{"id":87010,"date":"2026-07-04T19:11:24","date_gmt":"2026-07-04T22:11:24","guid":{"rendered":"https:\/\/blogopara.com.br\/?p=87010"},"modified":"2026-07-04T19:11:24","modified_gmt":"2026-07-04T22:11:24","slug":"queima-de-espadas-os-efeitos-de-quinze-anos-de-uma-proibicao-fracassada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/2026\/07\/04\/queima-de-espadas-os-efeitos-de-quinze-anos-de-uma-proibicao-fracassada","title":{"rendered":"Queima de espadas: os efeitos de quinze anos de uma proibi\u00e7\u00e3o fracassada"},"content":{"rendered":"<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-jljjfmyqgl\">Voc\u00ea pode ter medo, n\u00e3o gostar e achar rid\u00edculo. Direito seu. Do mesmo modo, eu tenho o direito de achar queima de espadas uma das coisas mais lindas do mundo. \u00c9 ancestralidade que chama e isso n\u00e3o \u00e9 for\u00e7a de express\u00e3o. Essa \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o centen\u00e1ria e um referencial identit\u00e1rio profundo em cidades baianas como Cruz das Almas, Senhor do Bonfim, Muritiba, Governador Mangabeira e Sapea\u00e7u. Voc\u00ea gostando ou n\u00e3o. S\u00f3 que o que deveria ser visto como um patrim\u00f4nio, foi transformado em crime em 2011 (Cruz das Almas) e em todo o estado em 2017, num processo conduzido sem debate p\u00fablico. No entanto, mesmo ilegal, a pr\u00e1tica nunca cessou. O \u00fanico efeito objetivo \u00e9 que a clandestinidade transformou o &#8220;bal\u00e9 de fogo&#8221; em um cen\u00e1rio infinitamente mais perigoso. Explico.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-aeqr4idm3p\">A primeira coisa \u00e9 que at\u00e9 2011, a gente sabia quando e onde aconteceriam as queimas, ent\u00e3o todo mundo j\u00e1 sa\u00eda de casa avisado. Quem gostava, pra ir pra dentro. Quem n\u00e3o gostava, pra desviar o caminho. Com a proibi\u00e7\u00e3o, perdemos a previsibilidade. Hoje, tratados como marginais e fugindo da pol\u00edcia, os espadeiros se encontram em locais e hor\u00e1rios muitas vezes imprevis\u00edveis, deixando moradores e patrim\u00f4nio muito mais vulner\u00e1veis a acidentes. Ainda que a repress\u00e3o policial exista, ela \u00e9 ineficaz diante do apoio massivo da popula\u00e7\u00e3o que, evidentemente, protege os espadeiros. Fora que tem muito policial espadeiro, o que torna tudo ainda mais ins\u00f3lito e teatral.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-98o4qf8h2s\">A criminaliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m provocou um \u00eaxodo de fabricantes s\u00e9rios, detentores de um conhecimento t\u00e9cnico centen\u00e1rio. Muitos desses profissionais se retiraram da pr\u00e1tica por medo de pris\u00f5es e humilha\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Esse v\u00e1cuo de conhecimento foi preenchido por jovens menos experientes, que muitas vezes fabricam artefatos sem o rigor necess\u00e1rio. Fazer espadas \u00e9 uma arte extremamente delicada, uma cultura passada de forma oral e pr\u00e1tica, de gera\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 um manual escrito, uma receita padr\u00e3o. Com isso, a qualidade despencou, o que tamb\u00e9m significa perigo. Espada n\u00e3o \u00e9 pra explodir, por exemplo. Nem pra subir como se fosse foguete, atingindo telhados a metros de dist\u00e2ncia. Depois da proibi\u00e7\u00e3o, esses defeitos \u2013 que eram raros &#8211; ficaram muito comuns.