MUNDO

O lockdown é a melhor opção?

No último dia 6 de maio, uma quarta-feira, o Governador de Nova Iorque Andrew Cuomo se disse chocado. A razão? Um levantamento feito em seu estado mostrou que, após cerca de 50 dias de lockdown, algo em torno de 2/3 dois terços das internações eram de pessoas que estavam confinadas em casa e apenas 4% dos internados haviam utilizado transporte público.

Ou seja, após um período longo de isolamento severo, há fortes indícios de que a maior parte das contaminações estão ocorrendo dentro de casa, de onde o governo proibiu as pessoas de saírem, alegando que as estava protegendo de eventual contágio.

Cuomo não pode dizer que ninguém avisou. Johan Giesecke, o epidemiologista responsável pelo liberal plano sueco, já havia afirmado que não havia evidências científicas sobre o isolamento social. Segundo informou em entrevista, há apenas duas medidas que gozam de forte base científica: higienizar as mãos e manter distância entre pessoas. Ademais, a própria OMS já havia informado que as contaminações estavam ocorrendo dentro dos lares em várias partes do mundo.

De todo modo, Cuomo tem motivos para estar chocado.

De fato, o mundo ocidental embarcou no lockdown empurrado por promessas milagrosas, seja pelo estudo do Imperial College, seja pelo suposto sucesso da China em frear a epidemia ao isolar a região de Wuhan, epicentro inicial do problema.

No caso do Brasil ainda houve a abordagem midiática que passava a mensagem de que o lockdown, ou ao menos o isolamento social ampliado (horizontal), era consensualmente recomendado por autoridades internacionais como única saída responsável.

Aliás, cabe nesse princípio do artigo fazer um esclarecimento terminológico: por lockdown, queremos indicar a determinação de proibir as pessoas de saírem de casa sem prévia autorização do Poder Público; por isolamento social ampliado ou horizontal, a vedação do exercício de atividades não essenciais; já com a expressão isolamento social vertical refiro-me àquele que atinge apenas o grupo de risco; por fim, por distanciamento social, apontamos medidas que limitam número de pessoas em estabelecimentos, impõe assentos ociosos, vedam aglomerações etc. Em geral, todas essas medidas podem ser acompanhadas por orientações de higiene (como uso de álcool gel nas mãos ou máscaras). E elas não se confundem também com a quarentena, que em nossa legislação indica o isolamento de pessoas comprovadamente contaminadas ou sob forte suspeita de contaminação.

Dito isso, e voltando às razões que levaram o Brasil e inúmeros outros países e mergulharem de cabeça no isolamento social horizontal, cremos que, com os dados agora disponíveis, podemos concluir que as três motivações eram insuficientes.

Primeiramente, quanto ao caso chinês, hoje sabemos que as informações que chegaram ao Ocidente são altamente duvidosas. Agências de inteligência, tanto americanas quanto britânicas, afirmam que o número não só de casos mas também de mortes na China é muito superior ao divulgado. Além disso, o lockdown imposto foi altamente severo e durou mais de 70 dias. Caso esses dados tivessem sido expostos inicialmente e de modo transparente, dificilmente teria havido suficiente adesão à iniciativa.

Em segundo lugar, no tocante ao estudo do Imperial College, é fato que ele ganhou manchetes de jornais como se fosse uma realidade absoluta. Alguns diziam que aquelas eram as previsões “da ciência”. Chamamos a atenção para esse equívoco em post anterior, quando alertamos:

“é interessante aqui corrigir um equívoco que tem sido comum em abordagens sobre o tema: apresentar modelos de contágio e eficácia de medidas de isolamento social como se eles fossem efetivas evidências. De modo algum. Modelos são, basicamente, fórmulas de predição com base em determinadas suposições (como taxa de mortalidade, velocidade de contágio etc.). Contudo, esses modelos podem vir a se mostrar completamente equivocados em vista de reais evidências resultantes da paulatina coleta e análise de dados à medida que o fenômeno da pandemia se desenrola.”

De uma forma ou de outra, atualmente, é sabido que as projeções do Imperial College estão brutalmente equivocadas: em primeiro lugar elas superestimam enormemente o número de vítimas fatais na hipótese de não haver isolamento social. Para o Brasil, o estudo previu mais de 1 milhão de mortos. Mais de 2 milhões nos Estados Unidos e cerca de 500 mil no Reino Unido. É difícil não aceitar qualquer coisa diante de uma previsão apocalíptica desse tipo. Mas seu principal responsável, Neil Ferguson já era conhecido por elaborar estudos alarmistas. Curiosamente, de modo pitoresco e caricatural, recentemente ele saiu da equipe do governo britânico, por ter ele próprio furado a quarentena para se encontrar com uma amante.

No caso do coronavírus, o modelo de Ferguson e do Imperial College foi aplicado para o caso da Suécia, país que não adotou isolamento social, mas apenas normas de distanciamento e higiene. Segundo a metodologia de Ferguson, na hipótese de ser mantida a atual resposta do governo sueco, o número de mortes passaria de 40 mil em 1º de maio, e nesse dia o sistema de saúde já teria entrado em colapso. Contudo, na data indicada o país escandinavo chegava a pouco mais de 2,5 mil mortes (um equívoco na ordem de 15 vezes) e seus hospitais estavam longe de colapsar.

