{"id":5878,"date":"2019-12-23T08:09:50","date_gmt":"2019-12-23T11:09:50","guid":{"rendered":"http:\/\/blogopara.com.br\/?p=5878"},"modified":"2019-12-23T08:09:56","modified_gmt":"2019-12-23T11:09:56","slug":"protejam-erasmo-ele-pode-ser-assassinado-a-qualquer-momento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/2019\/12\/23\/protejam-erasmo-ele-pode-ser-assassinado-a-qualquer-momento","title":{"rendered":"Protejam Erasmo: ele pode ser assassinado a qualquer momento"},"content":{"rendered":"<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Quando vi Erasmo Alves Te\u00f3filo pela primeira vez, o que me chamou a aten\u00e7\u00e3o foi aquele homem se movimentando muito r\u00e1pido numa velha cadeira de pl\u00e1stico branca. V\u00edtima de paralisia infantil, porque n\u00e3o havia vacina onde ele vivia, Erasmo n\u00e3o pode caminhar. Mas lidera. Este homem que s\u00f3 conta com uma cadeira de pl\u00e1stico branca luta pela vida de cerca de 300 fam\u00edlias de agricultores familiares e pescadores na Volta Grande do Xingu, em Anapu, na Amaz\u00f4nia paraense, uma das regi\u00f5es mais sangrentas da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/amazonia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Amaz\u00f4nia<\/a>. Este homem sem movimento nas pernas movimenta-se mais do que a maioria dos brasileiros para manter a floresta em p\u00e9. Hoje, ele tamb\u00e9m conta com pouco mais do que sua cadeira de pl\u00e1stico para escapar da morte.<\/p>\n<section class=\"more_info | border_1 border_top pull_right\">\n<ul class=\"list_unstyled font_secondary\">\n<li class=\"info_item | border_1 border_bottom border_gray_ultra_light flex container_column\">\n<figure class=\"margin_bottom width_full height_full_mobile\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full height_full_mobile\" src=\"https:\/\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/JCLPBMD3YA3BUSYEMAI6TCRINE.jpg\" alt=\"O bairro Jardim Independente 1, na cidade de Altamira, sofreu o impacto da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria causado pela constru\u00e7\u00e3o de Belo Monte.\" \/><\/figure>\n<\/li>\n<li class=\"info_item | border_1 border_bottom border_gray_ultra_light flex container_column\">\n<figure class=\"margin_bottom width_full height_full_mobile\"><img decoding=\"async\" class=\"width_full height_full_mobile\" src=\"https:\/\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/Y2UTCUFFLPGZG5I22FQOOP4KG4.jpg\" alt=\"O pai do menino de 11 anos foi a v\u00edtima mais recente dos conflitos de terra em Anapu, no Par\u00e1, mas certamente n\u00e3o ser\u00e1 o \u00faltimo a tombar no Brasil sem justi\u00e7a\" \/><\/figure>\n<\/li>\n<\/ul>\n<\/section>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Erasmo, este brasileiro que todos deveriam proteger porque sua luta protege a Amaz\u00f4nia para todos n\u00f3s, est\u00e1 amea\u00e7ado por grileiros (grandes ladr\u00f5es de terras p\u00fablicas) que agem na regi\u00e3o de Altamira e Anapu com a desenvoltura que a impunidade sempre conferiu a este tipo de personagem na hist\u00f3ria do Brasil. Hoje, com o antidemocrata <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/jair_messias_bolsonaro\/a\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Jair Bolsonaro<\/a>\u00a0no poder, a grilagem tem se comportado como se tivesse autoriza\u00e7\u00e3o para amea\u00e7ar, para bater e tamb\u00e9m para matar. Para dizer, como mais de uma pessoa ouviu de um deles: \u201cNenhum juiz tem poder sobre mim\u201d.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Entre 4 e 9 de dezembro, dois homens j\u00e1 foram assassinados em Anapu. Erasmo poder\u00e1 ser a terceira v\u00edtima, caso a sociedade brasileira n\u00e3o seja capaz de se organizar para proteger a ele e a todos os outros agricultores familiares, ind\u00edgenas, ribeirinhos e quilombolas que est\u00e3o amea\u00e7ados na floresta. Ningu\u00e9m deve jamais se cansar de pressionar as institui\u00e7\u00f5es a fazer seu papel no Brasil. Isso \u00e9 essencial para o pa\u00eds n\u00e3o perder o pouco de democracia que ainda resta. Mas \u00e9 hora de compreender que o Brasil chegou a um ponto em que, se a sociedade n\u00e3o se organizar para defender aqueles que est\u00e3o lutando na linha de frente, estas pessoas v\u00e3o morrer. Como j\u00e1 est\u00e3o morrendo.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">1) Os defensores da floresta temem n\u00e3o ver o Ano Novo<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Enquanto a popula\u00e7\u00e3o de classe m\u00e9dia das cidades do centro-sul do Brasil se prepara para as festas de final de ano, com recessos, f\u00e9rias coletivas, folgas prolongadas, este \u00e9 um tempo de medo na Amaz\u00f4nia. Mais medo. As poucas institui\u00e7\u00f5es que se fazem presentes, a maioria apenas nas cidades maiores dos estados amaz\u00f4nicos, entram em recesso. Supostamente h\u00e1 plant\u00e3o nas capitais. Mas, se o n\u00famero de funcion\u00e1rios j\u00e1 \u00e9 reduzido quando h\u00e1 expediente normal, como ser\u00e1 poss\u00edvel contar com estas institui\u00e7\u00f5es? Tamb\u00e9m a maior parte das\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/ong_organizaciones_no_gubernamentales\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Organiza\u00e7\u00f5es N\u00e3o Governamentais (ONGs)<\/a>, que cumprem um papel decisivo na prote\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, entram em f\u00e9rias coletivas. A popula\u00e7\u00e3o em risco se torna muito mais desamparada.