{"id":36250,"date":"2022-04-23T11:16:00","date_gmt":"2022-04-23T14:16:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogopara.com.br\/?p=36250"},"modified":"2022-04-23T07:55:13","modified_gmt":"2022-04-23T10:55:13","slug":"aos-poucos-bezerra-da-silva-e-apagado-pelo-politicamente-correto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/2022\/04\/23\/aos-poucos-bezerra-da-silva-e-apagado-pelo-politicamente-correto","title":{"rendered":"Aos poucos, Bezerra da Silva \u00e9 apagado pelo politicamente correto"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Sambista dos mais populares entre o in\u00edcio dos anos 80 e final dos 90, vendedor de, at\u00e9 onde se contabilizou, tr\u00eas milh\u00f5es de discos, ex-morador de rua, ex-pintor de parede e inquilino de um barraco no Morro do Cantagalo por 15 anos, Bezerra da Silva passa por um silencioso processo de apagamento. Muitos dos sambas que cantou em seus 28 discos, identificados como apologistas da bandidagem e da misoginia, s\u00e3o patrulhados por um politicamente correto recrudescido por justas causas nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas, e deixados de lado pelo pr\u00f3prio samba. Cantar Bezerra se tornou, dizem os pr\u00f3prios sambistas, um ato arriscado. \u201cNingu\u00e9m quer correr o risco de ser cancelado\u201d, comenta o compositor e cantor Chico Alves, tamb\u00e9m propriet\u00e1rio da casa Tra\u00e7o de Uni\u00e3o, de S\u00e3o Paulo. \u201cAs pessoas est\u00e3o com medo\u201d, diz o filho do artista, o tamb\u00e9m sambista \u00cdtalo Bezerra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao morrer aos 77 anos, em 2005, Bezerra j\u00e1 sabia o que era ser maldito e viu cada um de seus sucessos lhe reservar dois destinos antag\u00f4nicos: ao mesmo tempo em que se tornava um her\u00f3i aos despossu\u00eddos, refor\u00e7ava contra si o \u00f3dio de tudo o que existia da classe m\u00e9dia pra cima. Desde Pega Eu, de 1979, at\u00e9 Malandro \u00e9 Malandro e Man\u00e9 \u00e9 Man\u00e9, de 1999, passando por Defunto Caguete, de 84, Bicho Feroz, de 85, Malandragem D\u00e1 um Tempo, de 86, A Semente, de 87, e Candidato Ca\u00f4 Ca\u00f4, de 88, nenhum poder era poupado. Al\u00e9m de ju\u00edzes, censores, pol\u00edticos, delegados, padres, pastores, man\u00e9s e sogras, todas as sogras, seu nome n\u00e3o era bem quisto nem pelo samba. \u201cFale a\u00ed uma participa\u00e7\u00e3o especial de um sambista de renome em qualquer LP de sucesso do meu pai\u201d, desafia \u00cdtalo. Tirando o coletivo Os Tr\u00eas Malandros in Concert, de 1995, ao lado de Dicr\u00f3 e Moreira da Silva, n\u00e3o h\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem ser chamado \u00e0 mesa pela turma de Paulinho da Viola, Paulo Cesar Pinheiro, Martinho da Vila, Clara Nunes e Beth Carvalho, nem pelos jovens que redesenhavam o partido com mais velocidade e for\u00e7a percussiva na quadra Cacique de Ramos, de onde sairiam Almir Guineto, Jorge Arag\u00e3o, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho e todo o Fundo de Quintal, Bezerra s\u00f3 n\u00e3o era um lobo solit\u00e1rio porque tinha os morros e a poderosa Baixada Fluminense a seu dispor \u2013 assim como os morros e a Baixada s\u00f3 n\u00e3o eram de mentira, romantizados com alvoradas sob as quais ningu\u00e9m chorava e n\u00e3o havia tristeza, porque tinham Bezerra. Ao contr\u00e1rio das letras dos cl\u00e1ssicos cronistas de veia liter\u00e1ria, como Noel, Cartola, Nelson Cavaquinho, Vinicius, Chico Buarque e Aldir Blanc, sua favela era assumidamente in\u00f3spita, machista, homof\u00f3bica e bem humorada. \u201cComo \u00e9 que vou cantar amor se eu nunca tive amor?