{"id":82765,"date":"2026-01-17T10:57:20","date_gmt":"2026-01-17T13:57:20","guid":{"rendered":"https:\/\/blogopara.com.br\/?p=82765"},"modified":"2026-01-17T10:57:20","modified_gmt":"2026-01-17T13:57:20","slug":"quem-e-maria-a-menina-que-vendia-amendoim-e-cresceu-nas-noites-do-rio-vermelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/2026\/01\/17\/quem-e-maria-a-menina-que-vendia-amendoim-e-cresceu-nas-noites-do-rio-vermelho","title":{"rendered":"Quem \u00e9 Maria, a menina que vendia amendoim e cresceu nas noites do Rio Vermelho"},"content":{"rendered":"<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-5wb2lwe2pa\">Salvador, ano de 2007. Ainda faltam uns dois ou tr\u00eas ver\u00f5es para que Maria Silva dos Santos possa apreciar a vista para o sub\u00farbio soteropolitano na curva que a avenida Afr\u00e2nio Peixoto faz \u00e0 margem do bairro de Plataforma. Aos seis anos, ela n\u00e3o viaja no colo de um adulto, como faz uma crian\u00e7a qualquer daquela idade depois de embarcar em um \u00f4nibus, e isso elimina a possibilidade de janelas no seu campo de vis\u00e3o. Sem conhecer ainda as letras, Maria reconhece o seu \u00f4nibus pelo ru\u00eddo do motor e pelas cores. \u00c9 noite e a massa prolet\u00e1ria que poderia lotar os assentos j\u00e1 est\u00e1 em casa a descansar, enquanto a jornada de Maria, \u00e0quelas nove horas da noite de uma sexta-feira, \u00e9 t\u00e3o crian\u00e7a quanto ela.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-o9vokmnxsv\">Inquietos, seus p\u00e9s balan\u00e7am a vinte cent\u00edmetros do piso de metal riscadinho, t\u00edpico dos coletivos da Mercedes-Benz que circulam pela capital baiana. Entre suas pernas, sobre o banco, Maria apoia um balde pl\u00e1stico com muito cuidado para que ele n\u00e3o encoste nas suas coxas, j\u00e1 que o recipiente est\u00e1 pelando. S\u00e3o os amendoins que sa\u00edram da torra no fog\u00e3o a lenha da casa de Maria apenas minutos antes, um processo que exige aten\u00e7\u00e3o plena porque uma remessa inteira, espalhada cuidadosamente sobre uma velha travessa de alum\u00ednio, pode aparentar estar crua num instante e carbonizar em um piscar de olhos.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-3qt9c2kmow\">Com a tampa do balde, a menina abana o petisco para que consiga, logo, carreg\u00e1-lo sem correr o risco de se queimar. Mas ela n\u00e3o quer esfri\u00e1-lo completamente: Maria sabe que amendoins quentinhos vendem muito mais. Ela, ent\u00e3o, para e ventila o pr\u00f3prio rosto; finge que \u00e9 uma mulher fina e feita, com seu leque, a viajar com um motorista particular. Seu pesco\u00e7o despenca para o lado direito e ela adormece esse sonho sem perder a firmeza das m\u00e3os que impede o balde de virar. O cobrador e seu grande cora\u00e7\u00e3o batem uma moedinha no corrim\u00e3o para acordar Maria. O ponto do Rio Vermelho \u00e9 a sua parada. Ela desce para a cal\u00e7ada com alegria. O bairro \u00e9 como se fosse a sua casa. E essa casa sempre foi mais um ambiente festivo do que um destino martirizante e de constante luta, como muitos que testemunharam a sua inf\u00e2ncia poderiam pensar.