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Essas pessoas n\u00e3o est\u00e3o desamparadas porque fr\u00e1geis. S\u00f3 existe floresta ainda porque seus povos s\u00e3o muito resistentes e colocam seus corpos na linha de frente, fazendo uma barreira humana contra o avan\u00e7o da grilagem. A quest\u00e3o \u00e9 que agricultores familiares, ribeirinhos,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/03\/28\/sociedad\/1396039867_792085.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">quilombolas<\/a>\u00a0e ind\u00edgenas lutam quase sozinhos para manter a floresta viva e como um bem p\u00fablico e coletivo. E lutam quase sozinhos contra for\u00e7as muito mais poderosas, em geral armadas, que querem derrubar a floresta e especular com a terra para o lucro privado de poucos, hoje com o apoio expl\u00edcito do Governo antidemocr\u00e1tico de Bolsonaro.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Em pouco mais de 40 dias, entre novembro e dezembro, quatro ind\u00edgenas do povo Guajajara, na Amaz\u00f4nia maranhense,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019-12-13\/erisvan-soares-o-quarto-indigena-guajajara-assassinado-no-maranhao-desde-novembro.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">foram assassinados<\/a>. Em Anapu, n\u00e3o s\u00e3o ind\u00edgenas que morrem, mas agricultores que tentam fazer assentamentos sustent\u00e1veis em \u00e1reas p\u00fablicas destinadas \u00e0 reforma agr\u00e1ria, mas cobi\u00e7adas ou j\u00e1 exploradas pelos grandes grileiros da regi\u00e3o. Tamb\u00e9m tombam pessoas que apoiam os trabalhadores rurais. Os grileiros se apresentam como fazendeiros, mas sua folha-corrida mostra que s\u00e3o ladr\u00f5es de terras da Uni\u00e3o. Os reais fazendeiros deveriam desejar se diferenciar deles, em vez de apoi\u00e1-los ou toler\u00e1-los, mas n\u00e3o \u00e9 isso que tem acontecido.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">2) Por que Anapu se tornou um campo de cad\u00e1veres<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Pergunto a Erasmo, cada vez mais perto da morte matada, vivendo numa casa que at\u00e9 o sopro do Lobo Mau das hist\u00f3rias infantis pode colocar em risco, se ele acredita na lei. E ele responde: \u201cEu acredito. Especialmente na lei federal. Se n\u00e3o acreditasse, eu n\u00e3o estaria aqui\u201d. Erasmo vive numa terra em que o mais forte \u00e9 a lei. Erasmo \u00e9 o mais fraco na terra da lei do mais forte. E Erasmo acredita na lei, esta representada pela Constitui\u00e7\u00e3o, esta supostamente acima dos indiv\u00edduos, em defesa da coletividade. Sinto vontade de repetir esta frase dezenas de vezes e escrev\u00ea-la de tr\u00e1s para frente e de cima para baixo, para ver se sob algum \u00e2ngulo o mist\u00e9rio se revela. Sentado na cadeira de pl\u00e1stico branco que lhe servem de pernas, sacaneado mil vezes e mais outras mil vezes, Erasmo \u00e9 um brasileiro que acredita na lei.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/07\/30\/opinion\/1532957463_995238.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Anapu entrou no mapa mental do Brasil e do mundo<\/a>\u00a0depois que a mission\u00e1ria americana Dorothy Stang foi perfurada por seis tiros em 2005, provocando uma como\u00e7\u00e3o internacional. Mas Anapu deve ser olhada com redobrada aten\u00e7\u00e3o por muito mais do que isso. O munic\u00edpio desenha o problema da terra, do desmatamento e da viol\u00eancia na Amaz\u00f4nia brasileira. Compreendendo o que acontece l\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel entender bastante da trag\u00e9dia que hoje compromete o futuro n\u00e3o s\u00f3 das novas gera\u00e7\u00f5es de brasileiros, mas do planeta.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Como \u00e9 sabido, a ditadura militar (1964-1985) estabeleceu um imagin\u00e1rio sobre a Amaz\u00f4nia \u2015 e converteu esse imagin\u00e1rio em propaganda que at\u00e9 hoje perdura. Os personagens que hoje se movimentam neste cen\u00e1rio, para matar e para morrer, s\u00e3o herdeiros do projeto da ditadura para a floresta tamb\u00e9m naquilo que ele tem de mais simb\u00f3lico: \u201ca terra sem homens para homens sem terra\u201d ou o \u201cdeserto verde\u201d ou ainda o \u201cintegrar para n\u00e3o entregar\u201d. Todos estes slogans de meio s\u00e9culo atr\u00e1s est\u00e3o vivos e atuando. Os conflitos de Anapu s\u00e3o produtos da Transamaz\u00f4nica, aberta literalmente a ferro e fogo sobre corpos de ind\u00edgenas e de \u00e1rvores.