{"id":59439,"date":"2023-11-21T10:57:00","date_gmt":"2023-11-21T13:57:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogopara.com.br\/?p=59439"},"modified":"2023-11-20T12:00:50","modified_gmt":"2023-11-20T15:00:50","slug":"ainda-tenho-medo-de-voltar-ao-brasil-diz-pesquisadora-de-agrotoxicos-em-auto-exilio-na-franca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/2023\/11\/21\/ainda-tenho-medo-de-voltar-ao-brasil-diz-pesquisadora-de-agrotoxicos-em-auto-exilio-na-franca","title":{"rendered":"\u2018Ainda tenho medo de voltar ao Brasil\u2019, diz pesquisadora de agrot\u00f3xicos em auto-ex\u00edlio na Fran\u00e7a"},"content":{"rendered":"<div class=\"mc-column content-text active-extra-styles active-capital-letter\" data-block-type=\"unstyled\" data-block-weight=\"104\" data-block-id=\"2\">\n<p class=\" content-text__container theme-color-primary-first-letter\" style=\"text-align: justify;\" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\">A pesquisadora<strong>\u00a0Larissa Bombardi\u00a0<\/strong>n\u00e3o volta ao Brasil h\u00e1 tr\u00eas anos, o mesmo tempo que est\u00e1 sem ver v\u00ea a m\u00e3e. Ela mesma m\u00e3e solo, vive com os dois filhos em Paris, na Fran\u00e7a, exilada e com medo de voltar ao pa\u00eds onde nasceu, estudou e desenvolveu o atlas\u00a0<em>Geografia do Uso de Agrot\u00f3xicos no Brasil e Conex\u00f5es com a Uni\u00e3o Europeia,\u00a0<\/em>motivo pelo qual passou a ser amea\u00e7ada. A publica\u00e7\u00e3o denuncia a exporta\u00e7\u00e3o ao Brasil de agrot\u00f3xicos produzidos e banidos na Europa, al\u00e9m de fazer um mapeamento do potencial retorno dessas subst\u00e2ncias qu\u00edmicas aos consumidores europeus por meio de produtos importados daqui.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"wall protected-content\">\n<div class=\"mc-column content-text active-extra-styles \" style=\"text-align: justify;\" data-block-type=\"unstyled\" data-block-weight=\"61\" data-block-id=\"4\">\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\">Ap\u00f3s lan\u00e7ar o livro na Europa, em 2019, Bombardi, ent\u00e3o professora do Departamento de Geografia da Universidade de S\u00e3o Paulo, passou a receber ataques virtuais di\u00e1rios. O \u00e1pice foi quando assaltaram sua casa &#8211; epis\u00f3dio que cogita estar relacionado \u00e0s amea\u00e7as sofridas at\u00e9 ent\u00e3o. Foi ent\u00e3o que a pesquisadora resolveu mudar-se para Bruxelas, na B\u00e9lgica, com um contrato de p\u00f3s-doutorado.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mc-column content-text active-extra-styles \" style=\"text-align: justify;\" data-block-type=\"unstyled\" data-block-weight=\"121\" data-block-id=\"5\">\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\">Bombardi conta que o in\u00edcio da vida no ex\u00edlio foi muito dif\u00edcil, n\u00e3o s\u00f3 para ela, mas para os filhos, que tiveram que aprender outra l\u00edngua de uma hora para outra, al\u00e9m de se adaptarem a uma escola nova. \u201cNossa, esse come\u00e7o foi terr\u00edvel. Agora j\u00e1 est\u00e1 muito melhor. O mais velho j\u00e1 fala franc\u00eas fluentemente e o pequeno tamb\u00e9m fala super bem. As coisas foram se ajustando. Imagina, eu participando de reuni\u00e3o de pais sem falar nada de franc\u00eas. Voc\u00ea se joga em um universo e tem que ser malabarista, tendo que lidar com tantas inst\u00e2ncias diferentes. Antes de virmos, n\u00e3o contei para as crian\u00e7as das amea\u00e7as. Ficaram sabendo de tudo aqui\u201d, diz a pesquisadora em entrevista a\u00a0<em>Marie Claire<\/em>.