{"id":84446,"date":"2026-03-19T09:00:30","date_gmt":"2026-03-19T12:00:30","guid":{"rendered":"https:\/\/blogopara.com.br\/?p=84446"},"modified":"2026-03-19T09:00:30","modified_gmt":"2026-03-19T12:00:30","slug":"erika-hilton-na-comissao-da-mulher-expoe-racha-na-esquerda-sobre-pauta-trans","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/2026\/03\/19\/erika-hilton-na-comissao-da-mulher-expoe-racha-na-esquerda-sobre-pauta-trans","title":{"rendered":"Erika Hilton na Comiss\u00e3o da Mulher exp\u00f5e racha na esquerda sobre pauta trans"},"content":{"rendered":"<p>A rea\u00e7\u00e3o \u00e0 direita n\u00e3o surpreendeu ningu\u00e9m quando a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) foi eleita por pares, com 11 votos a favor e dez em branco, para presidir a Comiss\u00e3o de Defesa dos Direitos da Mulher. Houve grita generalizada sustentando que Hilton, primeira deputada federal trans junto com Duda Salabert (PDT), n\u00e3o \u00e9 mulher coisa nenhuma. At\u00e9 a\u00ed esperado, dada a avers\u00e3o \u00e0 transgeneridade no grupo.<\/p>\n<p>Mas o desconforto n\u00e3o ficou restrito a esse cercadinho ideol\u00f3gico. Em setores da esquerda, sua elei\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m criou rachas. S\u00e3o dissidentes que se dizem alinhadas a pautas progressistas sem deixar de questionar se uma mulher trans deveria liderar o colegiado. A posi\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria no campo \u00e9 a de reconhecer mulher trans como mulher.<\/p>\n<p>Um term\u00f4metro: coment\u00e1rios num post do ministro Guilherme Boulos (Secretaria-Geral) classificando a rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 presid\u00eancia de Hilton como transfobia. &#8220;Extrema direita, gente? Ao meu redor, um caminh\u00e3o de mulher de esquerda achando isso um absurdo&#8221;, escreveu a psicanalista Ana Luiza Dalcanal.<\/p>\n<p>Let\u00edcia Nascimento, que lidera o Sagrado Feminino Real, projeto voltado \u00e0 &#8220;espiritualidade feminista que se pauta na experi\u00eancia material das mulheres&#8221;, tamb\u00e9m se manifestou: mulheres &#8220;cr\u00edticas de g\u00eanero&#8221; seriam &#8220;hostilizadas&#8221; e tachadas de &#8220;fascistas de direita&#8221; ao &#8220;apontar incongru\u00eancias do transativismo&#8221;.<\/p>\n<p>Essa linha argumentativa se ancora em opini\u00f5es como a de Reem Alsalem, relatora Especial da ONU sobre viol\u00eancia contra mulheres. Para ela, pode-se adotar uma identidade de g\u00eanero diferente da de nascimento, mas isso n\u00e3o implica acesso autom\u00e1tico a todos os direitos de &#8220;mulheres biol\u00f3gicas&#8221;.<\/p>\n<p>Alsalem esteve no Brasil \u00e0s v\u00e9speras do Dia da Mulher, e sua posi\u00e7\u00e3o provocou rep\u00fadio do Conselho Nacional de Direitos LGBTQIA+. Ligado ao governo federal, o grupo mencionou &#8220;segmentos sociais radicais que flertam com a transfobia e a demoniza\u00e7\u00e3o de corpos e subjetividades trans&#8221; ao critic\u00e1-la.<\/p>\n<p>Hilton, em pronunciamento sobre a onda de ataques a ela, disse n\u00e3o ligar para &#8220;a opini\u00e3o de transf\u00f3bicos e imbeCIS&#8221;. Trocadilho com &#8220;cis&#8221;, que \u00e9 quem se identifica com o g\u00eanero que lhe foi atribu\u00eddo ao nascer.<\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o de que nascer com aparelho reprodutivo feminino \u00e9 inalien\u00e1vel \u00e0 condi\u00e7\u00e3o feminina \u00e9 muitas vezes vinculada \u00e0s chamadas radfems, ou feministas radicais.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 elas. J.K. Rowling, criadora da s\u00e9rie Harry Potter, \u00e9 not\u00f3ria cr\u00edtica da pauta trans. No Brasil, a Matria (Associa\u00e7\u00e3o de Mulheres, M\u00e3es e Trabalhadoras do Brasil) defende a &#8220;import\u00e2ncia do marcador sexo&#8221; nesse debate.<\/p>\n<p>&#8220;Mulheres s\u00e3o um grupo definido por uma realidade material, o sexo feminino, e muitas das pol\u00edticas p\u00fablicas existentes foram constru\u00eddas justamente a partir dessa realidade&#8221;, defende Clarice Saadi, diretora da organiza\u00e7\u00e3o. E correm o risco de serem relativizadas se isso n\u00e3o for levado em conta, segundo ela.