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Nos anos 1970, a ditadura dividiu a regi\u00e3o em dois polos, chamados \u201cTransa Oeste\u201d e \u201cTransa Leste\u201d. A primeira por\u00e7\u00e3o vai de Altamira at\u00e9 Placas e recebeu maioria de assentados da regi\u00e3o sul do Brasil. Esta \u00e9 a \u00e1rea da rodovia que foi destinada \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o oficial, para produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. J\u00e1 na Transa Leste, entre Altamira e Marab\u00e1, autores apontam que predominou uma coloniza\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea, daqueles que s\u00e3o sempre esquecidos nos programas p\u00fablicos oficiais, com migrantes vindos principalmente do nordeste brasileiro. Estes n\u00e3o tiveram apoio governamental para ocupar terras que eram consideradas menos produtivas. Sem esquecer que todas as terras, \u00e0 leste e \u00e0 oeste, tinham sido por s\u00e9culos ocupadas pelos povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Essa hist\u00f3ria, portanto, come\u00e7a com um genoc\u00eddio, o perpetrado pela ditadura militar na constru\u00e7\u00e3o da Transamaz\u00f4nica. Esta \u00e9 uma parte. A outra \u00e9 o prosseguimento de uma pol\u00edtica de branqueamento do pa\u00eds que se iniciou ainda no per\u00edodo imperial. Vale a pena lembrar que o sul do Brasil foi colonizado, mais uma vez sobre o corpo dos ind\u00edgenas, por imigrantes trazidos da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/europa\/a\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Europa<\/a>, em especial de pa\u00edses como Alemanha e It\u00e1lia, no final do s\u00e9culo 19 e in\u00edcio do s\u00e9culo 20. N\u00e3o s\u00f3 os ind\u00edgenas foram espoliados de suas terras e boa parte deles mortos como, na hora de escolher qual era a popula\u00e7\u00e3o que deveria ser colocada no lugar, foram escolhidos imigrantes brancos. Naquele momento, era poss\u00edvel ter executado uma pol\u00edtica p\u00fablica para incluir os negros que deixavam a escravid\u00e3o. Mas n\u00e3o. Importou-se brancos.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Na constru\u00e7\u00e3o da Transamaz\u00f4nica, os novos colonizadores foram chamados no sul do Brasil, a maioria deles descendentes destes imigrantes que, por sua vez, colonizaram o sul do pa\u00eds vindos da Europa. Nem foi f\u00e1cil para os imigrantes europeus que chegaram ao sul do Brasil no final do s\u00e9culo 19 nem foi f\u00e1cil para seus descendentes que chegaram \u00e0 Transamaz\u00f4nica nos anos 1970. Foi uma saga. Mas foi muito mais dif\u00edcil para os nordestinos que foram sem convite e sem apoio do governo, em busca do sonho da terra pr\u00f3pria para se livrar do aluguel do corpo para os coron\u00e9is.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Nesta mesma regi\u00e3o, a ditadura implantou tamb\u00e9m uma pol\u00edtica de concentra\u00e7\u00e3o da terra, pelos chamados Contratos de Aliena\u00e7\u00e3o de Terras P\u00fablicas (CATPs). Estes contratos eram t\u00edtulos provis\u00f3rios para lotes de 3.000 hectares. Eles foram oferecidos preferencialmente para pessoas de fora da regi\u00e3o amaz\u00f4nica. Com frequ\u00eancia, os contratos eram acompanhados de financiamentos da Superintend\u00eancia de Desenvolvimento da Amaz\u00f4nia (Sudam), uma sigla que ficou famosa pelos esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o que produziria tamb\u00e9m na regi\u00e3o de Altamira e Anapu.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Para que pudessem ganhar o t\u00edtulo da terra, os candidatos a propriet\u00e1rios tinham que comprovar, em cinco anos, a instala\u00e7\u00e3o de empresa agropecu\u00e1ria. Muitas destas terras foram repassadas a terceiros antes mesmo de ter t\u00edtulo definitivo, e, em boa parte dos casos, o cancelamento dos t\u00edtulos pelo governo nunca foi feito, embora n\u00e3o houvesse cria\u00e7\u00e3o de empresa agropecu\u00e1ria. Terras p\u00fablicas e financiamento p\u00fablico produziram e alimentaram um mercado de especula\u00e7\u00e3o de terras na Amaz\u00f4nia e um ciclo de grilagem e de pistolagem que perdura at\u00e9 hoje, grande respons\u00e1vel tanto pela destrui\u00e7\u00e3o da floresta quanto de vidas humanas. O que testemunhamos hoje no oeste do Par\u00e1 e tamb\u00e9m em outras regi\u00f5es da Amaz\u00f4nia \u00e9 resultado direto do projeto de explora\u00e7\u00e3o da floresta forjado na ditadura militar e nunca suficientemente reformado na democracia que se instalou ap\u00f3s 1985.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">3) A janela hist\u00f3rica perdida<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Para estancar a espiral de viol\u00eancia na disputa de terras que ainda hoje pertencem \u00e0 Uni\u00e3o, ou seja, s\u00e3o nossas, seria necess\u00e1rio fazer a reforma agr\u00e1ria que nunca foi feita. A melhor chance hist\u00f3rica de estancar o sangue depois da retomada da democracia ocorreu nos governos do Partido dos Trabalhadores, de 2003 a 2016. A reforma agr\u00e1ria constava no programa, e agricultores familiares e trabalhadores sem terra eram uma for\u00e7a importante na composi\u00e7\u00e3o da base do partido. Embora algumas a\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas tenham sido implementadas, por\u00e9m, a reforma agr\u00e1ria n\u00e3o foi realizada. E a oportunidade foi perdida.