Devemos meditar hoje sobre autopromoção que a propaganda alarmista causa quando ela consegue forçar a adesão às políticas que propõem: se a Suécia houvesse embarcado na histeria dos 40 mil mortos, e ingressado na roubada do lockdown, muitos hoje estariam atribuindo a redução de 40 para 2,5 mil óbitos ao bloqueio. Porém, não teria qualquer ligação com ele. Isso pode ter ocorrido em vários lugares que adotaram o lockdown e apresentaram resultados positivos, mas possivelmente não causados pelo isolamento.

Mas além de superestimar as mortes, o modelo do Imperial College também sobrestima a capacidade do isolamento em reduzir o número de óbitos. Para o Brasil, por exemplo, o “estudo” projetava uma redução de mais de 20x do número de vítimas fatais.

Contudo, esses dados que induziram à adoção do lockdown ou isolamento horizontal em várias nações são muito pouco críveis e não parecem estar sendo confirmados pelas evidências empíricas. Os péssimos resultados de países europeus que adotaram lockdown, como Bélgica, Itália e Espanha são indicativos da reduzida efetividade do isolamento. Nova Iorque, com os números mencionados no início desse artigo é outro trágico caso.

O simples fato de a Suécia – sem fechar escolas, comércios ou fronteiras – ter taxas de mortalidade inferiores a países que decretaram lockdown, por si só, mostra que o isolamento não é a principal determinante da curva.

O Brasil também ilustra a baixa efetividade das medidas de isolamento. Após várias semanas com atividades não essenciais paradas país afora a curva segue crescendo. Na semana do dia 23 de março, quando vários Estados-membros estavam iniciando o isolamento, o Brasil tinha cerca de 10 óbitos por dia. Depois de cerca de 50 dias, o número chegou a mais de 700 óbitos diários.

Alguém poderia alegar que é porque o Brasil reduziu pouco sua circulação, menos do que os países europeus citados acima. É verdade que o isolamento no Brasil foi menos rígido. Mas, em primeiro lugar, cabe perguntar por que deveríamos imitar países com resultados tão negativos. Em segundo lugar, o fato é que, apesar de o isolamento no Brasil ser, realmente, menos severo; nossa curva de óbitos tem sido puxada por Estados que estivaram entre os que contaram com maiores níveis de isolamento social. Com efeito, segundo os três últimos relatórios de mobilidade social do Google, Ceará, Pernambuco e Amazonas ficaram entre os estados do país com maior redução da mobilidade. São Paulo e Rio de Janeiro não figuraram muito atrás.

Por outro lado, o Mato Grosso do Sul, o Estado com menores níveis de redução da circulação, tem também o menor número de casos de COVID-19 e o segundo menor número de óbitos (10).

Esses dados indicam que o isolamento é insuficiente para determinar a dinâmica da curva de contágios e óbitos.

Essa conclusão tem sido respaldada por novos estudos empíricos. Nesse sentido, recente artigo divulgado no Portal de estudos sobre ciências da saúde MedRVix, conclui em seu abstract:

“O presente estudo fenomenológico avalia os impactos das estratégias de bloqueio total aplicadas na Itália, França, Espanha e Reino Unido, na desaceleração do surto 2020 COVID-19. Comparando a trajetória da epidemia antes e após o bloqueio, NÃO ENCONTRAMOS EVIDÊNCIAS DE DESCONTINUIDADE na taxa de crescimento, tempo de duplicação e tendências dos números de reprodução. Extrapolando as tendências da taxa de crescimento antes do bloqueio, fornecemos estimativas do número de mortos na ausência de políticas de bloqueio e mostramos que ESSAS ESTRATÉGIAS PODEM NÃO TER SALVADO NENHUMA VIDA na Europa Ocidental. Também mostramos que os países vizinhos que aplicam medidas de distanciamento social menos restritivas (em oposição à contenção domiciliar imposta pela polícia) experimentam uma evolução temporal muito semelhante da epidemia.”

O autor da pesquisa afirmou que “enquanto novos tratamentos médicos propostos para curar os casos COVID-19 devem ser validados por meio de estudos controlados, double-blind-review, e análises de custo/benefício, estratégias de distanciamento social não estão sujeitas a testes comparativos” (p.1). Basicamente, elas foram tomadas mesmo diante de baixíssimo grau de evidência.

E ainda asseverou: “No entanto, medidas de bloqueio total, como as aplicadas na Itália, França, Espanha e Reino Unido não são postas em prática em países da Europa Ocidental há séculos, e por isso seus efeitos negativos em problemas de saúde mental e física na população contemporânea são amplamente desconhecidos. A epidemia de COVID-19 mostrou que, por si só, afeta a saúde mental, incluindo síndromes de ansiedade e depressão e as consequências do isolamento poderiam potencializar essas condições. Na ausência de qualquer controle de grupo, os impactos na população da Europa Ocidental não será mensurável por meses. Mesmo assim, o aumento da mortalidade devido a dificuldades de acesso a cuidados básicos de saúde, incremento de problemas mentais ligados ao isolamento, bem como consequências sociais da recessão econômica, apesar de não serem quantificáveis, são previsíveis.” (p. 1)

Ele não está sozinho ao chamar a atenção para esse problema. Com efeito, nenhuma política pública possui apenas benefícios. Elas também sempre possuem custos. No caso do isolamento social, os custos humanos e sociais são elevadíssimos.