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-gydikbiyfg\">\u201cEu chegava na pra\u00e7a da Dinha [Largo do Santana] e encontrava meus irm\u00e3os e outros colegas. Todo mundo fazia aquilo que hoje eu sei que \u00e9 um jeito errado de se vender: a gente colocava os amendoins sobre guardanapos nas mesas das pessoas sem falar nada, sem ningu\u00e9m ter pedido. Ent\u00e3o, para alguns, parecia uma degusta\u00e7\u00e3o gr\u00e1tis. Quando eu ia cobrar, muita gente n\u00e3o queria pagar ou dava o dinheiro de m\u00e1 vontade\u201d, recorda Maria, agora uma mulher de 25 anos, que decidiu contar a sua hist\u00f3ria na pra\u00e7a de alimenta\u00e7\u00e3o de um dos shoppings pr\u00f3ximos \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o da Lapa, no centro comercial da cidade. Ela mora no sub\u00farbio e prefere deixar o nome da supostamente perigosa comunidade onde mora desconhecido.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-lqhtjrut37\">Para falar sobre a pr\u00e1tica que come\u00e7ou cedo e moldou os rumos da sua vida, Maria colocou um vestido comprido com estampa floral verde e branca. A sua bolsa \u00e9 uma necessaire de m\u00e3o gasta e abarrotada. As unhas compridas foram decoradas com cuidado por algu\u00e9m que n\u00e3o foi ela. Seus \u00f3culos se mant\u00eam inteiros gra\u00e7as a uma fita adesiva transparente que os envolvem em v\u00e1rias partes.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-c17wfx7pyp\">\u201cTinha muita gente que beliscava [comia] o amendoim e depois fingia que n\u00e3o tinha mexido nele, mas eu via tudo, ia l\u00e1 e cobrava o meu dinheiro. Eu, com seis, sete anos era brava, n\u00e3o levava desaforo para casa. Acontecia de quererem, \u00e0s vezes, me bater, mas eu sa\u00eda correndo para escapar\u201d, recorda.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-uabqvxmf5i\">Maria modula bruscamente a voz para chamar a aten\u00e7\u00e3o de Melina, sua ca\u00e7ula de tr\u00eas anos que foge do cercadinho invis\u00edvel imposto pelo olhar da m\u00e3e para procurar conversa com as pessoas da mesa ao lado. A crian\u00e7a, muito sapeca e extrovertida, est\u00e1 enfeitada na cabe\u00e7a por um la\u00e7o cor-de-rosa e, da mesma cor, s\u00e3o seus sapatos, saia e blusa. O par de \u00f3culos escuros da menina tem arma\u00e7\u00e3o branca e uma inscri\u00e7\u00e3o acintosa com o nome de uma famosa casa de apostas. \u201cGanhou de uma propaganda de bet no Carnaval e n\u00e3o parou de usar\u201d, explica Maria.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-5008uvkczj\">A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 trazer a garotinha para o seu colo. Maria \u00e9 carinhosa e paciente com as interrup\u00e7\u00f5es de Melina para pedir aten\u00e7\u00e3o, mas o barulho intenso da passagem de som de um m\u00fasico prestes a iniciar seu show com os maiores clich\u00eas da m\u00fasica popular brasileira para um p\u00fablico desatento vira um impeditivo crescente para o seu relato. A menina mais velha de Maria se chama Malu e, t\u00edmida, se manifesta pela primeira vez desde que sentou-se \u00e0quela mesa, mais de uma hora antes, ao reclamar de fome. Maria n\u00e3o tem dinheiro para o lanche e decide abreviar a conversa antes que o choro de alguma delas torne a situa\u00e7\u00e3o desnecessariamente dram\u00e1tica. Cl\u00e1ssico das m\u00e3es, Maria surpreende ao fazer brotar de onde elas n\u00e3o imaginavam um pacote de bolachas de goma. Aquilo enganaria a fome at\u00e9 chegarem em casa.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-l641zcquwu\">O pr\u00f3ximo encontro para conhecer melhor a hist\u00f3ria da garota que revelou que aos tr\u00eas anos j\u00e1 acompanhava a m\u00e3e e as irm\u00e3s na lida do com\u00e9rcio informal \u00e9 no cora\u00e7\u00e3o do bairro que ela tanto ama. Novamente com as duas filhas, ela vai at\u00e9 o parquinho de madeira da rua Fonte do Boi, defronte \u00e0 livraria Midialouca, local onde haveria o lan\u00e7amento do livro de um amigo que fez quando n\u00e3o tinha ainda dez anos. Eles se cumprimentam com um abra\u00e7o carinhoso. Malu e Melina enfrentam dificuldades para encontrar uma brincadeira que interesse \u00e0s duas, que t\u00eam um abismo et\u00e1rio de quase cinco anos. A mais nova quer descer o escorregador, mas \u00e9 impedida pela m\u00e3e, que acha o brinquedo perigoso demais. Malu, automaticamente, sente-se autorizada a subir as escadinhas para fazer o que a irm\u00e3 n\u00e3o pode, mas tamb\u00e9m ouve um grito da m\u00e3e. Desta vez, a preocupa\u00e7\u00e3o de Maria \u00e9 com o corpo da filha. \u201cSegura o vestido, Malu. Puxa para baixo, filha\u201d, ensina a m\u00e3e. \u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o pensar que Maria quer evitar que olhem para a sua menina da mesma forma como um dia foi olhada. Longe dos ouvidos de seu amigo escritor, Maria confessa a vergonha de n\u00e3o ter dinheiro para pagar pelo livro dele e sai do lugar discretamente.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-ven87g49tx\">Vender amendoim acabou se tornando a sua marca, mas foi uma fase que, na realidade, durou pouco na vida de Maria. \u201cPercebi que vender balas e chicletes dava muito mais retorno e comprei uma guia para virar baleira. Da\u00ed veio meu apelido Maria da Bala\u201d, explica, enquanto caminha pela rua do Meio. Ela ia sozinha \u00e0 bomboniere do seu bairro para comprar a mercadoria e garante ter posto em pr\u00e1tica a aritm\u00e9tica colecionada nas aulas que assistiu de virote para conseguir planejar e ter lucro. \u201cSempre fiz tudo sozinha, n\u00e3o achava nada de mais\u201d, orgulha-se. Aos 12 anos, passou a vender um produto proibido para menores. \u201cSempre odiei cigarros. Eu vendia, mas dava bronca nos clientes de quem eu gostava e que fumavam\u201d, diz ela, e sorri com os olhos. Aos 16, come\u00e7ou a comercializar cerveja e \u00e9 o que faz at\u00e9 hoje quando acontecem grandes festas na cidade, como o Carnaval e o Dois de Fevereiro. \u201cN\u00e3o vendo sempre, porque preciso ficar com minhas filhas, mas de vez em quando consigo fazer um bico desses\u201d, diz ela, que frequenta uma igreja neopentecostal e n\u00e3o consome \u00e1lcool.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-xsmhiuz9hn\">O horizonte de possibilidades profissionais de Maria parece, \u00e0 primeira vista, preso ao determinismo do of\u00edcio que sempre realizou, mas ela tem sonhos para si que passam ao largo do cotidiano de uma vendedora ambulante. \u201cEu fiz um cursinho de gastronomia e sei fazer tudo dentro de uma cozinha. Eu s\u00f3 preciso, mesmo, de uma oportunidade. Meu sonho \u00e9 cursar uma faculdade e abrir um restaurante no Rio Vermelho, claro. Meu outro sonho \u00e9 escrever um livro para contar a minha hist\u00f3ria. Eu ainda tenho que batalhar para colocar comida na mesa todos os dias, mas me sinto uma vencedora. Acho que posso inspirar outras pessoas\u201d, revela Maria, que casou-se aos 17 anos e afirma ser muito feliz com o \u00fanico parceiro que teve na vida.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-uh7hf14d57\">No bairro que \u00e9 o seu lar, Maria caminha pelos endere\u00e7os onde foi bem quista, mas que j\u00e1 fecharam as portas, e conta mais hist\u00f3rias. \u201cAqui eu comi arroz de polvo com um amigo. Chique, n\u00e9?