{"id":9481,"date":"2020-04-19T14:54:42","date_gmt":"2020-04-19T17:54:42","guid":{"rendered":"http:\/\/blogopara.com.br\/?p=9481"},"modified":"2020-04-19T15:10:45","modified_gmt":"2020-04-19T18:10:45","slug":"a-comemoracao-como-lugar-de-memoria-o-dia-do-indio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogopara.com.br\/index.php\/2020\/04\/19\/a-comemoracao-como-lugar-de-memoria-o-dia-do-indio","title":{"rendered":"A comemora\u00e7\u00e3o como lugar de mem\u00f3ria &#8211; O Dia do \u00cdndio"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Por: Cristina de Jesus Botelho Brand\u00e3o*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso a pr\u00e1tica comemorativa como um lugar de mem\u00f3ria, onde se ancoram sentimentos, lembran\u00e7as, tradi\u00e7\u00f5es e o sentido da identidade de um grupo. O passado \u00e9 comemorado e constru\u00eddo como acontecimento e, nesse processo, misturam-se o presente e o passado. Com a comemora\u00e7\u00e3o, materializa-se a mem\u00f3ria. N\u00e3o mais esqueceremos o fato, ele, agora, est\u00e1 marcado em um calend\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Pierre Nora, os lugares de mem\u00f3ria nascem da consci\u00eancia de que n\u00e3o h\u00e1 mem\u00f3ria espont\u00e2nea. \u201cA mem\u00f3ria \u00e9 vida, carregada por grupos vivos\u201d,&nbsp; aberta \u00e0 dial\u00e9tica da lembran\u00e7a e do esquecimento, em permanente evolu\u00e7\u00e3o. S\u00e3o lugares com&nbsp; efeito nos tr\u00eas sentidos da palavra &#8211;&nbsp; material, simb\u00f3lico e funcional -: de registros escritos a datas comemorativas, passando por celebra\u00e7\u00f5es e s\u00edmbolos, at\u00e9 museus, bibliotecas, obras de arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 que a mem\u00f3ria espont\u00e2nea n\u00e3o existe, \u00e9 necess\u00e1rio documentar o presente e relembrar a todo momento o passado. Multiplicam-se os lugares de mem\u00f3ria. Os momentos de celebra\u00e7\u00e3o cristalizam mem\u00f3rias que n\u00e3o podem se perder, sentimentos que intensificam o presente, funcionando como elemento de identifica\u00e7\u00e3o para todos que participam da pr\u00e1tica comemorativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como exemplo de pr\u00e1tica comemorativa, destaco, aqui,&nbsp; a celebra\u00e7\u00e3o do Dia do \u00cdndio , no dia 19 de abril, que acontece, no Brasil,&nbsp; desde 1944. &nbsp;Com a cria\u00e7\u00e3o do Museu do \u00cdndio, no Rio de janeiro, por Darcy Ribeiro, em 1953,&nbsp; diversas a\u00e7\u00f5es v\u00eam sendo realizadas por esta institui\u00e7\u00e3o para festejar a data como dan\u00e7as e cantos ind\u00edgenas, al\u00e9m de filmes, palestras e eventos educativos para crian\u00e7as. A programa\u00e7\u00e3o conta, freq\u00fcentemente,&nbsp; com a presen\u00e7a de \u00edndios. Ali\u00e1s, o pr\u00f3prio Museu do \u00cdndio foi inaugurado, como parte da Se\u00e7\u00e3o de Estudos \u2013 SE do antigo Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios \u2013 SPI, em 19 de abril, em comemora\u00e7\u00e3o ao Dia do \u00cdndio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, um breve hist\u00f3rico dessa data. Na d\u00e9cada de 30, surgiram as primeiras id\u00e9ias a respeito de um programa indigenista continental. Somente sete anos mais tarde da VII Confer\u00eancia Interamericana, no M\u00e9xico,&nbsp; e dois anos depois da VIII&nbsp; Confer\u00eancia Internacional Panamericana, desta vez ocorrida em Lima, Peru, \u00e9 que , em 1940, o M\u00e9xico acolhe o primeiro Congresso Indigenista Interamericano que prop\u00f4s aos pa\u00edses da Am\u00e9rica a ado\u00e7\u00e3o da data de 19 de abril para o Dia do \u00cdndio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil isso aconteceu ainda mais tarde. Nosso Pa\u00eds cumpriu essa recomenda\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do Decreto-lei n\u00ba5.540, de 2 de junho de 1943,&nbsp; assinado pelo ent\u00e3o Presidente Get\u00falio Vargas. &nbsp;Em 1944, o Pa\u00eds come\u00e7ou a festejar a data com solenidades, atividades educacionais