Nesse sentido, um estudo feito por três estudiosos americanos, projetou que o número do que intitularam “mortes por desespero decorrentes do COVID-19” nos Estados Unidos, isto é, óbitos em consequência do abuso de álcool, drogas e suicídios, em virtude da depressão econômica, estresse e solidão decorrente do isolamento podem ultrapassar a casa das 154 mil pessoas. Numa análise mediana, as vítimas chegariam a 68 mil.

Não é difícil de imaginar que fenômeno semelhante se abaterá sobre o Brasil. Realmente, “uma pesquisa sobre o comportamento dos brasileiros durante o isolamento, do professor Alberto Filgueiras, do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mostrou que os casos de depressão praticamente dobraram, enquanto as ocorrências de ansiedade e estresse tiveram um aumento de 80%, nesse período de quarentena.”

Fenômeno semelhante foi constatado nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Não é só. As restrições ao atendimento de outras doenças, poderão vir a gerar forte prejuízo à saúde de milhares de pessoas. Segundo recentemente noticiado pela Gazeta do Povo, o “combate à Covid-19 deixa outras doenças desassistidas e abre margem para colapso do SUS“.

Frise-se, ainda, que países que optaram por abordagens que souberam conjugar seriedade e profissionalismo com os princípios de uma sociedade livre e responsável, como ocorreu em Taiwan ou na Coreia do Sul, obtiveram resultados muito superiores a várias nações que optaram pelo isolamento. Fenômeno semelhante também ocorreu entre estados-membros dos Estados Unidos e do Brasil: algumas localidades com menores restrições, mas que adotaram medidas rígidas de distanciamento, higiene e possuíam um sistema de saúde mais bem preparado, têm resultados superiores a localidades sob isolamento.

Com isso, cremos que demonstramos que as promessas miraculosas e alarmistas do Imperial College e da experiência em Wuhan eram insuficientes, por si sós, para adoção do isolamento social, como se ele fosse uma panaceia, sem ponderar seus enormes custos sociais, sua real necessidade e suas alternativas.

Ficou ainda aberta a terceira razão para adoção em bloco do isolamento social horizontal no Brasil: a divulgação intensa de declarações e fatos que pareciam indicar um “consenso internacional” de que a medida seria a única vista como responsável pelas autoridades.

Bom, sobre isso, a própria porta-voz da OMS fez declaração peremptória recentemente, divulgada em texto de Flávio Gordon de 6 de maio, para a Gazeta do Povo:

“Elogiando a decisão do governo australiano, a porta-voz da Organização Mundial da Saúde (OMS), dra. Margaret Harris, afirmou que o relaxamento só surge como perspectiva para a Austrália porque, muito além de simplesmente adotar um lockdown rígido, o país adotou desde o início, por assim dizer, um lockdown dinâmico: com testes em massa, mapeamento das zonas com maior grau de contágio comunitário, isolamento direcionado, medidas sanitárias customizadas por região etc. Mencionando também o que foi feito em Wuhan – o epicentro da pandemia –, a dra. Harris acrescentou: “Portanto, há muito mais coisas envolvidas do que simplesmente fechar tudo”.

Mas a fala mais inusitada da representante da OMS, segundo informa reportagem do jornal australiano The Sidney Morning Herald, foi aquela que desafia frontalmente a visão consensual acerca das orientações dadas pela organização, e que parece contradizer diretrizes anteriores. Nas palavras da dra. Harris: “Nós nunca recomendamos o lockdown. O que dissemos foi para rastrear, investigar, isolar e tratar”.“

Ainda, conforme matéria da Agência Brasil, a OMS asseverou que a Suécia, que não fez isolamento social (apenas medidas de distanciamento e higiene, além de assegurar um sistema de saúde robusto), seria um exemplo a ser seguido. A Suécia soube contar com os princípios de uma sociedade livre e responsável.

Segundo o mentor do plano liberal adotado pela Suécia:

“A estratégia tem também uma componente de confinamento, mas é voluntária. Não há leis, não há polícia nas ruas. Mas a ideia principal por trás da estratégia sueca é que as pessoas não são estúpidas: se dissermos às pessoas que esta é uma boa forma de não ficarem infectadas, de proteger outras pessoas, elas normalmente fazem o que se lhes diz. Percebem e seguem os conselhos.”

Ou seja, jamais estivemos entre uma questão binária, dicotômica: entre não fazer nada para preservar a saúde, ou determinar o isolamento social ampliado. Há várias soluções possíveis, muitas medidas diversas, capazes de quando conjugadas, num plano sério e profissional, ter efeitos inclusive superiores ao do isolamento, e sem os seus enormes custos humanos e sociais.

Fonte: Gazeta do Povo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *