{"id":89775,"date":"2026-10-18T09:06:13","date_gmt":"2026-10-18T12:06:13","guid":{"rendered":"https:\/\/blogopara.com.br\/?p=89775"},"modified":"2026-10-18T09:06:13","modified_gmt":"2026-10-18T12:06:13","slug":"saudades-do-orkut-e-de-uma-internet-que-nos-fazia-escrever","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/2026\/10\/18\/saudades-do-orkut-e-de-uma-internet-que-nos-fazia-escrever","title":{"rendered":"Saudades do Orkut e de uma internet que nos fazia escrever"},"content":{"rendered":"<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-mm2smmauim\">H\u00e1 ocasi\u00f5es que me deparo com um ou outro amigo que sente uma saudade imensa do nosso velho e querido Orkut, uma saudade estranha, que goza de determinada falta de correspond\u00eancia com a rede em si. Talvez sintamos mesmo a falta de escrever recados no mural do perfil alheio, de fazer depoimentos completos, com come\u00e7o, meio e fim, sobre pessoas que amamos. Comunidades em que participar da conversa muitas vezes significava colocar alguma coisa ali, mesmo que pouca coisa. Era uma internet manual, e principalmente escrita \u00e0 m\u00e3o, no sentido em que muitos dos gestos feitos ali exigiam composi\u00e7\u00e3o com a rolagem de tela e o consumo de conte\u00fado no segundo plano.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-xz51a49s1j\">O Orkut tamb\u00e9m n\u00e3o era santinho. Tinha perfis falsos e abrigava manipula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es. O fen\u00f4meno j\u00e1 tinha nome em ingl\u00eas na cultura da rede e era chamado de fake. Em 2018, uma reportagem da BBC Brasil mostrou que, na campanha de 2010, segundo relatos colhidos pela reportagem, quatro pessoas tinham um blogue e perfis falsos no Orkut e no Twitter em defesa da candidatura de Dilma Rousseff; o blogue desqualificava os boatos que circulavam sobre ela e se apoiava numa rede de contas falsas para correr.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-vvs7qygnwn\">Tudo isso havia acontecido muitos anos antes de o termo fake news, anglo-sax\u00e3o, entrar no nosso vocabul\u00e1rio. Repare s\u00f3 uma coisa. Atr\u00e1s daquela opera\u00e7\u00e3o havia gente de verdade escrevendo. Os 131 perfis falsos do Twitter ajudavam a espalhar o conte\u00fado do blogue e muitos tinham vida pr\u00f3pria, com tu\u00edtes do cotidiano forjados apenas para alimentar o personagem. A farsa dependia de composi\u00e7\u00f5es em diversas camadas, num grau muito mais elaborado do que um \u00fanico texto viralizado.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-5vwd6pye5t\"><b>Uma rede textual<\/b><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-q7bo9qhnt2\">O Orkut nasceu da ambi\u00e7\u00e3o do engenheiro turco Orkut B\u00fcy\u00fckk\u00f6kten no marco do programa de \u201ctime off \u201d do Google (2012). Segundo a narrativa do pr\u00f3prio criador, a infraestrutura para suportar o projeto poderia comportar apenas 200 mil usu\u00e1rios. O limite era t\u00e9cnico, e ele diria mais tarde que desejava uma comunidade do mundo todo. O sucesso foi notavelmente al\u00e9m dessa capacidade inicial, mas por um longo tempo a estrutura manteve uma experi\u00eancia centr\u00edpeta em recados e comunidades. O arranjo mudou. Ao longo da d\u00e9cada, o mesmo Orkut testava quantas atualiza\u00e7\u00f5es de amigos mostrar e disponibilizava rea\u00e7\u00f5es por emoticon para as postagens alheias, embora o Facebook j\u00e1 tivesse produzido seu bot\u00e3o de like alguns poucos anos antes. Ali, tamb\u00e9m, a dopamina dos retornos e est\u00edmulos r\u00e1pidos ia engordando.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-n7121ru3vs\">Parece-me que essa centralidade da palavra escrita foi gradualmente perdendo espa\u00e7o, \u00e0 medida que as redes algor\u00edtmicas foram decidindo o que dever\u00edamos ver primeiro na tela. Sistemas de ranqueamento, que antes funcionavam de maneira primitiva, foram refinando-se sem que tiv\u00e9ssemos mais de escrever qualquer coisa.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-o62ubia58g\"><b>Quando ler ficou \u00e0 frente de escrever<\/b><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-8ah8f21xy3\">Um mural do Orkut s\u00f3 existia por um algu\u00e9m que o escrevesse antes. O recado aparecia como um g\u00eanero textual inteiro, se bem breve, e servia para dar boa-noite a um algu\u00e9m ou para comentar uma foto. O depoimento, por sua vez, era prosa, tinha abertura e despedida, guardava a mem\u00f3ria de um evento espec\u00edfico e terminava com uma promessa qualquer de amizade eterna que a maioria de n\u00f3s n\u00e3o cumpriu. Poucos haveriam de redigir um depoimento em 15 segundos. \u00c9 nostalgia, eu sei, e descri\u00e7\u00e3o de infraestrutura, \u00e9 claro.No Orkut, uma comunidade funcionava como um f\u00f3rum, s\u00f3 existindo quando algu\u00e9m fazia coment\u00e1rio ou resposta. A unidade de troca ali era o texto.