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A ESCOLA DE CRONOS: O “DEUS” QUE DEVORA CONTEÚDO E GERA ANGÚSTIA EM TEMPOS DE PANDEMIA

Em relação com o que estamos vivendo nestes últimos meses, observamos um cenário mundial inusitado, onde somos afetados pela pandemia decorrente da COVID-19. Pode-se refletir que o tempo vivido e o tempo cronológico estão em real descompassos. Os números de casos de infectados pelo coronavírus em nosso país, está cada vez mais alarmante e todos estamos impactados, inclusive no meio educacional, pois, além das angústias próprias dessa situação, há obrigatoriedade de cumprimento da carga horária e dias referentes aos conteúdos escolares, via atividades remotas, numa ação que supõe garantir o ensino e a aprendizagem.

 Na Lei de nº 9.394 de 1996, também conhecida como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, é sinalizado em seu artigo 24 e 31, que no ensino fundamental e médio e na educação infantil, respectivamente, o ano letivo será organizado por intermédio da carga horária mínima de 800 horas, distribuídos em 200 dias letivos. Os professores, nesse caso, são incumbidos de ministrar os dias-letivos, além de horas dedicados ao planejamento, avaliação e a formação profissional.

Alguns meses do ano letivo 2020 se passaram e o desafio do cumprimento legal é posto à prova, demandando respostas à comunidade escolar que podem ter interpretações variadas. Há um tempo que está sendo perdido? O tempo está sendo devorado? Ou seria tempo de criação e valorização da experiência vivida?

Lembremos que a escola está para-além dos seus muros, e que é lugar facilitador das aprendizagens, sendo espaço de convivência e, por tudo, formativa. Nesse sentido, qual melhor interpretação, ou ainda, qual resposta poderia a escola produzir, no veio legal, considerando a situação angustiante que todos estamos a viver?

Na mitologia grega, Cronos é conhecido por ser o deus do tempo, que controla o início e o fim de tudo, que consome as coisas, as pessoas e rege os destinos. O deus Cronos destrona o senhor do céu Urano – seu pai, para comandar o princípio e o fim de tudo. A escola disciplinar, conteudista, adestradora de corpos, como outrora já nos apontava Michel Foucault, está bastante envolvida em suprir um tempo que considera perdido perante o perigo à sua porta. A escola, pelo viés Cronos, destrona a vida, marcando-a com a exaustão de envio de “tarefas e mais tarefas” em regime domiciliar, levando ao ambiente doméstico o “correr contra o tempo”. As escolas impõem, ao assistirem aulas remotas no modo virtual, uma preparação do ambiente doméstico comparado a escola, inclusive, em alguns casos, obrigando os alunos a utilizarem o fardamento escolar, orientando os pais a fotografar e comprovar que o tempo estava sendo destinado a execução das tarefas.

O Cronos neste tempo de pandemia vai ordenando que todos, absolutamente todos, estejam em torno do foco conteudista, de tentar dar conta de uma lista de conteúdos que talvez, para muitos, nesse dado momento, seja vazio de sentido, já que o saber se dá na relação de “ensinagens e aprendizagens”, em que as engrenagens funcionam pelo o envolvimento de todos.

Após destronar o pai Urano, todos aqueles que nasciam de sua mãe Gaia eram devorados por Cronos, assim também nossos estudantes estão sendo “devorados” por uma série conteudista e disciplinadora, para sanar a preocupação de pais quanto ao “investimento escolar”, as ameaças em ter que passar de ano e estar competitivo para o ENEM ou para as avaliações educacionais, que visam produzir índices.

Cronos é o devorador do destino, assim há picos de ansiedade em todos os lados, e na família não é diferente, já que, atualmente, o lar virou também o home office. Para uns é a experiência da crueldade vivida na própria condição de trabalho docente, que já era precarizado. Os professores, arremessados à boca devoradora de Cronos, têm que atender a todo momento demandas de alunos e pais via as telas, como um buraco negro a sugar suas energias.

Se antes o professor tinha um tempo já reduzido para recompor sua vitalidade, nos raros momentos de descanso, agora o seu tempo não o pertence mais, definitivamente. As cobranças ilimitadas do sistema educacional, seja na rede privada ou pública, via de regra, consomem o tempo vida…

Diante disso, podemos refletir sobre várias questões, dentre elas elencamos: esse contexto de isolamento social está sendo considerado como uma “perda de tempo” para os escolares e famílias? O que pensam os estudantes sobre? Será que há aprendizagens do viver capazes de agregar a essas e as próximas gerações diante da gravidade de tudo o que vivemos? Vale a pena continuar realizando aulas remotas para suprir o que se considera “tempo perdido”?

Cronos é o deus que controla o tempo desde o nascimento até à morte.  Ele é cruel, escraviza os seres dentro de seu tempo, nos mantém na sensação do tempo que passa e se perde. Em nossa sociedade sente-se profundamente isso porque vivemos enquadrados nas horas contadas do relógio, encaixados nas expectativas sociais e tantas vezes nos perdemos de nós mesmos. Cronos é também o deus da agricultura, que assim como nós humanos com nossas polaridades entre aspectos favoráveis e desfavoráveis, ele também nos indica que há tempo para plantar e tempo para colher. Ou seja, há tempo para tudo, tempo para refazer o tempo, seja na escola ou na própria vida.

Assim como no mito de Cronos, a escola está abarcando a luta para vencer o tempo estipulado por um sistema, que devora e aprofunda a angústia, levando a todos a viverem impactos e distanciando ainda mais o prazer pelas “ensinagens e aprendizagens” que acontecem com o próprio viver, com as experiências, com a convivência com quem está mais próximo, com todo o planeta que tenta se equilibrar dia após dia em torno de conflitos que impossibilitam a integridade humana.

Que as nossas preocupações sejam reservadas para o agora, sabendo viver o hoje com o que nos é possível realizar, adotando medidas que pensem no aluno, no professor, no pai/mãe/cuidador enquanto pessoa e não alguém que precisa produzir para alimentar os números de um sistema que a todo custo quer devorar e consumir o que ainda há de humanidade.

Clara Maria Miranda de Sousa
(Psicóloga, Pedagoga e Mestra em Formação Docente e Práticas Interdisciplinares)
Marcelo Silva de Souza Ribeiro
(Dr. em Educação e Prof. da Univasf)

Pesquisadores no Laboratório de Estudos e Práticas em Pesquisa-Formação (LEPPF).

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