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mc-column content-text active-extra-styles \" style=\"text-align: justify;\" data-block-type=\"unstyled\" data-block-weight=\"88\" data-block-id=\"7\">\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\">O novo livro,\u00a0<em>Agrot\u00f3xicos e o Colonialismo Qu\u00edmico<\/em>\u00a0(Elefante, 108 p\u00e1gs., R$ 40), foi lan\u00e7ado no final deste ano, mas Bombardi n\u00e3o pode vir ao Brasil participar do evento devido ao temor de novos ataques. Ela lembra que o Brasil continua l\u00edder de assassinatos a defensores ambientais no mundo. \u201c\u00c9 muito triste. Iria agora em dezembro, at\u00e9 para lan\u00e7ar o livro, mas para isso precisaria estar inscrita em um programa de prote\u00e7\u00e3o de testemunha. Desisti quando soube que n\u00e3o teria o esquema de seguran\u00e7a que imaginei que teria\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mc-column content-text active-extra-styles \" style=\"text-align: justify;\" data-block-type=\"unstyled\" data-block-weight=\"85\" data-block-id=\"8\">\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\">Na entrevista a seguir, Bombardi conta das dificuldades que enfrenta como pesquisadora e m\u00e3o solo no ex\u00edlio, e fala sobre o novo livro, que denuncia os impactos dos agrot\u00f3xicos a mulheres e crian\u00e7as: &#8220;Para al\u00e9m dos n\u00fameros absolutos de mulheres intoxicadas, tem algo invis\u00edvel que \u00e9 essa maneira de atingir diferentemente as mulheres e os homens. Do outro lado, quem mais denuncia os danos e quem protagoniza as experi\u00eancias agroecol\u00f3gicas tamb\u00e9m s\u00e3o as mulheres. Ent\u00e3o achei que era hora de olhar para isso com calma&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mc-column content-text active-extra-styles \" style=\"text-align: justify;\" data-block-type=\"unstyled\" data-block-weight=\"160\" data-block-id=\"9\">\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"><strong>MARIE CLAIRE Nos falamos da \u00faltima vez em maio de 2021, quando voc\u00ea tinha acabado de chegar \u00e0 B\u00e9lgica. Como foram esses dois anos para voc\u00ea? Continuou morando fora do Brasil?<br \/>\nLARISSA BOMBARDI\u00a0<\/strong>Continuo fora do Brasil. Parece que foram duas vidas em uma. Imagina, foi muita coisa em um per\u00edodo curto de tempo. Estou num programa do governo franc\u00eas para artistas e pesquisadores exilados, que se chama Pause. Vim para Europa em abril de 2021 com um contrato de p\u00f3s-doutorado na Universidade Livre de Bruxelas, sobre criminologia verde na Amaz\u00f4nia. Organizei uma edi\u00e7\u00e3o especial de uma revista cient\u00edfica da universidade. Depois fiquei um ano fazendo consultoria e palestras. At\u00e9 que finalmente fui para Paris, em junho de 2022, e tomei contato com esse programa. O governo financia parte e o instituto de pesquisa paga o restante. Estou na Universidade Cidade de Paris, continuo nesse tema mas com abordagem de g\u00eanero, focando nos impactos dos agrot\u00f3xicos em mulheres e crian\u00e7as.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mc-column content-text active-extra-styles \" style=\"text-align: justify;\" data-block-type=\"unstyled\" data-block-weight=\"123\" data-block-id=\"11\">\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"><strong>MC Voc\u00ea ainda se sente insegura para voltar ao Brasil? Quais s\u00e3o seus planos?<br \/>\nLB\u00a0<\/strong>Totalmente insegura. Com o governo Lula agora h\u00e1 uma avenida aberta para prote\u00e7\u00e3o de direitos humanos, mas o Brasil continua l\u00edder de assassinatos de defensores ambientais, mesmo no primeiro semestre de 2023. Em um pa\u00eds onde o agroneg\u00f3cio e a minera\u00e7\u00e3o d\u00e3o a nota na economia, com tudo que isso significa, com toda a viol\u00eancia hist\u00f3rica, n\u00e3o tem chance. \u00c9 muito triste. Faz tr\u00eas anos que n\u00e3o volto ao Brasil, que n\u00e3o vejo minha m\u00e3e. Iria agora para lan\u00e7ar o livro, mas para isso precisaria estar inscrita em um programa de prote\u00e7\u00e3o de testemunha. Desisti quando soube que n\u00e3o teria o esquema de seguran\u00e7a que imaginei que teria.