\u201d, ele dizia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era ao morro que o sambista recorria para colher letras e melodias com carteiros, camel\u00f4s, garis, bicheiros, bombeiros, serventes de pedreiro, taxistas, macumbeiros e desempregados \u2013 todos nascidos no samba. Gente como Pedro Butina, Z\u00e9 Ded\u00e3o do Jacar\u00e9, Criolo Doido, Embratel do Pandeiro, Claudinho Inspira\u00e7\u00e3o, Adelzonilton, Ti\u00e3o Miranda, Nilo Dias, Juarez da Boca do Mato, Walmir da Purifica\u00e7\u00e3o e Moacir Bombeiro. \u201cFoi depois que Bezerra gravou Minha Sogra Parece Sapat\u00e3o que consegui comprar minha casa e ajudar os amigos\u201d, diz Roxinho, ex-ajudante de montador de estruturas que, hoje, depois de 10 sambas na voz do artista, tem um bar em Mesquita, na mesma Baixada. Seu samba \u00e9 um forte candidato ao silenciamento eterno em outras vozes por dois desajustamentos sociais em uma s\u00f3 frase: cantar contra as sogras e dizer a palavra \u201csapat\u00e3o\u201d. \u201cSei que \u00e9 preciso tomar cuidado\u201d, diz Marquinhos Diniz, autor dos sucessos Cobra Mandada e Medo de Virar Galeto. \u201cMas chegamos a um ponto em que, se olharmos diferente, sa\u00edmos algemados.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E ent\u00e3o, o que dizer do samba Canudo de Ouro, sobre o padre que vendia coca\u00edna na sacristia e cobrava em d\u00f3lar? \u201cQuem quiser cafungar ou d\u00e1 dois \/ Vai na sacristia com o sacrist\u00e3o \/ Mas leve em d\u00f3lar que a coisa \u00e9 da boa \/ Porque com o cruzeiro n\u00e3o tem transa\u00e7\u00e3o.\u201d De Quem Usa Antena \u00e9 Televis\u00e3o, sobre o dia em que a mulher do Chico apanhou feito ladr\u00e3o por trair o marido? \u201cVamos botar logo as cartas mesa \/ Eu fico no barraco e voc\u00ea leva a nega \/ Essa piranha brava eu n\u00e3o quero mais n\u00e3o.\u201d De Candidato Ca\u00f4 Ca\u00f4 e sua espantosa perenidade contra a classe pol\u00edtica? \u201cEle subiu o morro sem gravata dizendo que gostava da ra\u00e7a \/ Foi l\u00e1 na tendinha, bebeu cacha\u00e7a e at\u00e9 bagulho fumou \/ Foi no meu barrac\u00e3o e l\u00e1 usou lata de goiabada como prato \/ Eu logo percebi, \u00e9 mais um candidato \u00e0s pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es.\u201d E de Meu Bom Juiz, de 1986, algo que o rap s\u00f3 faria dez anos mais tarde e que pode ter custado mil portas fechadas e o in\u00edcio do apagamento ainda em vida. Meu Bom Juiz humanizava um traficante diante dos olhos dos moradores de um morro e pedia por sua absolvi\u00e7\u00e3o. O morro era o Juramento e o traficante, Jos\u00e9 Carlos dos Reis Encina, o Escadinha: \u201cAh, meu bom juiz, n\u00e3o bata este martelo nem d\u00ea a senten\u00e7a \/ Antes de ouvir o que o meu samba diz \/ Pois este homem n\u00e3o \u00e9 \/ T\u00e3o ruim quanto o senhor pensa.