{"id":54490,"date":"2023-07-03T12:00:00","date_gmt":"2023-07-03T15:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogopara.com.br\/?p=54490"},"modified":"2023-07-03T11:06:36","modified_gmt":"2023-07-03T14:06:36","slug":"preconceito-contra-pessoas-trans-comeca-em-casa-diz-servidora-do-stj","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/2023\/07\/03\/preconceito-contra-pessoas-trans-comeca-em-casa-diz-servidora-do-stj","title":{"rendered":"Preconceito contra pessoas trans come\u00e7a em casa, diz servidora do STJ"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Victoria Moreno tem 41 anos e seria apenas mais uma funcion\u00e1ria do Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) se n\u00e3o fosse por um fato: ela \u00e9 a primeira servidora transexual da corte. Mas para chegar at\u00e9 esse ponto, teve que passar, como muitas outras pessoas trans, por v\u00e1rios obst\u00e1culos, entre eles o preconceito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E esse preconceito n\u00e3o vinha apenas das ruas. Dentro da pr\u00f3pria casa, n\u00e3o podia contar com o apoio de sua fam\u00edlia. Em depoimento ao programa Viva Maria, da Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o (EBC), Victoria contou como isso dificultou sua vida. A entrevista ocorreu na semana em que se comemora o Dia Internacional do Orgulho LGBTQI+.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA popula\u00e7\u00e3o LGBT, quando crian\u00e7a ainda, \u00e9 a \u00fanica popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pode contar com a sua fam\u00edlia. Todas as outras minorias podem. Por exemplo, uma crian\u00e7a negra que sofre racismo na escola, pode chegar para o pai e a m\u00e3e e contar a dor que ela sentiu por ter sofrido essa viol\u00eancia. Mas a gente n\u00e3o pode porque tem medo da rea\u00e7\u00e3o dos nossos pais\u201d, conta ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por conta disso, apenas no fim da adolesc\u00eancia, decidiu que faria uma transi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero. A demora foi provocada, entre outras coisas, pela incerteza e pelo medo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu n\u00e3o gostava da brincadeira dos meninos, eu n\u00e3o queria estar perto dos meninos, eu n\u00e3o me sentia como os meninos, eu n\u00e3o me interessava pelo que os meninos se interessavam. E isso me fez uma crian\u00e7a muito isolada e sozinha. Em todos os lugares aonde eu ia, eu n\u00e3o me sentia representada. Eu me sentia inadequada. E eu precisava esconder essa inadequa\u00e7\u00e3o porque a gente acaba percebendo, pela brincadeira dos nossos pais, pelo humor ofensivo e transf\u00f3bico [dos programas de TV], que a gente est\u00e1 errado e precisa, de alguma forma, se esconder. Ent\u00e3o s\u00f3 consegui definir mesmo, com 16 anos, 17 anos, que eu tive coragem para poder assumir para mim e para minha fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo ela, as pessoas LGBTs precisam enfrentar, entre outras dificuldades, expuls\u00f5es de casa. \u201cA popula\u00e7\u00e3o LGBT costuma sentir preconceito dentro de casa, fora de casa. Mas o primeiro lugar \u00e9 dentro de casa, porque \u00e9 o primeiro lugar de socializa\u00e7\u00e3o. Eu passei por isso, eu via fotos de pessoas diversas, at\u00e9 de primas minhas, sendo publicizadas em cima de estantes, em paredes, em cima de mesas, mas as minhas n\u00e3o eram colocadas. Ou, quando eram colocadas, eram fotos de quando eu ainda me apresentava como menino\u201d, afirma. \u201cA gente vive uma dor, dor da discrimina\u00e7\u00e3o, da repulsa, da viol\u00eancia f\u00edsica, do esc\u00e1rnio, da desmoraliza\u00e7\u00e3o diariamente\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Oportunidade e representatividade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A demora em se assumir como uma mulher trans tamb\u00e9m foi fruto dos receios que tinha pelo futuro. Para Victoria, n\u00e3o havia outro caminho para transexuais al\u00e9m da prostitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu n\u00e3o via [pessoas trans] atendendo a pessoas na padaria, tampouco na farm\u00e1cia e nem no supermercado. Isso, para colocar servi\u00e7os b\u00e1sicos. Eu acreditava que o \u00fanico destino poss\u00edvel de uma pessoa trans ou travesti era a prostitui\u00e7\u00e3o. E a\u00ed eu n\u00e3o queria viver aquela vida. N\u00e3o queria estar naquele lugar de vulnerabilidade, na chuva, no frio, \u00e0 noite, exposta a algu\u00e9m passar e fazer uma maldade comigo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela conta que chegou a largar os estudos por um per\u00edodo, durante a adolesc\u00eancia, por n\u00e3o aguentar mais as constantes viol\u00eancias e abusos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu fui para o segundo grau [atual ensino m\u00e9dio] e n\u00e3o consegui me manter no col\u00e9gio por conta das exclus\u00f5es. Para falar de Superior Tribunal de Justi\u00e7a, \u00e9 importante lembrar esses momento. Eu fiquei muito tempo perdida, n\u00e3o sabia pra onde ir. Eu n\u00e3o queria ir para a prostitui\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o o que me restava? Nada.