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Os Projetos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (PDS) foram criados em lotes que o Instituto Nacional de Reforma Agr\u00e1ria (Incra) declarou serem improdutivos no final dos anos 1990. Os PDS foram desenhados em assembleias de agricultores para combinar agricultura familiar com atividades extrativistas, de coleta, como faz a popula\u00e7\u00e3o ribeirinha da Amaz\u00f4nia. Eram projetos de reforma agr\u00e1ria, que garantiam a terra para quem dela vive, combinados com o conceito de preserva\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Em 2003, no primeiro ano do governo Lula (PT), foram criados quatro PDS nas glebas Belo Monte e Bacaj\u00e1, para o assentamento de 600 fam\u00edlias. Aqueles que haviam se apossado destas terras p\u00fablicas e tamb\u00e9m de gordos financiamentos p\u00fablicos da Sudam reagiram com viol\u00eancia, na base da pistolagem, de inc\u00eandios criminosos e de derrubada da floresta. A mission\u00e1ria Dorothy Stang documentava e denunciava cada um dos ataques, exigindo provid\u00eancias das autoridades. A freira deixava claro que, para a preserva\u00e7\u00e3o da floresta, seria necess\u00e1rio fazer antes a regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria. Foi executada.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Em 2005, a execu\u00e7\u00e3o de uma freira de 73 anos com cidadania americana trouxe consequ\u00eancias indesej\u00e1veis para os grileiros da regi\u00e3o. Demorou um pouco, mas o Estado se fez presente, institui\u00e7\u00f5es federais que n\u00e3o tinham escrit\u00f3rios na regi\u00e3o abriram as portas. Ao longo dos mais de 13 anos no poder, os governos do PT foram se aproximando cada vez mais dos grandes latifundi\u00e1rios, a ponto de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/katia_regina_de_abreu\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Katia Abreu<\/a>\u00a0ter se tornado ministra da Agricultura de Dilma Rousseff. Mas, no primeiro mandato de Lula, o compromisso com os pequenos agricultores ainda era forte tamb\u00e9m na pr\u00e1tica. N\u00e3o t\u00e3o forte para uma reforma agr\u00e1ria efetiva, mas forte o suficiente para colocar o Estado em Anapu.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A morte de Dorothy Stang atrapalhou bastante os neg\u00f3cios de especula\u00e7\u00e3o da terra na regi\u00e3o. Eles n\u00e3o cessaram, longe disso, mas ficou mais dif\u00edcil. Fortes ind\u00edcios apontavam naquele momento para a exist\u00eancia do que era chamado \u201ccons\u00f3rcio da morte\u201d, um\u00a0<i>pool<\/i>\u00a0de grileiros que determinavam a execu\u00e7\u00e3o de quem estava atrapalhando as investidas sobre a floresta. A exist\u00eancia do cons\u00f3rcio nunca chegou a ser provada, mas na regi\u00e3o poucos t\u00eam d\u00favida de que existe. Consorciados ou n\u00e3o, at\u00e9 2014 os grileiros mantiveram uma atua\u00e7\u00e3o persistente, mas discreta.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">4) O sangue dos Resplandes encharca a terra<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Desde 2015, a viol\u00eancia em Anapu refletiu o aumento do poder dos ruralistas n\u00e3o s\u00f3 no Congresso, mas tamb\u00e9m no Executivo. Tudo acontece em cadeia na Amaz\u00f4nia, como em qualquer lugar. Entre 2015 e 2019, houve 15 assassinatos ligados \u00e0 terra em Anapu, segundo a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra \u2015 e 19 segundo a contagem dos movimentos locais. Essas mortes mostraram que os grileiros aprenderam com o assassinato de Dorothy Stang. Nos \u00faltimos anos, os pistoleiros t\u00eam matado na cidade, em vez de na zona rural, para dificultar a associa\u00e7\u00e3o do crime com os conflitos agr\u00e1rios. Como parte da pol\u00edcia parece n\u00e3o ter muito interesse em investigar, a maioria dos crimes segue impunes. Quem precisa estabelecer a rela\u00e7\u00e3o com as disputas de terra, para estabelecer as conex\u00f5es de causa e efeito, s\u00e3o entidades da sociedade civil como a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 em 2018, uma lista de marcados para morrer circulava na cidade como se fosse uma lista de compras de material escolar. Pouco antes de ser assassinado, em 3 de junho daquele ano, Leoci Resplandes de Sousa foi checar se estava na lista da morte. Um dos chefes da pistolagem local garantiu que n\u00e3o. E afirmou, inclusive, que caso estivesse, ele tiraria. Era assim. E segue assim. N\u00e3o se sabe se este homem mentiu, porque n\u00e3o s\u00f3 Leoci foi assassinado, como tamb\u00e9m este chefe da pistolagem algum tempo depois. A lista \u2015 ou as listas \u2015 seguem ativas.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O que aconteceu com a fam\u00edlia Resplandes \u00e9 uma vergonha para o Brasil e para os brasileiros. Trabalhadores rurais em busca de terra, tr\u00eas Resplandes j\u00e1 foram mortos: H\u00e9rcules, de 17 anos, Valdemir e Leoci, de 29. Todos em 2018. Quando Leoci foi assassinado dentro de casa, depois de voltar da ro\u00e7a, a fam\u00edlia fugiu. Vivem assim, fugindo, sem nenhum apoio. E s\u00e3o achados. Em novembro, outro Resplandes foi baleado, mas sobreviveu. N\u00e3o h\u00e1 certeza de que a tentativa de homic\u00eddio esteja conectada com os conflitos por terra de Anapu, mas tudo indica ser bastante poss\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Iracy Resplandes dos Santos, 53 anos, vive acuada. Claramente est\u00e1 com depress\u00e3o, mas conta n\u00e3o ter confian\u00e7a de buscar tratamento. Disseram a ela que a dor pode ser aplacada com tric\u00f4. Mas ela come\u00e7a a tricotar e n\u00e3o consegue continuar. Vive o luto do filho mais velho, do irm\u00e3o e do sobrinho. Em novembro, atravessou dias e noites no hospital cuidando do filho baleado, temendo a sua morte. Iracy tem dor e tem medo. Tem desespero. Tudo o que sonhou era um peda\u00e7o de terra para plantar. Acabou tendo que semear cad\u00e1veres. E nada indica que esta semeadura de corpos humanos ir\u00e1 parar.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">5) O crime contra o Padre Amaro<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Em 2018, ficou claro que a grilagem intensificava a viol\u00eancia e usava m\u00e9todos mais ousados. Em 27 de mar\u00e7o daquele ano, Padre Amaro Lopes, p\u00e1roco em Anapu e um dos sucessores da mission\u00e1ria Dorothy Stang, foi preso numa opera\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica para os padr\u00f5es locais: 15 policiais, v\u00e1rias viaturas, armamento pesado. Parecia que o padre era Al Capone, isso numa cidade em que a maioria conhece os grileiros e pistoleiros pelo nome e cruzam com eles nas ruas sem que isso pare\u00e7a perturbar a pol\u00edcia.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Padre Amaro foi preso com um ramalhete de acusa\u00e7\u00f5es. E jogado na mesma pris\u00e3o em que Regivaldo Galv\u00e3o, conhecido como \u201cTarad\u00e3o\u201d, um dos mandantes da morte de Dorothy Stang, paga sua pena. Depois de tr\u00eas meses na cadeia, o religioso cat\u00f3lico passou a responder \u00e0s acusa\u00e7\u00f5es em liberdade, mas at\u00e9 hoje sujeito a v\u00e1rias restri\u00e7\u00f5es e sem poder retomar o seu trabalho, o que claramente era o objetivo da opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Duas semanas antes de ser preso,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2018\/mar\/27\/amazon-priest-amaro-lopes-brazil-land-rights-arrested\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Padre Amaro deu uma entrevista<\/a>\u00a0ao jornal\u00a0<i>The Guardian<\/i>. Nela, afirmou que sua \u201cbatata estava assando\u201d, referindo-se ao fato de que sabia que algo aconteceria com ele. \u201cComo matar a Dorothy deu muita repercuss\u00e3o e problemas para os grileiros, eles v\u00e3o forjar algum acidente ou inventar alguma coisa para me criminalizar\u201d, disse na ocasi\u00e3o. Uma das acusa\u00e7\u00f5es, a de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/delitos_sexuales\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">ass\u00e9dio sexual<\/a>, caiu em seguida, mas j\u00e1 tinha cumprido o objetivo de desqualificar o padre diante de parte da popula\u00e7\u00e3o de Anapu e da regi\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A pris\u00e3o de Padre Amaro foi precursora do m\u00e9todo usado recentemente em Alter do Ch\u00e3o, na regi\u00e3o de Santar\u00e9m. No final de novembro, quatro brigadistas volunt\u00e1rios, que trabalhavam em conjunto com os bombeiros locais para apagar os inc\u00eandios na floresta,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019-12-12\/talvez-nao-voltemos-a-alter-do-chao-dizem-brigadistas-voluntarios-do-para.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">foram presos<\/a>\u00a0sob a falsa acusa\u00e7\u00e3o de, justamente, atear fogo na mata. Na mesma data, a ONG Sa\u00fade e Alegria, uma das mais premiadas e respeitadas organiza\u00e7\u00f5es brasileiras, foi invadida pela pol\u00edcia e teve computadores e documentos apreendidos. \u00c9 a nova etapa de criminaliza\u00e7\u00e3o justamente daqueles que ou denunciam os verdadeiros criminosos ou trabalham para combater seus crimes ou, ainda, para fortalecer a popula\u00e7\u00e3o local. Pesquisadores da \u00e1rea de seguran\u00e7a apontam que h\u00e1 um crescente aparelhamento das pol\u00edcias para atuar na defesa de interesses privados.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">6) Dezembro de sangue<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Em Anapu, desde que Bolsonaro foi eleito, a atmosfera se tornou ainda mais pesada. \u00c9 muito dif\u00edcil encontrar algu\u00e9m que aceite ser entrevistado, mesmo sem dar o nome. \u201cO povo est\u00e1 morrendo\u201d, dizem aos cochichos. Desde que acompanho a situa\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o, nunca vi as pessoas t\u00e3o aterrorizadas. Elas t\u00eam toda a raz\u00e3o, j\u00e1 que n\u00e3o contam com nenhuma prote\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, parte dos representantes do Estado parece atuar contra as verdadeiras v\u00edtimas.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Se a tens\u00e3o e a viol\u00eancia aumentaram desde a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro, em novembro houve um agravamento de cen\u00e1rio em diversas regi\u00f5es da Amaz\u00f4nia. Em dezembro, tornou-se ainda mais alarmante. Todos os sinais mostram que a situa\u00e7\u00e3o ruma para o total descontrole. \u00c9 neste contexto que M\u00e1rcio Rodrigues dos Reis, 33 anos, pai de quatro filhas, foi assassinado em 4 de dezembro, em Anapu. O assassino fingiu ser um cliente do seu motot\u00e1xi e o matou com um golpe de faca no pesco\u00e7o. A garganta cortada, segundo repetem na cidade, assinala quem teria \u201cmorrido por falar demais\u201d.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">M\u00e1rcio era uma das principais testemunhas de defesa de padre Amaro Lopes. Era tamb\u00e9m algu\u00e9m que sabia bastante sobre o que acontecia na regi\u00e3o. Cinco dias depois, em 9 de dezembro, o ex-vereador do PT e conselheiro tutelar Paulo Anacleto foi executado diante do filho pequeno na pra\u00e7a central da cidade. Segundo testemunhas, ele estava no carro com a crian\u00e7a quando foi alvejado por dois homens numa moto. Paulo Anacleto era amigo pessoal de M\u00e1rcio e, segundo informa\u00e7\u00f5es, estava revoltado o suficiente para comentar pela cidade que sabia muito bem quem havia sido o mandante da morte. Quem acompanha os conflitos agr\u00e1rios em Anapu n\u00e3o tem d\u00favida de que os assassinatos est\u00e3o ligados.