BAHIA

Centenário de Luis Henrique Dias Tavares celebra um dos maiores historiadores da Bahia

Luis Henrique Dias Tavares completará no domingo, dia 25 de janeiro, 100 anos de nascimento. Mas a verdade é que o professor, falecido em junho de 2020, viveu mais de cinco séculos. Historiador, escritor e jornalista, marcou o seu nome na história contando de maneira única como a Bahia se formou, com um olhar especial para as lutas pela independência do estado – e o seu desfecho, com a retirada das tropas portuguesas do Brasil. Conseguiu fazer isso com a profundidade de um pesquisador incansável e a qualidade narrativa de um grande cronista.

“O professor”, como o filho Luis Guilherme Pontes Tavares, costuma se referir ao pai, nasceu em Nazaré das Farinhas e ainda estava no ginásio quando publicou o seu primeiro trabalho literário, em 1942, num jornal fundado por ele, com Clóvis Neiva Noya, chamado “O Parlapatão”. Mais de 15 anos depois, aparece entre os fundadores do Jornal da Bahia, onde manteve uma coluna até 1962. Diplomou-se pela Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia (1951) no curso de Geografia e História. Fez concurso para professor do ensino médio, sendo aprovado em primeiro lugar (1953).

Prestou concurso em 1961 para a Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e obteve o título de Doutor em História e a cátedra de História do Brasil. Sempre focado em chegar o mais perto possível das fontes primárias da história, realizou pesquisas tanto no Brasil, quanto em Portugal e Inglaterra, fundamentais para a compreensão da formação e a independência do Brasil, e do odioso comércio de pessoas escravizadas.

O jornalista Luis Guilherme Pontes Tavares lembra de duas características marcantes no pai: a capacidade de se “doar inteiramente” a qualquer coisa que fizesse e a facilidade no trato com as pessoas. “Eu vejo nele uma pessoa trabalhadora, executora dos projetos que elegia, extremamente comprometido com a liberdade”, diz. “Era de uma disciplina filha da mãe”.

“Me sinto muito tranquilo para falar sobre o professor, porque a minha relação com ele era de parceria e dedicação, principalmente quando precisou mais de atenção. Ele foi um exemplo para mim, porque, mesmo tardiamente, fiz mestrado e doutorado, sem nenhuma influência, apenas por vê-lo como um exemplo”, completa a descrição Luis Guilherme. Chamar o pai de professor é uma homenagem, diz Luis Guilherme. “Meu pai dizia que apreciaria se o último dia de vida dele fosse em sala de aula”, lembra.

O filho conta que Luis Henrique circulava muito e, ao contrário de muitos na sua geração, era acessível a quem o procurasse. Seu gabinete na faculdade vivia de portas abertas, conta.

Não gostava de viajar para fazer turismo, diz o filho. Quando a esposa e companheira de toda a vida, Laurita Pontes Tavares, o convencia a viajar, topava, a muito custo “por ela”.

Para o filho, a qualidade textual de Luis Henrique era oriunda do jornalismo. “Ele tinha uma enorme capacidade de pesquisar e reunir as informações para uma viagem no tempo, eu acredito que era a habilidade de cronista que o ajudava a reunir tudo aquilo”, pondera.

Simples e gentil

A simplicidade e gentileza que marcou a vida do professor Luis Henrique Dias Tavares é confirmada pela jornalista e pesquisadora Mariluce Moura, cujo primeiro contato com ele aconteceu aos 11 anos. Na época, ele já era um respeitado escritor, enquanto ela, estudante do antigo colégio de aplicação da Ufba, em 1962. Uma das suas professoras apontou o historiador à distância como o autor de um livro que a turma estudava na escola. “Fiquei encantada porque era fissurada por livros e estudar a obra de alguém que estava ali tão perto era incrível”, diz. “Durante todo o tempo de ginásio conhecemos muitos textos dele, primeiro como cronista e ficcionista, só depois vim conhecer ele como historiador”, lembra.

Quando se tornou jornalista, Mariluce teve algumas oportunidades de entrevistar Luís Henrique. “Aquela humildade dele era marcante. Era um grande barato ver um cara que estava decifrando um front na pesquisa de história ser tão acessível quanto ele. Ninguém estudou isso por tanto tempo e com a mesma profundidade, mas mesmo assim nunca deixou de ser um cronista”, acredita.

Companheira Laurita Pontes Tavares acompanhou o professor por toda a sua jornada Crédito: Acervo Família

As conversas eram sempre agradáveis, lembra a jornalista. Em janeiro de 2006, quando Mariluce já tinha se tornado fundadora de uma das mais importantes revistas de divulgação científica do país, a Pesquisa Fapesp, ela publicou uma entrevista com o professor a respeito da “quase desconhecida” guerra de independência que aconteceu na Bahia. Foram mais de duas horas conversando, lembra a professora. Do outro lado, o interlocutor, com 80 anos na época, recitava detalhes do conflito que culminou no celebrado Dois de Julho. “Era um senhor do saber”, define.

“Ele era um bom prosador, excelente escritor e tinha toda uma experiência de escrever crônicas para a imprensa, além de estar sempre em diálogo com os alunos, como professor. Não era só uma boa escrita, era o poder de narrar. Quem tem este domínio da linguagem não precisa ficar enrolando”, acredita Mariluce Moura. “Falava e escrevia com uma simplicidade muito grande e profunda, é isso que os grandes escritores perseguem”.

Colégio da Bahia

No antigo Colégio da Bahia, hoje Central, Luis Henrique Dias Tavares marcou positivamente a vida de muitos alunos. Um deles foi o poeta e jornalista Florisvaldo Mattos. Quando chegou a Salvador, oriundo de Itabuna, no Sul da Bahia, ainda adolescente, em 1952, deparou-se com um jovem e brilhante professor de história do Brasil.