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cFazem uma confus\u00e3o perigosa\u201d, diz o historiador Luiz Antonio Simas. \u201cBezerra era um cronista da sua realidade, n\u00e3o um apologista de bandido. O samba faz tamb\u00e9m um retrato do machismo e da viol\u00eancia, e Bezerra era testemunha desse horror.\u201d A antrop\u00f3loga Let\u00edcia Vianna, autora do livro Bezerra da Silva Produto do Morro \u2013 Trajet\u00f3ria e Obra de Um Sambista Que N\u00e3o \u00e9 Santo, considera o sambista um soci\u00f3logo de seu tempo. \u201cO que ele diz quando fala sobre a pris\u00e3o de Escadinha? Est\u00e1 falando de uma rea\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es sociais do morro. E ele \u00e9 produto deste morro, algu\u00e9m importante para entendermos o que era esse Brasil. Se v\u00e3o cancelar o Bezerra, precisam cancelar tamb\u00e9m Noel Rosa e Wilson Batista.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se dependesse da censura oficial regida ainda durante o governo Jos\u00e9 Sarney, Jos\u00e9 Bezerra da Silva seria nome de um desaparecido. Muitas de suas m\u00fasicas foram proibidas em r\u00e1dio \u00e0 \u00e9poca de seus lan\u00e7amentos. Conforme levantou o reportagem, al\u00e9m dos sambas Malandragem, D\u00e1 Um Tempo e S\u00e3o Morungar, Chico N\u00e3o Deu Sorte, de 82, foi considerada \u201cofensiva \u00e0 figura do policial e \u00e0 pessoa do delegado\u201d, conforme anota\u00e7\u00f5es da t\u00e9cnica Alzira Silva de Oliveira. J\u00e1 O Federal, do mesmo ano, trazia, segundo a mesma censora, \u201cprotesto que incita a popula\u00e7\u00e3o a reagir contra todo e qualquer policial\u201d. J\u00e1 pela vontade c\u00fapula da Igreja Cat\u00f3lica no pa\u00eds dos anos 80, Bezerra estaria no inferno. Segundo contavam Adelzonilton e Nilo Dias, autores de Canudo de Ouro, o samba do padre traficante, os dois foram chamados pelo arcebispo de S\u00e3o Paulo para darem explica\u00e7\u00f5es. Depois de ouvirem broncas e serm\u00f5es, sa\u00edram sob juras de n\u00e3o cantarem a m\u00fasica nunca mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apagamentos, ao contr\u00e1rio da estrid\u00eancia dos cancelamentos, s\u00e3o fen\u00f4menos potencializados no mundo p\u00f3s redes sociais de forma silenciosa, n\u00e3o deliberada e nem sempre assumida. Simplesmente n\u00e3o se fala, n\u00e3o se toca e n\u00e3o se canta. Johnny Alf, um pianista t\u00e3o ou mais importante do que tudo o que viria depois para o desenho da bossa nova, teve sua relev\u00e2ncia desbotada at\u00e9 que come\u00e7asse a ressurgir, j\u00e1 morto, sob a perspectiva do antirracismo. J\u00e1 aos \u00cdndios Tabajara, dois irm\u00e3os de uma tribo no Cear\u00e1 que fizeram sucesso nos Estados Unidos como violonistas de concerto nos anos 50 e 60, n\u00e3o deram, muito por serem ind\u00edgenas, nem um segundo de visibilidade. Ainda que n\u00e3o haja placas de \u201cproibido Bezerra\u201d nas rodas conhecidas pela reportagem, a aus\u00eancia de seu repert\u00f3rio n\u00e3o deve ser por acaso: recantos no Rio como Samba do Trabalhador, Beco do Rato, Carioca da Gema, Cacique de Ramos, Bar Semente e Samba da Rua do Ouvidor, ou de S\u00e3o Paulo, como Bar Samba e Vila do Samba, dificilmente, ou nunca, passam por Bezerra da Silva. Simas faz uma pondera\u00e7\u00e3o: \u201cMas saindo das rodas da zona sul do Rio e do centro, Bezerra \u00e9 idolatrado.