e divulga\u00e7\u00e3o da cultura ind\u00edgena. Desde, ent\u00e3o, passou a existir a comemora\u00e7\u00e3o do Dia do \u00cdndio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por ocasi\u00e3o da primeira comemora\u00e7\u00e3o, em 19 de abril de 1944, do Dia do \u00cdndio no Brasil, o ent\u00e3o General Rondon, na sess\u00e3o realizada pelo Conselho Nacional de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios \u2013 CNPI (anterior \u00e0 atual Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio), discursou:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Devo dizer igualmente, aos dignos colegas do quanto me tocou a&nbsp;<strong>manifesta\u00e7\u00e3o un\u00e2nime de todos os jornais desta Capital, em<\/strong>&nbsp;<strong>comunh\u00e3o conosco<\/strong>, no decurso das solenidades em que pregamos toda a vibra\u00e7\u00e3o do nosso amor. Intimamente, tais manifesta\u00e7\u00f5es nos sensibilizaram e nos fizeram refletir que o sentimento de nacionalidade domina a orienta\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica do povo brasileiro. O nosso primeiro ensaio repercutir\u00e1 no&nbsp;<strong>esp\u00edrito p\u00fablico<\/strong>, e me conven\u00e7o de que firmar\u00e1&nbsp;<strong>pr\u00e1tica comemorativa<\/strong>, de salutar&nbsp;<strong>rea\u00e7\u00e3o c\u00edvica<\/strong>&#8230; (COMISS\u00c3O RONDON, 1946, v.100, p.17) (grifos meus).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Identifica-se, no trecho acima, a preocupa\u00e7\u00e3o com a organiza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria nacional, estabelecendo rela\u00e7\u00e3o entre ela e a origem ind\u00edgena. Hoje, a comemora\u00e7\u00e3o do Dia do \u00cdndio continua,&nbsp; mas como um lugar de mem\u00f3ria&nbsp; que para Nora \u00e9 onde a mem\u00f3ria se cristaliza e se refugia.&nbsp; \u201cA na\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais o quadro unit\u00e1rio que encerrava a consci\u00eancia da coletividade\u201d(NORA, 1993). A celebra\u00e7\u00e3o do Dia do \u00cdndio \u00e9 um lugar para registrar e lembrar o passado, onde a mem\u00f3ria dos primeiros habitantes se cristaliza. Tamb\u00e9m, atualmente, a imprensa, principalmente a m\u00eddia&nbsp; televisiva,&nbsp; celebra a \u201ccobertura\u201d dessa festa, lembrando aos brasileiros a cultura ind\u00edgena, agora,&nbsp; como fragmento de nossa hist\u00f3ria, de nossa identidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As emiss\u00f5es ao vivo da programa\u00e7\u00e3o do Dia do \u00cdndio fazem parte das comemora\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m, como lugares de mem\u00f3ria. S\u00e3o celebra\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas, em forma de narrativas, que colocam em relevo a quest\u00e3o da mem\u00f3ria, reatualizando o passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jornalista\/Comunica\u00e7\u00e3o Social\/MI<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos pr\u00f3ximos anos, poder\u00e1 n\u00e3o haver mais o Dia do \u00cdndio no Museu do \u00cdndio. Mas essa comemora\u00e7\u00e3o&nbsp; estar\u00e1 presente, certamente,&nbsp; na mem\u00f3ria das crian\u00e7as que, nos anos anteriores, visitaram o museu levadas por suas escolas para festejar o Dia do \u00cdndio. E, tamb\u00e9m, em tantas outras cabe\u00e7as que viram pelas TVs&nbsp; esse acontecimento. O aprofundamento do assunto&nbsp; acontece na minha pesquisa \u201dA constru\u00e7\u00e3o discursiva da comemora\u00e7\u00e3o do Dia do \u00cdndio no Museu do \u00cdndio pela m\u00eddia televisiva\u201d. O estudo \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o ao processo de reflex\u00e3o sobre a constru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria nacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Cristina de Jesus Botelho Brand\u00e3o* Penso a pr\u00e1tica comemorativa como um lugar de mem\u00f3ria, onde se ancoram sentimentos, lembran\u00e7as, tradi\u00e7\u00f5es e o sentido da identidade de um grupo. 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