“A sorte na vida emerge às vezes como erupção de oportunidades. Na época, no Colégio da Bahia, a Secretaria de Educação do Estado incorporava nas diversas classes um grupo de professores estreantes, entre os quais encontrava-se Luís Henrique Dias Tavares”, recorda-se. “Travamos respeitosa e cordial relação entre professor e aluno, até o ano de 1954, quando me submeti e venci o vestibular da Faculdade de Direito, da então Universidade da Bahia (a designação de Federal, só seria adotada em 1977)”, lembra.

Para Florisvaldo, o mais encantador nas aulas do professor Luis Henrique era a maneira de expor os conteúdos, muito diferente da retórica tradicional e as novas abordagens de fatos históricos. “Havia novas ideias e abordagem de fatos históricos dentro de uma moderna linguagem discursiva, que atraía e agradava satisfatória e positivamente os alunos”, lembra.

Quando chegou a Salvador, o professor Florisvaldo já sonhava com a literatura. Foi neste contexto que se interessou por conhecer os poetas e escritores da geração que ficou conhecida como “Caderno da Bahia”, da qual fazia parte o jovem professor de história, com seus contos e crônicas. Ao lado dele, figuravam nomes como Camilo de Jesus Lima, Jair Gramacho, Vasconcelos Maia, Wilson Rocha, Cláudio Tuiuti Tavares e Nelson de Araújo, entre outros.

No campo da pesquisa histórica, Florivaldo Mattos lembra das pesquisas e publicações em torno do movimento libertário da Revolução dos Alfaiates, também chamada Revolta dos Búzios, deflagrada em 1798. Ele usou alguns destes conteúdos para compor uma dissertação do seu curso de mestrado em Ciências Sociais na Ufba. O trabalho foi reeditado como um livro, com o título de “A Comunicação Social na Revolução dos Alfaiates”, com a Assembleia Legislativa, resolvendo reeditar em 1998, pela comemoração dos 200 anos da insurgência, repetindo-a em 2018, pelos seus 220 anos.

Para Florisvaldo Mattos, qualquer estudo da literatura baiana na segunda metade do século XX precisa levar em conta a produção do professor Luis Henrique.

Fernando da Rocha Peres também conheceu Luis Henrique no antigo Colégio da Bahia. “Ele nos apoiou quando fizemos um movimento cultural, eu, Glauber Rocha, Calazans Neto, Paulo Gil Soares e tantos outros que participaram daquela atividade e tantas outras que tivemos nos anos em que estivemos ali a estudar”, lembra o poeta, historiador, professor e administrador cultural. “Era o início de sua carreira como docente, só depois se fixou como professor de história e chefe de departamento da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas”, conta.

“O livro que ele publicou sobre a história da Bahia é único, porque ele passou muitos anos pesquisando aqui nos arquivos do Brasil e também no exterior. Nos deixou uma obra que é até hoje um livro que abarca desde a fundação da cidade de Salvador aos anos mais recentes do século passado”, destaca.

Segundo o amigo, um dos capítulos mais marcantes e tristes da vida do professor foi o período que passou na prisão durante o regime militar. Ele exercia a função de diretor do departamento cultural da Secretaria de Educação do estado – o que equivalente nos dias de hoje à Fundação Cultural, compara. “Luis Henrique foi membro do Partido Comunista Brasileiro, certamente por isso foi preso, mas houve um episódio que também foi determinante. Uma bienal foi montada e acabou sendo censurada por conta de um quadro exposto. Estas duas coisas levaram à iniciativa extremamente violenta de prender nosso querido amigo”, lembra.

“Ele deve ser lembrado como historiador, docente e escritor de ficção. Tudo isto dá a ele um lugar muito importante dentro da cultura baiana. Precisamos celebrar muito este centenário”, acredita.

Fernando Oberlaender, sócio e editor da Caramuru, lembra que foi o CORREIO quem o apresentou ao professor Luis Henrique. Quando o jornal criou uma edição especial para o domingo, no ano 2000, o historiador foi convidado a publicar uma nova edição do seu famoso livro “História da Bahia” em fascículos semanais e Oberlaender, para ilustrar o livro. “Quando vi o material, percebi que não cabia ilustração, mas tive a honra de editar o material, que vendeu mais de 15 mil coleções. Foi um negócio absurdo”, lembra.

Entretanto, mais surpreendente que o sucesso editorial foi o primeiro contato com o professor, diz. “Ele foi de uma generosidade e delicadeza gigantesca comigo, que nunca tinha editado um livro antes”, conta. “Luis Henrique não era apenas um homem educado, era gentil de todas as formas que uma pessoa é capaz de ser. Mesmo sendo um escritor consagrado, um grande historiador, escutava minhas sugestões com uma atenção impressionante”, diz o editor.

Um dessas sugestões foi a de inserir, “de algum modo”, a figura de Castro Alves, que não constava na obra original. “Era um projeto popular, eu perguntei se não poderíamos inserir o poeta de alguma forma, e sugeri uma biografia de grandes baianos no final dos fascículos. Castro Alves entrou lá”.

“Luis Henrique era minuciosamente estudioso, em um tempo que não tinham as facilidades da internet e de arquivos digitais. Antes, para descobrir algo, tinha que cheirar mofo, ácaro e ele era um cara que tinha essa coisa da pesquisa textual”, lembra. “Posso dizer que foi ele quem conseguiu esquematizar da forma mais completa a história da Bahia. Sintetizou 500 anos, sem perder a profundidade”, acredita.

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