<\/p>\n<p>Saadi d\u00e1 como exemplo a penitenci\u00e1ria feminina do Distrito Federal. &#8220;H\u00e1 86 pessoas do sexo masculino alojadas no pres\u00eddio feminino, e as mulheres relatam serem constrangidas e assediadas pelos travestis que foram transferidos para l\u00e1 com base em uma autodeclara\u00e7\u00e3o de g\u00eanero&#8221;, ela diz, usando sempre o pronome masculino para se referir a esse grupo.<\/p>\n<p>A nova presidente da Comiss\u00e3o da Mulher, na sua vis\u00e3o, n\u00e3o chancelaria um projeto de lei que vete a presen\u00e7a de trans e travestis nesses pres\u00eddios. Isso \u00e9 ignorar a &#8220;realidade objetiva das mulheres&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Let\u00edcia Nascimento, do projeto Sagrado Feminino Real, vai pela mesma toada. Quando se fala em direitos da mulher, parte-se de &#8220;corpos que nascem sob determinadas condi\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas e que, a partir disso, s\u00e3o socializados em uma sociedade patriarcal para ocupar posi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, marcadas por desigualdades estruturais como controle reprodutivo, explora\u00e7\u00e3o sexual e dom\u00e9stica&#8221;.<\/p>\n<p>Defensores da lideran\u00e7a de Hilton argumentam que mulheres ditas biol\u00f3gicas n\u00e3o representam automaticamente todas as mulheres, j\u00e1 que experi\u00eancias variam conforme classe, ra\u00e7a e contexto social. Uma mulher rica pode n\u00e3o vivenciar problemas de mulheres pobres, uma branca os de uma negra etc. Sob essa \u00f3tica, a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o deve se basear apenas na identidade, mas na capacidade de atuar sobre diferentes realidades.<\/p>\n<p>Autora de &#8220;Quando Me Descobri Negra&#8221; e colunista da Folha, Bianca Santana v\u00ea a psolista como &#8220;duplamente qualificada&#8221; para o papel: \u00e9 parlamentar eleita e mulher comprometida com os direitos femininos. Para ela, descredibiliz\u00e1-la revela transfobia, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 impedimento legal ao cargo.<\/p>\n<p>A psicanalista Vera Iaconelli, tamb\u00e9m colunista do jornal, vai al\u00e9m: ser trans n\u00e3o \u00e9 \u00f4nus, \u00e9 b\u00f4nus, porque Hilton &#8220;trabalha com uma minoria dentro de uma minoria&#8221;. Al\u00e9m de trans, \u00e9 negra. &#8220;Ent\u00e3o a gente tem recorte de g\u00eanero e de ra\u00e7a. E ela vem de uma origem perif\u00e9rica.&#8221; Conseguiria, assim, ter um olhar mais sens\u00edvel para um grupo t\u00e3o marginalizado sem desconsiderar mulheres cis e brancas, diz.<\/p>\n<p>A ginecologista Daniela Menezes, idealizadora da Casa Caet\u00e9, voltada \u00e0 sa\u00fade da mulher, diz que, &#8220;do ponto de vista m\u00e9dico, n\u00e3o existe fundamento para afirmar que uma mulher trans n\u00e3o pode representar mulheres&#8221;.<\/p>\n<p>Claro que biologia importa. Ningu\u00e9m nega a import\u00e2ncia do rastreamento do c\u00e2ncer de pr\u00f3stata em uma mulher trans, por exemplo. &#8220;Mas essas categorias n\u00e3o foram feitas para definir papel social, identidade ou representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.&#8221;<\/p>\n<p>A categoria feminina tampouco seria homog\u00eanea na biologia. &#8220;Usar argumentos m\u00e9dicos para definir quem pode ou n\u00e3o pode representar mulheres \u00e9 uma extrapola\u00e7\u00e3o indevida. A medicina descreve corpos, a pol\u00edtica organiza os direitos.&#8221;<\/p>\n<p>A Casa Caet\u00e9 fez uma provoca\u00e7\u00e3o em post no Instagram: em 2024, os vereadores paulistanos da C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo escolheram sete deles, todos homens, para a Comiss\u00e3o de Sa\u00fade, Promo\u00e7\u00e3o Social, Trabalho e Mulher. O barulho foi muito menor do que a elei\u00e7\u00e3o de Erika Hilton agora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A rea\u00e7\u00e3o \u00e0 direita n\u00e3o surpreendeu ningu\u00e9m quando a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) foi eleita por pares, com 11 votos a favor e dez em branco, para presidir a Comiss\u00e3o de Defesa dos Direitos da Mulher. 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