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mc-column content-text active-extra-styles \" style=\"text-align: justify;\" data-block-type=\"unstyled\" data-block-weight=\"79\" data-block-id=\"12\">\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"><strong>MC Voc\u00ea recebeu mais alguma amea\u00e7a desde que foi para a Europa?<br \/>\nLB\u00a0<\/strong>Diretamente n\u00e3o, mas coordenei o n\u00famero especial dessa revista, que aborda da quest\u00e3o agr\u00e1ria. A revista sofreu um baita ataque de hacker, que nunca tinha acontecido, ficou um m\u00eas fora do ar. Gastaram muito dinheiro e tempo para colocar a revista no ar de novo. A equipe de TI descobriu que os ataques vieram do Brasil, de Campinas e do Goi\u00e1s. Claramente foi uma tentativa de silenciamento.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mc-column content-text active-extra-styles \" style=\"text-align: justify;\" data-block-type=\"unstyled\" data-block-weight=\"162\" data-block-id=\"13\">\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"><strong>MC Voc\u00ea est\u00e1 com seus dois filhos, n\u00e9? Voc\u00ea \u00e9 m\u00e3e solo? Como est\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o com eles?<br \/>\nLB<\/strong> Sou m\u00e3e solo. Foi muito dif\u00edcil\u2026O meu filho mais novo, de 11, \u00e9 muito t\u00edmido e levou bastante tempo para falar portugu\u00eas, come\u00e7ou a falar com 3 anos. Quando chegou aqui e ele come\u00e7ou na escola, ficou totalmente em choque. N\u00e3o conseguia se comunicar, n\u00e3o arriscava. A professora achava que ele tinha alguma quest\u00e3o cognitiva, ent\u00e3o um dia me perguntou coisas relacionadas \u00e0 psicomotricidade, como: ele sabe pular com uma perna s\u00f3? Sabe cantar? Ela falou que ele ficava na classe o tempo todo sozinho, sussurrando para ele mesmo em portugu\u00eas. Levei os cadernos da escola dele do Brasil, e ela ficou impressionada. Falou para eu deixar os cadernos para ele se orgulhar dele mesmo e os alunos da classe tamb\u00e9m verem do que ele \u00e9 capaz. Ele estava sendo entendido como uma crian\u00e7a lim\u00edtrofe quando n\u00e3o \u00e9. Para ele foi muito traum\u00e1tico.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mc-column content-text active-extra-styles \" style=\"text-align: justify;\" data-block-type=\"unstyled\" data-block-weight=\"104\" data-block-id=\"15\">\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\">O mais velho, de 14, j\u00e1 estava naquela fase de reclamar: \u201cpor causa do seu trabalho fui obrigado a deixar meu pai, minha av\u00f3, meu cachorro, meus amigos\u201d. Nossa, esse come\u00e7o foi terr\u00edvel. Agora j\u00e1 est\u00e1 muito melhor. O mais velho j\u00e1 fala franc\u00eas fluentemente e o pequeno tamb\u00e9m fala super bem. As coisas foram se ajustando. Imagina, eu participando de reuni\u00e3o de pais sem falar nada de franc\u00eas. Voc\u00ea se joga em um universo e tem que ser malabarista, tendo que lidar com tantas inst\u00e2ncias diferentes. Antes de virmos, n\u00e3o contei para as crian\u00e7as das amea\u00e7as. Ficaram sabendo de tudo aqui.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mc-column content-text active-extra-styles \" style=\"text-align: justify;\" data-block-type=\"unstyled\" data-block-weight=\"54\" data-block-id=\"17\">\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"><strong>MC Voc\u00ea tem planos de voltar ao Brasil no futuro?