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cS\u00e3o Paulo gosta mais de Bezerra do que o Rio\u201d, dizia o pr\u00f3prio Bezerra e diz, hoje, seu filho, \u00cdtalo. \u201cFoi a\u00ed que a carreira dele come\u00e7ou.\u201d De fato, h\u00e1 um \u00fanico n\u00facleo de \u201cbezerristas resistentes\u201d e ele fica em S\u00e3o Mateus, na zona leste da cidade. A roda organizada por Marcelo Cabe\u00e7a, a Favela Pesada, j\u00e1 fez 26 homenagens ao sambista e mant\u00e9m uma p\u00e1gina de f\u00e3s no Facebook com 29 mil membros. \u201cQuem apaga Bezerra n\u00e3o pode gostar de samba\u201d, diz. \u00c9 como se ele seguisse o que Martinho da Vila havia falado \u00e0 reportagem um dia antes: \u201cQuem tem de manter Bezerra vivo s\u00e3o os f\u00e3s. Essa miss\u00e3o \u00e9 deles.\u201d Martinho, que gravou Na Aba depois de Bezerra e fez do samba um sucesso, cruzou com o pernambucano poucas vezes. Uma delas foi em seu antigo bar, o Butiquim do Martinho. \u201cDe repente ele queria ir embora e eu n\u00e3o entendi nada.\u201d J\u00e1 na rua, Bezerra confessou: \u201cSabe o que \u00e9, meu cumpade, eu n\u00e3o fumo e n\u00e3o bebo, e est\u00e1 todo mundo fumando ou bebendo a\u00ed.\u201d Sinais do tamanho do personagem que havia ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem regrava\u00e7\u00f5es de seus sucessos por outros artistas, ainda que Bezerra conte com pouco mais de 388 mil ouvintes mensais no Spotify \u2013 Martinho da Vila tem 1.535.752 milh\u00e3o e Zeca Pagodinho passa dos 1.830 milh\u00e3o \u2013 o sambista foi reverenciado e rejuvenescido por duas vezes, nenhuma delas pelo samba. Em 1996, com Serginho Trombone transportando nota por nota do arranjo de metais original da m\u00fasica Low Rider, da banda funk War, o Bar\u00e3o Vermelho regravou Malandragem D\u00e1 um Tempo com estardalha\u00e7o e o recolocou em cena. Depois de alguns anos sem cantar a m\u00fasica, Frejat decidiu recoloc\u00e1-la no repert\u00f3rio de sua carreira solo h\u00e1 um m\u00eas e meio. \u201cSei que h\u00e1 assuntos delicados em algumas letras, mas est\u00e1 faltando humor \u00e0s pessoas. Eu cantei e ningu\u00e9m reclamou.\u201d Em 2010 foi um rapper, Marcelo D2, quem fez Marcelo D2 canta Bezerra da Silva, o \u00fanico \u00e1lbum tributo de abrang\u00eancia gravado a Bezerra: \u201cS\u00f3 estamos discutindo tudo isso agora, machismo, viol\u00eancia, tr\u00e1fico, porque caras como ele jogaram esses problemas na mesa\u201d, diz D2. \u201cCara, vou usar um pensamento do pr\u00f3prio Bezerra: se um rico fala de tr\u00e1fico, \u00e9 pesquisa. Se um podre fala de tr\u00e1fico, \u00e9 traficante tamb\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Agita Bras\u00edlia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sambista dos mais populares entre o in\u00edcio dos anos 80 e final dos 90, vendedor de, at\u00e9 onde se contabilizou, tr\u00eas milh\u00f5es de discos, ex-morador de rua, ex-pintor de parede e inquilino de um barraco no Morro do Cantagalo por 15 anos, Bezerra da Silva passa por um silencioso processo de apagamento. 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