\u201d. Quando passa em frente \u00e0 Vila Caramuru, faz um lamento saudoso. \u201cFicou terr\u00edvel depois da reforma. Eu adorava o Mercado do Peixe, conhecia todo mundo l\u00e1. Agora \u00e9 capaz de n\u00e3o me deixarem entrar, de t\u00e3o metido \u00e0 besta que ficou o lugar\u201d. Ela caminha mais um pouco enquanto segura uma filha em cada m\u00e3o. Antes da Pra\u00e7a Colombo, na cal\u00e7ada que separa o asfalto do precip\u00edcio por um guarda-corpo de metal, Maria se det\u00e9m alguns segundos para apresentar as meninas \u00e0 beleza do p\u00f4r-do-sol daquela tarde de novembro. Definitivamente, Maria n\u00e3o deixar\u00e1 que a experi\u00eancia delas naquele bairro seja a mesma que ela teve, por melhor que tenha sido. Quando perguntada se ensinaria suas filhas a vender produtos nas ruas tamb\u00e9m, caso a fam\u00edlia precisasse, sua resposta \u00e9 um categ\u00f3rico &#8211; e previs\u00edvel &#8211; \u201cn\u00e3o\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-zmqawzqkcq\">Maria passa, em seguida, por um famoso restaurante e afirma ter sido tratada sempre mal por todos os que trabalhavam l\u00e1. Ela doma qualquer impulso de critic\u00e1-lo mais profundamente e pede para que o nome do lugar n\u00e3o seja revelado, caso a reportagem mencione a animosidade que o estabelecimento devotou a si. Quer focar nas coisas boas, como o restaurante e espa\u00e7o para eventos Casa da M\u00e3e, que sobrevive \u00e0 especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria em frente \u00e0 Casa dos Pescadores. \u201cEra l\u00e1 que eu podia comer tudo de mais gostoso que se possa imaginar. Eu provei o card\u00e1pio inteiro e nunca precisei pagar. Eu podia at\u00e9 dormir&#8230; Tia Stella foi como uma m\u00e3e para mim\u201d, lembra, com carinho, da dona. E, ao falar daquela que \u00e9 quase uma m\u00e3e, Maria come\u00e7a a descrever a sua pr\u00f3pria, mas muito brevemente &#8211; novamente, quer focar no lado positivo. Embora reconhe\u00e7a que nunca teve a prote\u00e7\u00e3o de um amor materno comum, Maria trata do assunto livre de ressentimentos. \u201cMinha m\u00e3e sofreu muito na vida e, por isso, n\u00e3o conseguiu me dar carinho, \u00e9 normal. Mas o amor que eu n\u00e3o tive em casa, eu encontrei na rua, e est\u00e1 tudo certo\u201d, justifica.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-p49lkjt9mg\">Ela refuta persistentemente todos os lugares-comuns que poderiam definir o seu passado como uma fonte de amargura e afasta quaisquer narrativas de dor e sofrimento geralmente atreladas a quem teve uma inf\u00e2ncia considerada dif\u00edcil como a dela. Mais uma vez, coloca uma colher de mel na boca ao falar da genitora. \u201cMinha m\u00e3e me deu exatamente o que eu precisei ter: garra e coragem. O resto eu encontrei ao conhecer as pessoas do Rio Vermelho\u201d, refor\u00e7a Maria, que tamb\u00e9m aponta o restaurante espanhol La Taperia como um abrigo carinhoso durante seus dias de crian\u00e7a. \u201cNem todo mundo me ajudava, \u00e9 claro. Haviam os perigos e viol\u00eancias que toda menina sofre e que eu nem gosto de lembrar. Mas v\u00e1rias vezes as pessoas pagaram por toda a minha mercadoria para eu poder ir embora cedo, ou me levaram de carro at\u00e9 o McDonald\u2019s, compraram para mim um lanche com brinquedo e, depois, pagaram para eu entrar no pula-pula infl\u00e1vel daquele parquinho que tinha no Acaraj\u00e9 da Cira [Largo da Mariquita]. Muita gente me protegeu. Eu n\u00e3o perdi minha inf\u00e2ncia s\u00f3 porque trabalhei\u201d, garante.