230; E sempre fui muito livre na maneira de me relacionar, na minha sexualidade, n\u00e3o presto satisfa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a isso, nunca prestei. E meu pai era muito agressivo nessas quest\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas \u00e9 importante esse lugar de entender qual era a condi\u00e7\u00e3o dos nossos pais, ao que tiveram acesso. Essa reflex\u00e3o chegou para mim a tempo e foi importante para olhar para frente, mais para o tempo que a gente tinha do que ficar sofrendo por coisas do passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesses conflitos de fam\u00edlia, algu\u00e9m tem que ceder. E se voc\u00ea muda a maneira de se comportar abre uma janela para recuperar o la\u00e7o que est\u00e1 se partindo. Podemos manifestar o desacordo fora da agressividade, o que n\u00e3o significa ter menos raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa reflex\u00e3o serve tamb\u00e9m para esses tempos de \u00f3dio generalizado entre as pessoas, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o que precisamos fazer hoje. N\u00f3s brasileiros, estamos passando por muitos conflitos, sem humanizar nada. As pessoas est\u00e3o se armando para matar quem? O outro que n\u00e3o concorda com ele? Por causa de que? Quem ser\u00e1 a v\u00edtima desse povo armado? Somos seres humanos, vivemos num pa\u00eds com diversidade de sentimentos e etnias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea completa 60 anos esse ano. Se sente com essa idade?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Menina, de jeito nenhum! Mas me importo \u00e9 com vitalidade. Nessa quest\u00e3o da idade, a minha gera\u00e7\u00e3o conseguiu fazer uma coisa interessante que \u00e9 dar mais longevidade, se manter ativo. Hoje, a gente sabe que o corpo humano aguenta muito mais se cuidar da sa\u00fade, tiver qualidade de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O neg\u00f3cio \u00e9 n\u00e3o comprar muito essa quest\u00e3o de &#8220;t\u00f4 ficando velha&#8221;. Porque, a\u00ed, come\u00e7a a envergar. Acho que isso vem de dentro. Me sinto bem, com sa\u00fade, ativa. Meus mestres est\u00e3o a\u00ed produzindo, Gil, Caetano, muita gente boa. Dona Elza (Soares) partiu, mas dois dias antes ainda estrava trabalhando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E essa sexualidade livre que voc\u00ea mencionou&#8230; Continua?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje sou mais de ir para o cinema, ver televis\u00e3o (risos). Sou uma pessoa sadia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sexualidade, estou de acordo com o andamento da minha carro\u00e7a (risos). Acho que quanto mais madura com a vida, a sexualidade vai tendo outro lugar. O valor das coisas, de ter algu\u00e9m ou n\u00e3o ter. Acho que passa muito por construir sua hist\u00f3ria nas rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sempre fui tranquila. A gente tem que ser feliz e n\u00e3o ficar carregando mala sem al\u00e7a, n\u00e9? Rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 momento de prazer e felicidade, tamb\u00e9m \u00e9 dialogar, refletir sobre a individualidades. \u00c0s vezes, a gente sofre com o que pessoa est\u00e1 fazendo, mas para que esquentar a cabe\u00e7a com isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea disse uma vez,\u00a0en passant, que engravidou e n\u00e3o pariu. O que aconteceu? Ficou tristeza em rela\u00e7\u00e3o a isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele momento, sim. N\u00e3o foi legal. Era uma gravidez tardia, estava entre 45 e 50 anos. Foi logo no comecinho. Aquilo me alimentava, eu queria. N\u00e3o \u00e9 que eu n\u00e3o quis mais, mas esse acontecimento foi dolorido, a gente ficou triste. N\u00e3o persegui mais esse sonho. Mas n\u00e3o tenho sofrimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele sarau na casa do Gil quando nos encontramos, pude observar o quanto voc\u00ea, fora do palco, \u00e9 discreta, econ\u00f4mica at\u00e9 nos movimentos. \u00c9 um pouco desconfiada tamb\u00e9m?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 s\u00f3 jeito de corpo. Sou assim mesmo. Quando vou para o palco ou come\u00e7o a ficar \u00e0 vontade, tenho outras express\u00f5es. Mas tenho um jeito de chegar nos lugares, para falar com as pessoas, chego devagar. Sou mais na minha. Sou uma pessoa t\u00edmida. \u00c9 da minha natureza, nunca fui de me jogar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Me contaram que est\u00e1 no meio de uma transi\u00e7\u00e3o de cabelo. Vem novidade por a\u00ed?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tirei as tran\u00e7as para pintar e hidratar o cabelo. Estou nesse estudo para ver o que vou fazer. Gosto de tran\u00e7a, mas seria bom uma novidade. Sou libriana (risos), \u00e9 fogo para decidir&#8230; Analiso de um jeito, de outro&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea est\u00e1 no elenco da s\u00e9rie Luiz Fernando Carvalho sobre a Independ\u00eancia do Brasil, que partir\u00e1 do ponto de vista dos exclu\u00eddos, como negros e mulheres. Qual \u00e9 a import\u00e2ncia de apresentar outras narrativas sobre essa hist\u00f3ria?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Precisamos fazer isso para que n\u00f3s, brasileiros, entendamos por que as coisas s\u00e3o desse jeito e como podemos mud\u00e1-las. Foi uma perversidade o que aconteceu com o povo negro no Brasil, a maneira como as pessoas foram tiradas da \u00c1frica e o tempo que durou. Pensa no desespero que foram dois anos de pandemia e imagina 300 e tantos anos submetendo vidas humanas \u00e0 escravid\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso suscitou muito desgaste, desequil\u00edbrio emocional. Quando a domina\u00e7\u00e3o se d\u00e1, \u00e9 imposta em cima de mecanismos de sofrimento, de desqualificar, de humilha\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea quebra o esp\u00edrito, a verve da pessoa. Isso foi imposto ao povo negro no Brasil. Quando se conhecesse mais sobre essa hist\u00f3ria, vem a gana de sair dessa situa\u00e7\u00e3o, principalmente, essa nova gera\u00e7\u00e3o com mais acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o. Come\u00e7am a resgatar as religi\u00f5es de matriz africana, a n\u00e3o aceitar certas coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso n\u00e3o \u00e9 um problema de branco e preto, mas do Estado que precisa fazer a repara\u00e7\u00e3o que n\u00e3o foi feita na Aboli\u00e7\u00e3o. N\u00e3o houve indeniza\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio, os donos de escravos \u00e9 que foram indenizados. As pessoas foram deixadas a esmo para morrer. Durante esse tempo de pen\u00faria, de falta de vis\u00e3o, como houve para outros imigrantes que vieram, h\u00e1 ainda uma d\u00edvida hist\u00f3ria a ser reparada. Por isso, a necessidade de cotas e pol\u00edticas p\u00fablicas justas para haver democracia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea cunhou a express\u00e3o &#8220;m\u00e1quina do privil\u00e9gio&#8221;, como define o favorecimento a artistas brancos. O que diria a quem afirma que isso \u00e9 &#8220;mimimi&#8221;?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pessoas dizem que reclamamos muito. Bicho, n\u00e3o \u00e9 reclamar, n\u00e3o \u00e9 criar pol\u00eamica, \u00e9 uma reflex\u00e3o sobre a hist\u00f3ria real de um pa\u00eds que a gente precisa pensar para que a coisa comece a ter outro rumo. \u00c9 f\u00e1cil para quem n\u00e3o sente na pele, a gente precisa falar que isso d\u00f3i. N\u00e3o sou uma pessoa que se coloca no lugar de v\u00edtima. Estou falando de uma estrutura que faz mal a um n\u00famero enorme de pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Precisamos construir uma outra forma de contemplar todos os brasileiros, ter representatividade do povo negro em todos os postos de poder, compartilhar das coisas boas \u00e9 um direito nosso que nascemos nesse solo e somos afrobrasileiros, nosso lugar precisa ser reconhecido. Nossos antepassados foram trazidos para c\u00e1 e o legado \u00e9 muito positivo para o Brasil. Porque \u00e9 bom na hora do samba, da comida e na hora de reconhecer direito n\u00e3o \u00e9 bom?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil a valoriza como merece?