<br \/>\nLB<\/strong>\u00a0N\u00e3o tenho. Estou afastada da USP, sem remunera\u00e7\u00e3o, e prestando concurso na Fran\u00e7a e na B\u00e9lgica. N\u00e3o acho que v\u00e1 ser um ambiente seguro para viver nos pr\u00f3ximos anos, ainda mais com crian\u00e7a e adolescente. N\u00e3o d\u00e1 para viver numa carga de amea\u00e7a.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mc-column content-text active-extra-styles \" style=\"text-align: justify;\" data-block-type=\"unstyled\" data-block-weight=\"192\" data-block-id=\"18\">\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"><strong>MC Na \u00e9poca em que falamos voc\u00ea tinha lan\u00e7ado sua pesquisa\u00a0<\/strong><strong><em>Geografia das Assimetrias: Colonialismo Molecular e C\u00edrculo de Envenenamento\u00a0<\/em><\/strong><strong>sobre o Acordo Mercosul e Uni\u00e3o Europeia. Neste livro de agora, no que a sua pesquisa avan\u00e7ou?<br \/>\nLB<\/strong> Dois avan\u00e7os merecem ser falados. O primeiro \u00e9 o avan\u00e7o cartogr\u00e1fico comparando dados do atlas anterior com os dados novos. O quadro piorou muito com rela\u00e7\u00e3o aos agrot\u00f3xicos. Em 2010, tivemos 2.300 pessoas intoxicadas. Em 2019 esse n\u00famero foi de 5.189. O dobro. Tudo piorou: n\u00famero de mortes por agrot\u00f3xicos, n\u00famero m\u00e9dio de beb\u00eas intoxicados. Em tudo o que diz respeito aos impactos dos agrot\u00f3xicos, nos \u00faltimos 10 anos sofremos uma piora de um quadro que j\u00e1 era p\u00e9ssimo. Tamb\u00e9m mapiei o uso de algumas subst\u00e2ncias. A atrazina, por exemplo, subst\u00e2ncia proibida na Uni\u00e3o Europeia, aumentou 575% o uso na regi\u00e3o Norte, a Amaz\u00f4nia brasileira. Ela est\u00e1 ligada a c\u00e2ncer de est\u00f4mago, de pr\u00f3stata, de tire\u00f3ide, de ov\u00e1rio, mal de Parkinson e m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o fetal. O glifosato no mesmo per\u00edodo aumentou 218% na regi\u00e3o da Amaz\u00f4nia, em especial Mato Grosso e Tocantins. Mato Grosso aumentou mais de 400% o uso entre 2010 e 2019.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mc-column content-text active-extra-styles \" style=\"text-align: justify;\" data-block-type=\"unstyled\" data-block-weight=\"54\" data-block-id=\"20\">\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"><strong>MC E quais s\u00e3o as causas desse aumento?<br \/>\nLB\u00a0<\/strong>A intensifica\u00e7\u00e3o de duas coisas: tanto o aumento da \u00e1rea plantada de soja, principalmente, quanto o avan\u00e7o dos cultivos transg\u00eanicos, geneticamente modificados para resistir a determinados agrot\u00f3xicos. Estou falando do aumento do uso do glifosato, principalmente, associado a c\u00e2ncer de mama, autismo e desregula\u00e7\u00e3o end\u00f3crina.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mc-column content-text active-extra-styles \" style=\"text-align: justify;\" data-block-type=\"unstyled\" data-block-weight=\"111\" data-block-id=\"21\">\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"><strong>MC Essas subst\u00e2ncias s\u00e3o potencialmente cancer\u00edgenas ou podemos cravar que s\u00e3o cancer\u00edgenas de fato? Existe uma disputa em torno disso?<br \/>\nLB\u00a0<\/strong>Existe uma disputa fort\u00edssima, com lobby ferrenho das ind\u00fastrias de agrot\u00f3xicos, mesmo aqui na Uni\u00e3o Europeia, que est\u00e1 por esses dias para decidir se renova ou n\u00e3o a licen\u00e7a do glifosato. O pesquisador alem\u00e3o Peter Closing, maior especialista em glifosato, escreveu um texto discutindo como acontece esse lobby, como as empresas encomendam pesquisas. Todos os artigos que tenho lido, isentos, n\u00e3o financiados pela ind\u00fastria, de autonomia cient\u00edfica, mostram correla\u00e7\u00e3o entre c\u00e2ncer e glifosato. H\u00e1 unanimidade dentre os cientistas independentes, ou seja, n\u00e3o financiados pelo setor produtivo, em mostrar essa correla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mc-column content-text active-extra-styles \" style=\"text-align: justify;\" data-block-type=\"unstyled\" data-block-weight=\"185\" data-block-id=\"22\">\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"><strong>MC Por que voc\u00ea decidiu dar um enfoque de g\u00eanero ao tema de agrot\u00f3xicos?