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Victoria, ent\u00e3o, passou por um per\u00edodo frequentando boates LGBT, onde se sentia acolhida at\u00e9 que, por incentivo da fam\u00edlia, voltou a estudar, superando \u201ca vergonha, a culpa e o medo\u201d que sentia. Victoria aplicou-se nos estudos, buscando uma alternativa para a vida que n\u00e3o queria para si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inicialmente conseguiu uma bolsa de estudos \u2013 pelo Programa Universidade para Todos, o Prouni \u2013, em um curso superior de est\u00e9tica, tentou ser cabeleireira e buscou emprego em uma escola de artes visuais. Mas, insatisfeita, buscou um novo in\u00edcio no direito. Victoria destaca o papel fundamental do apoio familiar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Passei tr\u00eas anos estudando, sem sair de casa, de segunda a segunda, por oito a dez horas por dia. Eu venci por que eu sempre estou em busca de mais coisa e tamb\u00e9m porque eu tive apoio. Se fosse s\u00f3 por mim mesma isso n\u00e3o seria poss\u00edvel.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E mesmo com a trajet\u00f3ria de sucesso, Victoria conta que n\u00e3o est\u00e1 totalmente satisfeita: \u201ceu n\u00e3o quero parar por aqui. Quero me tornar ju\u00edza ou promotora de Justi\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Victoria \u00e9 hoje um exemplo que ela n\u00e3o conseguia encontrar em sua adolesc\u00eancia: uma pessoa bem-sucedida que mostra que existem possibilidades para as mulheres trans.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA representa\u00e7\u00e3o entra para suprir algumas lacunas, para dar possibilidades na mente das pessoas que j\u00e1 s\u00e3o trans e das que vir\u00e3o. Agora que a gente saiu da marginalidade, da madrugada, da noite e colocou a cara no Sol e descobriu como isso \u00e9 bom, a gente n\u00e3o vai parar, n\u00e3o\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Victoria Moreno tem 41 anos e seria apenas mais uma funcion\u00e1ria do Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) se n\u00e3o fosse por um fato: ela \u00e9 a primeira servidora transexual da corte. Mas para chegar at\u00e9 esse ponto, teve que passar, como muitas outras pessoas trans, por v\u00e1rios obst\u00e1culos, entre eles o preconceito. E esse preconceito [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":54491,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_uag_custom_page_level_css":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[200,210],"tags":[],"class_list":["post-54490","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","category-justica"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/capa-25.jpg","uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/capa-25.jpg",500,272,false],"thumbnail":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/capa-25-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/capa-25-300x163.jpg",300,163,true],"medium_large":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/capa-25.jpg",500,272,false],"large":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/capa-25.jpg",500,272,false],"1536x1536":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/capa-25.jpg",500,272,false],"2048x2048":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/capa-25.jpg",500,272,false],"mantranews-slider-large":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/capa-25.jpg",500,272,false],"mantranews-featured-medium":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/capa-25-420x272.jpg",420,272,true],"mantranews-featured-long":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/capa-25-300x272.jpg",300,272,true],"mantranews-block-medium":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/capa-25-464x272.jpg",464,272,true],"mantranews-carousel-image":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/capa-25.jpg",500,272,false],"mantranews-block-thumb":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/capa-25-322x230.jpg",322,230,true],"mantranews-single-large":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/capa-25.jpg",500,272,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"Reda\u00e7\u00e3o geral","author_link":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/author\/blogopara"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Victoria Moreno tem 41 anos e seria apenas mais uma funcion\u00e1ria do Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) se n\u00e3o fosse por um fato: ela \u00e9 a primeira servidora transexual da corte. Mas para chegar at\u00e9 esse ponto, teve que passar, como muitas outras pessoas trans, por v\u00e1rios obst\u00e1culos, entre eles o preconceito. E esse preconceito&hellip;","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54490","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=54490"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54490\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":54492,"href":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54490\/revisions\/54492"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/54491"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=54490"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=54490"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=54490"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}