Após o velório, o corpo de Mãe Carmen do Gantois foi levado em cortejo fúnebre até o Jardim Saudade, em Brotas, na manhã deste de sábado (26). Uma das figuras mais emblemáticas do Candomblé na Bahia, a ialorixá, que comandou o Terreiro do Gantois por 23 anos, morreu na última sexta (26), após tratamento de uma forte gripe.
Dezenas de carros acompanharam o cortejo. O corpo saiu do Terreiro do Gantois, na Federação, e passou pelos terreiros da Casa Branca e Oxumarê e chegou ao Jardim da Saudade, em Brotas, por volta das 11h. Moradores, filhos de santo e personalidades públicas, como a cantora Daniela Mercury, realizaram o trajeto.
Antes do cortejo, Daniela Mercury participou de um cerimônia reservada apenas para os frequentadores do Gantois. Já no cemitério, a cantora, visivelmente abalada, artista exaltou trajetória e a importância da figura para o candomblé.
“Eu estou acompanhando Mãe Carmen há mais de 30 anos, desde que ela estava do lado de Mãe Cleuza. Foi uma acolhida eterna que ela sempre me deu. Eu tenho uma admiração por ela como líder e, hoje, nós temos que reverenciar essa líder religiosa que eu acredito que seja a líder de candomblé mais importante do mundo”, destacou.
Daniela afirmou que, mesmo mobilizada, quis se despedir presencialmente em nome da relação que possuía com Mãe Carmen. “Venho aqui pelo amor que sinto, pela história, amizade, admiração,para reverenciá-la e para acalmar meu coração por estar perto dela pela última vez”, disse.
O senador Jaques Wagner participou do cortejo representando o presidente Lula. “O presidente me ligou ontem e me pediu que viesse hoje ao Gantois representá-lo. Eu disse a ele que já tinha me programado para estar aqui e, hoje, portanto, trago todo o carinho e a solidariedade dele e de Janja neste momento tão simbólico e tão importante para todos nós”, destacou.
No cemitério, um dos primeiros a chegar foi o prefeito Bruno Reis, que destacou a relevância da ialorixá e o legado deixado por ela para Salvador. “Foi uma das principais ialorixás da Bahia em um dos terreiros mais tradicionais. Uma mulher muito sábia, que sempre teve proximidade muito grande com os mais pobres e os mais carente, um exemplo a ser seguido por todos e que deixa um legado para a nossa cidade”, disse.
“Sem sombra de dúvidas, hoje é um dia muito triste. O povo de santo perde uma pessoa que era uma inspiração e referência, mas que com certeza deixa exemplos que serão seguidos e perpetuados para gerações presentes e futuras”, acrescentou Bruno Reis.
ACM Neto, ex-prefeito de Salvador, que chegou ao lado de Bruno Reis, relembrou a relação que possuía com Mãe Carmen e a admiração que sempre nutriu por ela. “Minha presença aqui hoje tem muito pouco a ver com política e muito a ver a com o carinho, admiração e respeito que tinha com ela, a energia que ela transmitia para todos nós”, ressaltou.
“Sempre foi impactante estar lá no Gantois com ela e ser recebido por ela. Às vezes, só para conversar e ouvir conselhos. É incrível, porque a gente sempre saía com a energia completamente renovada, com uma força e proteção enormes. Ela era uma unanimidade, em todos os sentidos. Uma unanimidade para a religiosidade baiana, para a política, arte e cultura”, destacou.
Mãe Carmen do Gantois foi uma das mais respeitadas lideranças religiosas do candomblé na Bahia. À frente do tradicional Terreiro do Gantois por 23 anos, a ialorixá teve papel fundamental na preservação dos rituais, da ancestralidade africana e do diálogo do candomblé com a sociedade. Reconhecida pela postura firme e, ao mesmo tempo, acolhedora, Mãe Carmen também se destacou na defesa da liberdade religiosa e no enfrentamento à intolerância.