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil n\u00e3o valoriza o povo como merece. O cidad\u00e3o brasileiro precisa reconhecer o valor do pr\u00f3prio povo, da cultura, da arte, das potencialidades, da ci\u00eancia, das pesquisas do Brasil. N\u00e3o \u00e9 sobre mim, pois quando olho a minha hist\u00f3ria, vejo que \u00e9 o povo do Brasil que me sustenta. Estou viva at\u00e9 hoje porque tenho f\u00e3s aqui (Salvador), no Rio, em S\u00e3o Paulo. Viajo o Brasil fazendo shows. Estou falando de uma estrutura racista, mas n\u00e3o posso dizer que n\u00e3o tenho reconhecimento do povo brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acha que cantoras negras da cena atual, como Larissa Luz, Luedji Luna e X\u00eania Fran\u00e7a j\u00e1 vem com a resist\u00eancia no DNA? N\u00e3o que voc\u00ea n\u00e3o tivesse, mas talvez hoje haja uma consci\u00eancia mais generalizada sobre a import\u00e2ncia de se colocar&#8230; Ao mesmo tempo que voc\u00ea \u00e9 inspira\u00e7\u00e3o, aprende com elas tamb\u00e9m?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa galera vem com maiores oportunidades, conquistadas \u00e0 base de muita luta e hist\u00f3ria das artistas que vieram antes. Temos M\u00e1rcia Short, Sandra de S\u00e1 e todas as mulheres artistas negras constru\u00edram algum legado para essa gera\u00e7\u00e3o nova. N\u00e3o veio de bandeja. Hoje, elas t\u00eam acesso a outras ferramentas, como as redes sociais, que conseguem gerar uma comunica\u00e7\u00e3o direta com o p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vemos influencers que t\u00eam linguagens certas, maneira de ganhar mais seguidores. N\u00f3s artistas temos a nossa arte, as pessoas que nos seguem est\u00e3o ali em fun\u00e7\u00e3o do que a gente construiu. E tem Ludmilla, Iza, artistas com muitos seguidores, e acho que tem que ser assim mesmo para chegar aos lugares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E com certeza, a partir do momento em que se tem mais acesso e se conhece a hist\u00f3ria do nosso povo, o\u00a0approach\u00a0\u00e9 muito mais firme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea disse outro dia, na grava\u00e7\u00e3o do programa &#8220;Por acaso&#8221;, que quando as pesquisas dos blocos afro desaguaram em m\u00fasicas sobre hist\u00f3rias positivas do povo negro e outros povos foi uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o&#8230; Pode falar um pouquinho sobre isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi uma luz. E ela veio de todas as a\u00e7\u00f5es que nos trouxeram refer\u00eancias positivas ao longo desse tempo todo de luta. Os terreiros de candombl\u00e9, as m\u00e3es de santo, os blocos afro s\u00e3o guardadores da mem\u00f3ria do povo, assim como as escolas de samba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir da\u00ed \u00e9 que se constr\u00f3i mem\u00f3ria e refer\u00eancias para reagir, para se ter autoestima. N\u00e3o esquecemos quem veio antes, revisitamos a nossa ancestralidade. Todo ser humano precisa ter essa busca, conhecer a hist\u00f3ria de sua fam\u00edlia de alguma maneira. Perguntar para pai, m\u00e3e, av\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para n\u00f3s, negros, \u00e9 mais dif\u00edcil por conta de como as coisas aconteceram. Mas a gente busca, come\u00e7ando pelos significados das palavras nas l\u00ednguas de \u00c1frica. Tudo isso \u00e9 fortalecedor. Inclusive, ver a hist\u00f3ria antes da escravid\u00e3o. Nem todos os povos da \u00c1frica foram escravizados. Tem muita coisa para conhecer. Muita coisa nasceu ali, muita ci\u00eancia. A origem de muitas coisas positivas vem da \u00c1frica.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por: O Globo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Margareth Menezes\u00a0est\u00e1 encostada num m\u00f3vel da sala do apartamento de\u00a0Gilberto Gil, em Salvador, enquanto Daniela Mercury concentra as aten\u00e7\u00f5es soltando a voz ao redor de uma mesa. Maga, como \u00e9 carinhosamente apelidada pelos f\u00e3s, s\u00f3 se aproxima quando algu\u00e9m puxa uma cadeira para que se junte ao coro de &#8220;Pai e m\u00e3e&#8221;, can\u00e7\u00e3o de Gil. 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