<br \/>\nLB\u00a0<\/strong>Para a inf\u00e2ncia eu j\u00e1 estava olhando, me indignava pensar que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds com Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente e tem esse quadro de intoxica\u00e7\u00e3o. Quando vi pela primeira vez que cerca de 20% da popula\u00e7\u00e3o intoxicada \u00e9 de crian\u00e7as e adolescentes de at\u00e9 19 anos, pensei que n\u00e3o era poss\u00edvel. Comecei a mapear as faixas et\u00e1rias maiores e menores. O debate de g\u00eanero veio da vontade de colaborar com esse projeto da Fran\u00e7a, com alguns grupos do Brasil. J\u00e1 tinha feito um levantamento de gestantes intoxicadas com agrot\u00f3xicos, ent\u00e3o achei que valeria a pena trazer esse olhar. Tem o recorte de classe, ra\u00e7a e tamb\u00e9m de g\u00eanero quando a gente olha para a popula\u00e7\u00e3o intoxicada. Para al\u00e9m dos n\u00fameros absolutos de mulheres intoxicadas, tem algo invis\u00edvel que \u00e9 essa maneira de atingir diferentemente as mulheres e os homens. Do outro lado, quem mais denuncia os danos e quem protagoniza as experi\u00eancias agroecol\u00f3gicas s\u00e3o as mulheres. Ent\u00e3o achei que era hora de olhar para isso com calma.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mc-column content-text active-extra-styles \" style=\"text-align: justify;\" data-block-type=\"unstyled\" data-block-weight=\"163\" data-block-id=\"24\">\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"><strong>MC E o que voc\u00ea concluiu desse levantamento com recorte de g\u00eanero?<br \/>\nLB\u00a0<\/strong>70% dos casos s\u00e3o de homens. Mas esses n\u00fameros do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade dizem respeito aos casos de intoxica\u00e7\u00e3o aguda: a pessoa passa mal em contato com a subst\u00e2ncia e \u00e9 atendida pelo servi\u00e7o de sa\u00fade. Ent\u00e3o os casos de c\u00e2ncer, desregula\u00e7\u00e3o end\u00f3crino, m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o fetal, aborto espont\u00e2neo n\u00e3o s\u00e3o computados da mesma forma. Crian\u00e7as que desenvolveram puberdade precoce no Cear\u00e1, beb\u00eas de dois anos com pelos pubianos e mamas. Abortos sucessivos no Mato Grosso, em fun\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o. \u00c9 algo que afeta os corpos das mulheres de forma diferente do que dos homens. Uma gesta\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 um per\u00edodo de muita ang\u00fastia. Quando uma gestante sabe que \u00e9 um caso de m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o fetal, \u00e9 uma dor que atinge as mulheres de forma muito perversa. E quem vai cuidar dos doentes todos intoxicados por agrot\u00f3xicos, das crian\u00e7as, dos homens, dos mais velhos? Tamb\u00e9m fica nas costas das mulheres.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mc-column content-text active-extra-styles \" style=\"text-align: justify;\" data-block-type=\"unstyled\" data-block-weight=\"136\" data-block-id=\"25\">\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"><strong>MC Voc\u00ea afirma que as mulheres est\u00e3o na linha de frente das propostas alternativas e mais saud\u00e1veis de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. Por que isso ocorre?