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-fass2zal6h\">Outra coisa: como as apreens\u00f5es de materiais e produtos prontos, no per\u00edodo que antecede o S\u00e3o Jo\u00e3o, s\u00e3o frequentes, os espadeiros passaram a fabricar novas espadas \u00e0s pressas e em locais improvisados. Observe que uma espada bem feita exige mais de 20 etapas e semanas de preparo. Al\u00e9m da inexperi\u00eancia, a produ\u00e7\u00e3o apressada tamb\u00e9m gera artefatos inst\u00e1veis, muito mais perigosos do que os que s\u00e3o fabricados com tranquilidade, sob o tempo da tradi\u00e7\u00e3o. Esse perigo n\u00e3o afeta apenas quem acende a espada, mas qualquer pessoa que passe por perto, por exemplo, durante uma explos\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full\" data-box-lista-comum=\"\">\n<div id=\"box-lista--comum-ir4zpe58li\" class=\"w-full\">\n<header class=\"flex flex-col m-0 px-3 py-4 bg-tw-theme-box-lista-background-primary rounded-t-md relative z-[1] \"><\/header>\n<div class=\"flex flex-col p-3 border border-[#e6e6e6] rounded-b-md shadow-[0px_0px_10px_#1f1f1f1a]\">\n<div class=\"border-b border-[#e6e6e6] flex flex-row justify-start items-center pb-3 mb-3 last:border-0 last:pb-0 last:mb-0\">\n<div class=\"flex flex-col justify-between self-start w-full h-full\">\n<h3 class=\"font-family-secondary text-[16px] leading-[20px] font-semibold text-black\"><span style=\"font-size: 1rem;\">Outro efeito colateral perverso da proibi\u00e7\u00e3o \u00e9 o abandono dos Equipamentos de Prote\u00e7\u00e3o Individual (EPIs). Embora roupas de jeans pesado, couro, capacetes, luvas e botas sejam fundamentais para evitar queimaduras e minimizar poss\u00edveis impactos, muitos praticantes agora evitam us\u00e1-los para n\u00e3o chamar a aten\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia. Quando tocar espadas n\u00e3o era crime, ostentar esse \u201cfardamento\u201d era motivo de orgulho. A gente gostava de ser visto usando aquele figurino que gerava identidade e aproxima\u00e7\u00e3o com outros espadeiros. Hoje, a tentativa de &#8220;camuflagem&#8221; para evitar o flagrante deixa o corpo do espadeiro exposto, em uma vulnerabilidade desnecess\u00e1ria.<\/span><\/h3>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-wkzjjh85h6\">(Eu nunca havia brincado com espadas sem o traje apropriado at\u00e9 que elas foram proibidas, n\u00f3s deixamos de ter em casa e a possibilidade de entrar numa queima passou a ser uma quest\u00e3o de sorte. Ningu\u00e9m sai de casa vestido para uma possibilidade remota. Por\u00e9m, se a oportunidade surge, t\u00f4 pra ver um espadeiro que vai desperdi\u00e7ar.)<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-dp4zv0tr96\">Junto com a flexibiliza\u00e7\u00e3o dos EPIs, todo um c\u00f3digo de conduta tamb\u00e9m foi flexibilizado. Quando voc\u00ea v\u00ea esses v\u00eddeos de gente botando espada na boca, na cabe\u00e7a, deitando no ch\u00e3o com espadas\u2026 \u00e9 uma quebra completa dos c\u00f3digos que sempre orientaram a pr\u00e1tica. Era raro ver gente se comportando desse jeito irrespons\u00e1vel. Quando a gente via, se afastava. O jeito de segurar o artefato, o momento de soltar, h\u00e1 toda uma coreografia, uma t\u00e9cnica que se aprende ao longo da vida. Isso inclui at\u00e9 de que maneira se locomover no meio da queima. Fato \u00e9 que, seguindo o protocolo, nunca, entre os meus, houve qualquer acidente grave.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-z92xvv6uqa\">Historicamente, a espada \u00e9 uma evolu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica do antigo busca-p\u00e9, redesenhada justamente para ser menos perigosa, eliminando a explos\u00e3o final e permitindo a intera\u00e7\u00e3o l\u00fadica, aquela \u201cdan\u00e7a\u201d no fogo, a proximidade com aquele \u201crabo\u201d de luz e com aquele som que, pra n\u00f3s, s\u00e3o m\u00e1gicos. O artefato, feito de bambu, p\u00f3lvora, barro e limalha, \u00e9 fruto de um saber que remonta a 1930. Com o uso de EPIs e o comportamento