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-zecpliw7ot\">Maria est\u00e1 entre os filhos mais velhos de Cl\u00edvia Silva, de 50 anos, que pariu impressionantes 18 vezes e que trabalha, at\u00e9 hoje, como vendedora ambulante, tamb\u00e9m no Rio Vermelho. \u201cEla \u00e9 durona, sim, mas se eu cair doente, ela aparece no mesmo instante para me acudir\u201d, revela. Quando ouve a pergunta sobre quem \u00e9 seu pai, ela responde que \u00e9 melhor esquecer o assunto. Em contrapartida, menciona o padrasto como a sua grande figura paterna e o respons\u00e1vel para que ela e os irm\u00e3os tivessem um teto. Como Maria pode ser uma m\u00e3e t\u00e3o presente, carinhosa e atenta se n\u00e3o recebeu tantos exemplos assim dentro de casa? De novo, ela responde: \u201cS\u00e3o as pessoas do Rio Vermelho. Meus \u2018dindos\u2019 e \u2018dindas\u2019 que sempre me apoiaram com tudo e ajudaram a me criar. Foi com eles que eu aprendi o amor\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-9lzu1atc6m\">A pobreza empurrou-a cedo para o destino como arrimo de fam\u00edlia, mas a garra que afirma vir de ber\u00e7o foi o que a fez sobreviver aos perigos da noite. Muita gente lembra da inf\u00e2ncia da menina. \u201cMaria era uma crian\u00e7a muito lindinha. As pessoas compravam em sua m\u00e3o porque tinham pena de v\u00ea-la na rua de madrugada. Crian\u00e7as, sobretudo negras, trabalharem era uma cena muito comum na \u00e9poca que precedeu a chegada do arcabou\u00e7o de medidas sociais do primeiro governo de Lula. Ent\u00e3o, v\u00ea-la t\u00e3o pequena e sozinha, no m\u00e1ximo acompanhada de outras crian\u00e7as, n\u00e3o era exatamente um choque. Era algo normalizado por todos. O Brasil era outro\u201d, afirma a psic\u00f3loga Dora Diamantino, que tinha 20 anos quando frequentava o Largo de Santana e conheceu Maria.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-v0o59xr21c\">Por telefone, Maria responde \u00e0s \u00faltimas perguntas da reportagem. Para a festa do Dois de Fevereiro deste ano, pretende adquirir uma guia para vender cerveja e planeja se valer do fato de ser t\u00e3o conhecida para angariar clientes que permanecer\u00e3o fi\u00e9is ao seu isopor por todo o dia da lavagem. Maria quer saber onde vai sair a reportagem; parece aflita com a possibilidade de ser descrita com tintas sensacionalistas. Deixa escapar, contudo, a vontade de ser notada por um programa de audit\u00f3rio, destes que reformam as casas das pessoas para um espet\u00e1culo na televis\u00e3o aos domingos.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-m3futhllez\">Se seu per\u00edodo laboral pudesse ter sido registrado, Maria estaria a apenas tr\u00eas anos do direito de se aposentar, aos 33 anos. Mas uma vida inteira de trabalho n\u00e3o garantiu a ela absolutamente nada, como acontece com tantos brasileiros do mercado informal. Mesmo assim, Maria tem planos de concluir o ensino m\u00e9dio com um supletivo e, enfim, cursar gastronomia.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-v9l6yal08c\">Os planos para as filhas s\u00e3o numerosos, e todos incluem um cotidiano de muito estudo e pouco trabalho, por enquanto. \u201cEu agrade\u00e7o \u00e0 vida que eu tive, mas n\u00e3o \u00e9 porque eu me sa\u00ed bem que eu desejo o mesmo para as meninas. Elas t\u00eam que ir mais longe. Se Deus quiser, v\u00e3o realizar at\u00e9 os sonhos que eu fiz para mim\u201d, mentaliza.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Salvador, ano de 2007. Ainda faltam uns dois ou tr\u00eas ver\u00f5es para que Maria Silva dos Santos possa apreciar a vista para o sub\u00farbio soteropolitano na curva que a avenida Afr\u00e2nio Peixoto faz \u00e0 margem do bairro de Plataforma. 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