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Apesar de tentar por tr\u00eas dias seguidos, o EL PA\u00cdS n\u00e3o conseguiu informa\u00e7\u00f5es da pol\u00edcia do Par\u00e1 em nenhum n\u00edvel \u2015 local, regional e estadual. O delegado Lucas Luz, respons\u00e1vel pela Delegacia de Conflitos Agr\u00e1rios (DECA), especializada sediada em Altamira, a maior cidade da regi\u00e3o, afirmou que n\u00e3o poderia falar sobre os casos porque estariam \u201csob segredo de Justi\u00e7a\u201d. A reportagem enviou um email para a Pol\u00edcia Civil do Estado do Par\u00e1. A assessoria da corpora\u00e7\u00e3o informou que o pedido estava \u201cem an\u00e1lise\u201d \u2015 e n\u00e3o respondeu at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o do artigo. Em Anapu, os dois telefones divulgados da delegacia local aparentemente n\u00e3o funcionam ou n\u00e3o s\u00e3o atendidos.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, no Par\u00e1, instaurou procedimento para acompanhar as investiga\u00e7\u00f5es e solicitar provid\u00eancias \u00e0s autoridades de seguran\u00e7a p\u00fablica do Par\u00e1 sobre o que chamou de \u201ca nova escalada de viol\u00eancia no munic\u00edpio de Anapu\u201d. \u201cO cen\u00e1rio atual no munic\u00edpio evidencia a ocorr\u00eancia de reiteradas amea\u00e7as dirigidas a defensores de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/derechos_humanos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">direitos humanos<\/a>\u00a0no campo. Em menos de uma semana, entre os dias 4 e 9 de dezembro, ocorreram dois assassinatos que podem estar ligados aos conflitos agr\u00e1rios hist\u00f3ricos na regi\u00e3o\u201d, afirmou o \u00f3rg\u00e3o em nota p\u00fablica. O MPF tamb\u00e9m solicitou informa\u00e7\u00f5es sobre \u201cas provid\u00eancias que est\u00e3o sendo tomadas para prevenir e coibir a viol\u00eancia contra os moradores e lideran\u00e7as dos lotes 96 e 97 da gleba Bacaj\u00e1, devido \u00e0 \u201cpress\u00e3o para expuls\u00e3o de trabalhadores rurais\u201d. Estes lotes s\u00e3o uma das \u00e1reas abarcadas pela lideran\u00e7a de Erasmo, hoje amea\u00e7ado de morte.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A principal causa dos conflitos nos anos recentes, al\u00e9m da impunidade que gera mais impunidade, \u00e9 a omiss\u00e3o do Estado em fazer as a\u00e7\u00f5es de reforma agr\u00e1ria previstas em lei, abandonando o lado mais fr\u00e1gil, o dos agricultores familiares, a uma luta desigual com os grandes grileiros e suas mil\u00edcias armadas. Como a luta \u00e9 desigual, o resultado \u00e9 o massacre de trabalhadores rurais e das pessoas que os apoiam. \u201cAo n\u00e3o adotar as medidas necess\u00e1rias e previstas em lei para solucionar os conflitos agr\u00e1rios, h\u00e1 uma omiss\u00e3o do Estado que \u00e9 a\u00e7\u00e3o\u201d, afirma Sadi Machado, procurador da Rep\u00fablica em Altamira. \u201cH\u00e1 uma m\u00e1 vontade ativa por parte do governo federal de deixar de implementar a reforma agr\u00e1ria, que \u00e9 uma pol\u00edtica p\u00fablica do Estado. Isso provoca conflitos, produz v\u00edtimas e destr\u00f3i o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/medio_ambiente\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">meio ambiente<\/a>. Claramente h\u00e1 um confronto entre a \u00e1rea t\u00e9cnica [de carreira] do Incra, \u00f3rg\u00e3o que foi bastante esvaziado na regi\u00e3o, e a condu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do \u00f3rg\u00e3o. Esta situa\u00e7\u00e3o se agravou neste ano.\u201d<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Ainda hoje, parte da sociedade e mesmo dos ambientalistas n\u00e3o entende que lutar pela reforma agr\u00e1ria \u00e9 lutar pela floresta em p\u00e9. Sem justi\u00e7a social na Amaz\u00f4nia n\u00e3o haver\u00e1 justi\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">7) Por que agora?<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">As mortes recentes de ind\u00edgenas e de camponeses ligados a conflitos agr\u00e1rios, assim como as pris\u00f5es abusivas e a crescente criminaliza\u00e7\u00e3o das ONGs, deixam claro uma ofensiva da grilagem e de seus apoiadores, dentro e fora do Estado, em toda a regi\u00e3o. Os sinais de que a viol\u00eancia s\u00f3 vai aumentar est\u00e3o por toda a parte. Por que agora?