adequado, os riscos ainda existem, mas s\u00e3o bastante minimizados. \u201cMas quem n\u00e3o gosta n\u00e3o quer correr risco nenhum\u201d, voc\u00ea pensa j\u00e1 um pouco irritado. Just\u00edssimo! E pra isso tamb\u00e9m tem solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-vq1wpyn7u8\">O exemplo de Senhor do Bonfim mostra que o caminho \u00e9 a regulamenta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o o teatro pat\u00e9tico da proibi\u00e7\u00e3o. Em 2025, um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) hist\u00f3rico uniu o Minist\u00e9rio P\u00fablico, a Associa\u00e7\u00e3o de Espadeiros e for\u00e7as de seguran\u00e7a para legalizar a pr\u00e1tica. O acordo prev\u00ea a cria\u00e7\u00e3o do &#8220;Espad\u00f3dromo&#8221;, um local isolado com distanciamento r\u00edgido de \u00e1reas sens\u00edveis, garantindo que o direito \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o cultural n\u00e3o fira o direito \u00e0 paz de quem n\u00e3o quer participar. N\u00e3o \u00e9 perfeito? Pois melhora ainda mais.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-uwyomcqhqn\">Para que a seguran\u00e7a seja ainda maior, a regulamenta\u00e7\u00e3o exige o uso de artefatos certificados, produzidos em f\u00e1bricas registradas e autorizadas pelo Ex\u00e9rcito. Isso elimina o perigo das espadas caseiras feitas \u00e0s pressas, garantindo ao praticante direitos de consumidor e a certeza de que o material funcionar\u00e1 corretamente. Al\u00e9m disso, o protocolo inclui barreiras de concreto, brigadistas e unidades de sa\u00fade de prontid\u00e3o no local. A\u00ed voc\u00ea pensa \u201cmas vai deslocar esses profissionais todos s\u00f3 para o prazer de alguns?\u201d. Preconceito seu, n\u00e9? Porque Carnaval, F\u00f3rmula 1, campeonato de surfe\u2026 tudo isso mobiliza o Estado pelo prazer de alguns. \u201cMas esses eventos geram receitam pro munic\u00edpio\u201d, voc\u00ea rebate. Oxe, e por que as espadas n\u00e3o gerariam?<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-jvd0ug7mfi\">Conhe\u00e7a o exemplo de Est\u00e2ncia, em Sergipe. Nossos vizinhos provam que a organiza\u00e7\u00e3o profissional transforma a queima em um espet\u00e1culo que movimenta a economia e o turismo. L\u00e1, dezenas de fabricantes especializados manuseiam toneladas de p\u00f3lvora com maestria e milhares de espadeiros participam da queima, provando que o risco da espada \u2013 assim como tantos outros &#8211; pode ser gerenciado. O modelo sergipano refor\u00e7a que a queima de espadas, quando respeitada e organizada, \u00e9 um bel\u00edssimo espet\u00e1culo e n\u00e3o um caso de pol\u00edcia.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-oxozhswnyf\">Est\u00e1 na hora de abandonar uma estrat\u00e9gia que fracassou. Quinze anos depois, a queima de espadas continua existindo por todo o Rec\u00f4ncavo. A diferen\u00e7a \u00e9 que hoje acontece com menos controle e muito mais riscos. Os exemplos de Senhor do Bonfim e Est\u00e2ncia mostram que regulamentar \u00e9 reconhecer a realidade para proteger vidas, preservar uma tradi\u00e7\u00e3o e devolver ao Estado a possibilidade de organizar aquilo que nunca conseguiu \u2013 nem conseguir\u00e1 &#8211; impedir. Regulamentadas, as espadas podem gerar emprego, renda e um fluxo tur\u00edstico que s\u00f3 n\u00f3s, em todo o mundo, sabemos como fazer.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea pode ter medo, n\u00e3o gostar e achar rid\u00edculo. Direito seu. Do mesmo modo, eu tenho o direito de achar queima de espadas uma das coisas mais lindas do mundo. \u00c9 ancestralidade que chama e isso n\u00e3o \u00e9 for\u00e7a de express\u00e3o. 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