<br \/>\nLB<\/strong>\u00a0S\u00e3o elas que est\u00e3o olhando para as gera\u00e7\u00f5es futuras e para a quest\u00e3o da sa\u00fade, isso \u00e9 hist\u00f3rico da nossa sociedade. Tamb\u00e9m pela forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que as empodera depois de estarem envolvidas em movimentos sociais, feministas, v\u00e3o para frente, \u00e0 luta. Tem um grupo na Argentina, de 2002, as m\u00e3es de Ituzaing\u00f3, de C\u00f3rdoba, um munic\u00edpio com produ\u00e7\u00e3o de soja. Eram chamadas de loucas, mas foram para cima. Elas come\u00e7aram a relatar casos de l\u00e1bio leporino, m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o fetal, falta de mand\u00edbula, c\u00e2ncer. Se organizaram e tomaram a frente. Isso h\u00e1 20 anos, quando mal se falava desse assunto. Normalmente quem \u00e9 mais sens\u00edvel a esse tema s\u00e3o as mulheres.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mc-column content-text active-extra-styles \" style=\"text-align: justify;\" data-block-type=\"unstyled\" data-block-weight=\"148\" data-block-id=\"26\">\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"><strong>MC Como voc\u00ea avalia o primeiro ano do governo Lula nesse aspecto?<br \/>\nLB\u00a0<\/strong>T\u00edmido por um lado e ousado por outro. Ousado quando o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio faz um esfor\u00e7o grande, organizou o workshop em 6 de outubro, sobre agrot\u00f3xicos e sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o brasileira. O ministro inaugurou uma linha dentro do minist\u00e9rio ligada \u00e0 difus\u00e3o da ci\u00eancia. Tem esse comprometimento do minist\u00e9rio com a transi\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica e a diminui\u00e7\u00e3o do uso dessas subst\u00e2ncias. Acho isso louv\u00e1vel e corajoso. Por outro lado, vivemos ainda um n\u00famero importante de autoriza\u00e7\u00f5es de agrot\u00f3xicos todo m\u00eas. Se o governo Lula quer ter esse protagonismo como l\u00edder do G20, na discuss\u00e3o global ambiental, tem que escolher um caminho. Espero que juntos os minist\u00e9rios da Sa\u00fade, Meio Ambiente e Desenvolvimento Agr\u00e1rio puxem essa discuss\u00e3o para o Brasil trazer um legado ao mundo no sentido de construir uma legisla\u00e7\u00e3o internacional para esse tema.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mc-column content-text active-extra-styles \" style=\"text-align: justify;\" data-block-type=\"unstyled\" data-block-weight=\"99\" data-block-id=\"28\">\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"><strong>MC Voc\u00ea pode explicar o que significa o conceito de colonialismo qu\u00edmico, abordado no seu livro?<br \/>\nLB\u00a0<\/strong>No Brasil, muitas vezes esses agrot\u00f3xicos s\u00e3o usados como armas qu\u00edmicas em conflitos fundi\u00e1rios, para despejar ind\u00edgenas, camponeses, em \u00e1reas onde h\u00e1 inten\u00e7\u00e3o de avan\u00e7o do agroneg\u00f3cio. Um dos mapas deste livro \u00e9 justamente das popula\u00e7\u00f5es atingidas por pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea de agrot\u00f3xicos. Essas empresas produtoras de agrot\u00f3xicos est\u00e3o sediadas na Uni\u00e3o Europeia, vendem para fora subst\u00e2ncias proibidas aqui, que s\u00e3o usadas tamb\u00e9m nesse processo de degrada\u00e7\u00e3o ambiental. Al\u00e9m do desmatamento f\u00edsico, temos o desmatamento qu\u00edmico. \u00c9 um mecanismo violento dessa nova ordem mundial.<\/p>\n<\/div>\n<div data-track-category=\"multicontent\" data-track-action=\"ultimo chunk conteudo\" data-track-noninteraction=\"false\" data-track-scroll=\"view\">\n<div class=\"mc-column content-text active-extra-styles \" data-block-type=\"unstyled\" data-block-weight=\"126\" data-block-id=\"29\">\n<p class=\" content-text__container \" style=\"text-align: justify;\" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"><strong>MC Enquanto a agenda anti-agrot\u00f3xicos avan\u00e7a dentro da Europa, para fora avan\u00e7a uma pol\u00edtica de contamina\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses do Sul global?