<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O cientista social Maur\u00edcio Torres, professor da Universidade Federal do Par\u00e1, em Bel\u00e9m, e um dos maiores especialistas em conflitos agr\u00e1rios na Amaz\u00f4nia, apontou alguns caminhos de reflex\u00e3o para esta coluna, que reproduzo aqui:<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">\u201cA grilagem acontece em dois planos. Um no ch\u00e3o, onde se toma a \u00e1rea materialmente. Pistoleiros \u2018limpam\u2019 a terra de seus ocupantes leg\u00edtimos (ind\u00edgenas e camponeses), e a floresta \u00e9 derrubada para consolidar a apropria\u00e7\u00e3o. Outro plano \u00e9 no papel: quando, por meio da qu\u00edmica m\u00e1gica dos cart\u00f3rios ou dos \u00f3rg\u00e3os fundi\u00e1rios, acontece o destacamento da terra do er\u00e1rio p\u00fablico e sua transfer\u00eancia para o patrim\u00f4nio privado do grileiro. A viol\u00eancia (e incluo aqui o desmatamento como sua variante) \u00e9 o principal instrumento de controle de terras griladas. Quando esse mercado sujo de terras agita-se, a viol\u00eancia, como mecanismo da grilagem, \u00e9 mais acionada. As assustadoras facilidades criadas para a consuma\u00e7\u00e3o no papel do saque de terras p\u00fablicas, que transformam o grileiro em \u2018propriet\u00e1rio\u2019 das terras das quais se apropriou ilegalmente, incendiou esse mercado. Falo, em especial, da MP 910 \u2015 n\u00e3o s\u00f3 da sua promulga\u00e7\u00e3o, mas, mesmo antes, do efeito gerado pela especula\u00e7\u00e3o em torno dela\u201d.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A Medida Provis\u00f3ria 910 \u00e9 a MP da Grilagem produzida por Bolsonaro em 10 de dezembro. Antes dela, houve a MP da Grilagem de Lula, em 2009, e a MP da Grilagem de Michel Temer, em 2017. \u00c9 importante recuperar o processo, porque do contr\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel compreender o presente.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O programa Terra Legal, de 2009, ainda no Governo Lula, \u00e9 citado por Torres e outros pesquisadores como um marco no processo de legaliza\u00e7\u00e3o da grilagem na Amaz\u00f4nia. Ele foi institu\u00eddo pela Medida Provis\u00f3ria 458, sancionada na forma da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2007-2010\/2009\/lei\/l11952.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">lei 11.952<\/a>. Entre outras a\u00e7\u00f5es, regularizava todos os im\u00f3veis em terras p\u00fablicas na Amaz\u00f4nia Legal, com at\u00e9 1.500 hectares, desde que ocupados at\u00e9 dezembro de 2004. No discurso, o programa serviria para regularizar a situa\u00e7\u00e3o dos pequenos posseiros, aqueles que viviam na terra e viviam da terra. Na pr\u00e1tica, o programa serviu para regularizar a grilagem praticada pelos grandes. Na \u00e9poca, foi apelidado de \u201cMP da Grilagem\u201d e, depois, de \u201cLei da Grilagem\u201d.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Os n\u00fameros ajudam a clarear os objetivos: os pequenos eram quase 90%, mas ocupavam menos de 19% do territ\u00f3rio; j\u00e1 os grandes eram menos de 6%, mas ocupavam 63% do territ\u00f3rio. Para os pequenos, a lei j\u00e1 existente era capaz de solucionar a situa\u00e7\u00e3o e corrigir injusti\u00e7as. N\u00e3o era necess\u00e1rio criar nada novo. Assim, afirma Torres, o programa Terra Legal foi pensado para legalizar a grilagem.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">O novo e controverso C\u00f3digo Florestal, de 2012, aprimorou ainda mais produ\u00e7\u00e3o de legalidade onde antes havia crime. Mais tarde, com\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/michel_temer\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Michel Temer<\/a>\u00a0e um Congresso explicitamente corrupto, dominado pelos ruralistas, o processo se aprimorou e acelerou. A\u00a0<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2015-2018\/2017\/lei\/L13465.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">lei 13.465\/17<\/a>, nascida da Medida Provis\u00f3ria 759, foi sancionada em julho de 2017 por Temer. Tamb\u00e9m \u00e9 conhecida como \u201cLei da Grilagem\u201d.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Com a desculpa de \u201cregularizar\u201d a situa\u00e7\u00e3o de pessoas que muitos anos atr\u00e1s ocuparam \u00e1reas p\u00fablicas \u201cde boa f\u00e9\u201d, para viver nela, a lei permitiu que grileiros que ocuparam terras p\u00fablicas sabendo que eram p\u00fablicas at\u00e9 2011 pudessem \u201cregularizar\u201d seus \u201cgrilos\u201d at\u00e9 2.500 hectares, uma \u00e1rea equivalente a 57 Vaticanos. Basta expandir a produ\u00e7\u00e3o de \u201claranjas\u201d e os grilos s\u00e3o legalizados de 2.500 em 2.500 hectares. Neste ato \u201clegal\u201d, Temer e o Congresso anistiaram grileiros. N\u00e3o s\u00f3 os anistiaram, como converteram criminosos em \u201ccidad\u00e3os de bem\u201d, totalmente dentro da lei, ladr\u00f5es de terra p\u00fablica em fazendeiros, quadrilhas criminosas em empresas.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Ao final do primeiro ano de governo, Bolsonaro criou a sua MP da Grilagem. N\u00e3o h\u00e1 precedentes de algo t\u00e3o escandaloso, pelo menos n\u00e3o no que formalmente tem se chamado de democracia. A MP da Grilagem de Bolsonaro \u00e9 uma \u201c<i>masterpiece<\/i>\u201d da legaliza\u00e7\u00e3o da bandidagem. Com a mesma desculpa usada por Lula e depois por Temer, a da \u201cregulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria\u201d, agora \u00e9 poss\u00edvel legalizar terras roubadas da Uni\u00e3o at\u00e9 dezembro de 2018. Em resumo: voc\u00ea rouba do patrim\u00f4nio p\u00fablico, destr\u00f3i a floresta amaz\u00f4nica e, um ano depois, vira latifundi\u00e1rio legalizado e vai gozar a vida como \u201ccidad\u00e3o de bem\u201d.