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-9y937qgc5o\">Atualmente, nas redes sociais mais robustas, organizadas pelo tal do feed, vale a rea\u00e7\u00e3o, o toque duplo na tela, o coment\u00e1rio de duas palavras que, ainda antes de voc\u00ea ter pensado na resposta, o pr\u00f3prio aplicativo j\u00e1 \u00e9 capaz de lhe sugerir. Uma rea\u00e7\u00e3o exige muito menos constru\u00e7\u00e3o textual, do participante, do que um par\u00e1grafo.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-bt64nbhbns\">Este fato, em si mesmo, n\u00e3o \u00e9 o respons\u00e1vel por condenar o pobre do feed ou o algoritmo. Em 2014, O Facebook informou que, num teste onde exibiu mais atualiza\u00e7\u00f5es em texto de amigos, usu\u00e1rios passaram a publicar em m\u00e9dia 9 milh\u00f5es de status a mais por dia. Um sistema de recomenda\u00e7\u00e3o pode indicar qu\u00e3o ou quanto as pessoas escrevem conforme o que se presta a esbo\u00e7ar e valorizar. No meu entender, a perda da arquitetura do Orkut diminuiu a frequ\u00eancia com a qual muitas interfaces foram persuadidas a solicitar texto, sendo a aptid\u00e3o delas mantidas.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-qq5fvpuox7\">Aonde foi a finitude da p\u00e1gina? O dito scroll infinito apresenta outra face do mesmo problema. Ao valorizar a cont\u00ednua rolagem no lugar do m\u00e9todo consciente de clique em \u201cpr\u00f3xima p\u00e1gina\u201d, o mecanismo apaga igualmente um sinal natural de interrup\u00e7\u00e3o. \u201cPr\u00f3xima p\u00e1gina\u201d n\u00e3o \u00e9 express\u00e3o inocente, viu? \u00c9 a mesma que utilizamos para prosseguir num livro.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-g0f8rxzpvv\">\u00c9 comum atribuir a inven\u00e7\u00e3o ao designer de interface Aza Raskin, apesar de uma equipe da Microsoft ter requerido uma patente sobre a t\u00e9cnica em 2006, ano em que Raskin tamb\u00e9m d\u00e1 a data da aplica\u00e7\u00e3o do seu pr\u00f3prio m\u00e9todo, na pequena empresa Humanized. A ideia era a mais simples, pois Raskin queria eliminar um clique que lhe parecia desnecess\u00e1rio. Hoje, ele arrepende-se publicamente.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-yr0gpj0tyl\">Na vers\u00e3o paginada do Orkut, n\u00e3o havia isso de rolagem infinita. O fim de qualquer p\u00e1gina representava uma pequena chance de escolha, ou continuar consumindo ou parar por ali. A moda do scroll infinito, que elimina um ponto sa\u00edda, facilitou evitar esse intervalo. O que fazer com ele, escrever ou fechar a tela, continuaria dependendo de cada um, e a pausa existia.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-dbqlhweot2\"><b>Escrever sem motivo algum<\/b><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-ay4zy4d6w3\">Quando sentimos saudade do Orkut, a falta \u00e9 de escrever sem motiva\u00e7\u00e3o alguma. Um recadinho que n\u00e3o seria analisado por um rob\u00f4 algoritmo. Um depoimento que n\u00e3o tinha de converter ningu\u00e9m em cliente de nada. Sinto falta de uma internet que ainda me exigia escrever um texto antes de seguir em frente, e a \u00e9tica pouco entra nessa conta. Tamb\u00e9m n\u00e3o sou Jesus e n\u00e3o queria ter de buscar seguidores.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-ok2n2xfzt2\">O Orkut estava longe de ser santo. Mas para ser parte da conversa de uma comunidade ali, fosse para mentir ou dizer a verdade, era comum quase sempre precisar de escrever alguma coisa antes. Hoje, nas grandes redes de feed algor\u00edtmico, muito da conviv\u00eancia pede cada vez menos disso, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"flex flex-col w-full font-normal text-[18px] leading-[30px] text-tw-theme-text-default\">\n<p id=\"paragrafo-g9v0pym358\"><i>Fabr\u00edcio Zavarise \u00e9 educador, escritor, palestrante e consultor. Apresenta o e-loquente cast. Mestre em Educa\u00e7\u00e3o Lingu\u00edstica pela Universidade de Chichester (Reino Unido), especialista em Educa\u00e7\u00e3o Bil\u00edngue e MBA em Gest\u00e3o Estrat\u00e9gica &amp; Intelig\u00eancia Artificial pela UFJF. Discorre sobre linguagem, educa\u00e7\u00e3o, lideran\u00e7a, inova\u00e7\u00e3o e IA. (https:\/\/fabriciozavarise.com.br)<\/i><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 ocasi\u00f5es que me deparo com um ou outro amigo que sente uma saudade imensa do nosso velho e querido Orkut, uma saudade estranha, que goza de determinada falta de correspond\u00eancia com a rede em si. 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