<br \/>\nLB<\/strong>\u00a0Sim, e isso \u00e9 uma discuss\u00e3o que est\u00e1 crescendo. A Fran\u00e7a decidiu parar com as exporta\u00e7\u00f5es de agrot\u00f3xicos proibidos. A B\u00e9lgica seguiu essa decis\u00e3o, h\u00e1 dois meses. A Comiss\u00e3o Europeia tinha se comprometido a trazer essa discuss\u00e3o e adotar a posi\u00e7\u00e3o em n\u00edvel europeu, mas isso n\u00e3o avan\u00e7ou. Tem um lobby fort\u00edssimo aqui das empresas. Quando a Fran\u00e7a votou essa lei, as ind\u00fastrias disseram que ia contra a lei da livre iniciativa e a Suprema Corte disse que a vida humana estava acima dos interesses econ\u00f4micos. \u00c9 um debate enorme. A Uni\u00e3o Europeia surfa e beneficia da legisla\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil dos pa\u00edses do Sul.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pesquisadora\u00a0Larissa Bombardi\u00a0n\u00e3o volta ao Brasil h\u00e1 tr\u00eas anos, o mesmo tempo que est\u00e1 sem ver v\u00ea a m\u00e3e. Ela mesma m\u00e3e solo, vive com os dois filhos em Paris, na Fran\u00e7a, exilada e com medo de voltar ao pa\u00eds onde nasceu, estudou e desenvolveu o atlas\u00a0Geografia do Uso de Agrot\u00f3xicos no Brasil e Conex\u00f5es [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":59440,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_uag_custom_page_level_css":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[203],"tags":[356,2532],"class_list":["post-59439","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-juazeiro","tag-agronegocio","tag-meio-ambiente"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/larissa-bombardi.jpg","uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/larissa-bombardi.jpg",500,314,false],"thumbnail":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/larissa-bombardi-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/larissa-bombardi-300x188.jpg",300,188,true],"medium_large":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/larissa-bombardi.jpg",500,314,false],"large":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/larissa-bombardi.jpg",500,314,false],"1536x1536":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/larissa-bombardi.jpg",500,314,false],"2048x2048":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/larissa-bombardi.jpg",500,314,false],"mantranews-slider-large":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/larissa-bombardi.jpg",500,314,false],"mantranews-featured-medium":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/larissa-bombardi-420x307.jpg",420,307,true],"mantranews-featured-long":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/larissa-bombardi-300x314.jpg",300,314,true],"mantranews-block-medium":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/larissa-bombardi-464x290.jpg",464,290,true],"mantranews-carousel-image":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/larissa-bombardi.jpg",500,314,false],"mantranews-block-thumb":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/larissa-bombardi-322x230.jpg",322,230,true],"mantranews-single-large":["https:\/\/blogopara.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/larissa-bombardi.jpg",500,314,false]},"uagb_author_info":{"display_name":"Reda\u00e7\u00e3o geral","author_link":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/author\/blogopara"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"A pesquisadora\u00a0Larissa Bombardi\u00a0n\u00e3o volta ao Brasil h\u00e1 tr\u00eas anos, o mesmo tempo que est\u00e1 sem ver v\u00ea a m\u00e3e. 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