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">A mesma medida provis\u00f3ria tamb\u00e9m aumentou para at\u00e9 15 m\u00f3dulos o tamanho da \u00e1rea que dispensa vistoria do Incra. Em alguns locais da Amaz\u00f4nia, isso significa mais de 1.500 hectares, O processo \u00e9 praticamente autodeclarat\u00f3rio. O criminoso rouba um peda\u00e7o da floresta, diz ao governo que a \u00e1rea \u00e9 dele e vira fazendeiro. Nenhum funcion\u00e1rio vai sequer checar. Como algu\u00e9m acredita que vai sobrar floresta amaz\u00f4nica com este est\u00edmulo oficial para saque\u00e1-la?<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Maur\u00edcio Torres analisa o impacto: \u201cH\u00e1 dois efeitos. O primeiro \u00e9 o \u00f3bvio: a busca por terras p\u00fablicas n\u00e3o destinadas aumentou, pois agora \u00e9 s\u00f3 declarar que \u00e9 o dono para se tornar dono. Essa situa\u00e7\u00e3o aumenta tamb\u00e9m o conflito de grileiro comendo grileiro e, tamb\u00e9m, de grileiro expulsando campon\u00eas e ind\u00edgena. Mas h\u00e1 um outro efeito, este mais sutil. A promulga\u00e7\u00e3o de algo dessa dimens\u00e3o em benef\u00edcio do grileiro, como \u00e9 o caso da MP 910, passa uma mensagem de empoderamento, fazendo essa gente se sentir autorizada a tudo\u201d.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">As \u00e1reas que hoje est\u00e3o em lit\u00edgio judicial, ocupadas por agricultores familiares, mas disputadas por grileiros, v\u00e3o ser tomadas \u00e0 bala. \u00c9 o que est\u00e1 acontecendo neste momento na Amaz\u00f4nia e particularmente em Anapu, que t\u00eam muitas \u00e1reas em lit\u00edgio. Por isso mais lideran\u00e7as est\u00e3o amea\u00e7adas de morte e grileiros t\u00eam dito nas ruas que n\u00e3o est\u00e3o nem a\u00ed pra juiz. Por que estariam? Se o Congresso n\u00e3o barrar essa MP, a Amaz\u00f4nia se tornar\u00e1 uma floresta de cad\u00e1veres. N\u00e3o s\u00f3 de \u00e1rvores, mas de gente.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">\u201cDesde a constru\u00e7\u00e3o das grandes rodovias na Amaz\u00f4nia, talvez nada tenha tanto efeito sobre o aumento da viol\u00eancia e do desmatamento do que essa MP pode gerar\u201d, afirma Maur\u00edcio Torres. \u201cA medida ir\u00e1 privatizar dezenas de milh\u00f5es de hectares, ningu\u00e9m sabe ao certo, mas creio que algo entre 40 e 60 milh\u00f5es de hectares. Isso significa a emiss\u00e3o de autoriza\u00e7\u00f5es legais para a derrubada de 20% da floresta nas terras tituladas, algo em torno de 10 milh\u00f5es de hectares. E isso s\u00f3 contando o que pode ser legalmente autorizado. Mesmo que uma parte disso j\u00e1 esteja desmatada \u2015 e est\u00e1 mesmo \u2015 o impacto ser\u00e1 tr\u00e1gico.\u201d<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\" style=\"text-align: justify;\">8) Como proteger Erasmo?<\/h3>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Em 2005, um dos principais grileiros da regi\u00e3o deu carona a Dorothy Stang. Queria dar a ela um aviso. A mission\u00e1ria depois relataria as palavras deste homem: \u201cSe algu\u00e9m \u2018invadir\u2019 as \u2018minhas\u2019 terras, vai ter sangue at\u00e9 a canela\u201d. Este homem, assim como meia d\u00fazia de outros, todos eles bem conhecidos de quem vive na regi\u00e3o, tem feito provoca\u00e7\u00f5es em Altamira e regi\u00e3o. \u00c9 um sinalizador.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Parte do crescimento da viol\u00eancia e da crescente desenvoltura destes personagens miram nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es municipais. Eles sentem que j\u00e1 est\u00e3o no governo, em n\u00edvel federal. Mas querem ocupar tamb\u00e9m o poder local para consolidar \u2015 e facilitar \u2015 a convers\u00e3o do p\u00fablico no privado. Se nada foi feito para barrar a viol\u00eancia, as elei\u00e7\u00f5es municipais de 2020 poder\u00e3o se tornar uma carnificina nas regi\u00f5es amaz\u00f4nicas de conflito.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Neste cen\u00e1rio em que a lei \u00e9 usada para proteger o crime contra o patrim\u00f4nio p\u00fablico, \u00e9 poss\u00edvel imaginar como est\u00e3o vivendo \u2015 e morrendo \u2015 os mais fr\u00e1geis. Como Erasmo, lideran\u00e7a que luta por 300 fam\u00edlias de agricultores familiares em terras disputadas por grileiros. Na noite de 12 de dezembro, coincid\u00eancia ou n\u00e3o, dois dias depois da assinatura da MP da Grilagem por Bolsonaro, um homem que trabalha para um dos grileiros das \u00e1reas em disputa foi at\u00e9 a casa onde Erasmo vive com os pais, j\u00e1 velhos, e a companheira. Antes de chegar l\u00e1, j\u00e1 tinha batido numa mulher e disparado tr\u00eas tiros. Uma das balas passou rente a uma vizinha que voltava da igreja. Diante da casa de Erasmo, o capanga do grileiro gritou e xingou. Queria que Erasmo sa\u00edsse para falar com ele. A fam\u00edlia se trancou dentro de casa.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Quando Erasmo conta o que aconteceu, seu corpo treme sobre a cadeira de pl\u00e1stico branca.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Esta \u00e9 a vida de muitos que protegem a floresta para todos n\u00f3s. Esta \u00e9 a vida de Erasmo, enquanto n\u00e3o for morte.<\/p>\n<p class=\"\" style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1 avisado.<\/p>\n<pre>Fonte: El Pa\u00eds<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por que a viol\u00eancia na Amaz\u00f4nia aumentou no final de 2019 e por que a sociedade precisa se organizar para barrar as 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