O influenciador baiano Lipe Daily virou alvo de críticas nas redes sociais após a circulação de um vídeo associado à trend ‘treinando para caso ela diga não’, que vem sendo apontada por internautas como conteúdo misógino e que pode incentivar violência contra mulheres.
No vídeo, originalmente publicado no TikTok, o criador de conteúdo aparece simulando um pedido de casamento que termina em rejeição. Logo depois, a gravação corta para uma cena de videogame na qual um personagem dispara um míssil que destrói uma casa, o que muitos usuários interpretaram como uma suposta ‘vingança’ pela recusa.
A historiadora e também influenciadora Yara Damasceno, usou seu Instagram para denunciar o conteúdo, alertando que esse tipo de publicação normaliza discursos violentos e relativiza a violência de gênero.
A repercussão negativa foi rápida e, diante das críticas, o influenciador (que acumula 1,5 milhão de seguidores) acabou removendo o vídeo de suas redes.
Para Yara, é importante que o público repense o apoio a criadores que compartilham conteúdos considerados problemáticos. Ela também afirmou que deixar de seguir perfis que reproduzem esse tipo de material pode ser uma forma de posicionamento.
“Combater a violência contra a mulher exige coragem. Parar de seguir também é uma forma de dizer que você não compactua com o que aquela pessoa faz”, disse. Após a denúncia, Yara revelou ter sido bloqueada por Lipe. Segundo a historiadora, o influenciador alegou que ela teria tirado de contexto apenas para “crescer” em cima da imagem dele. “Ele disse isso em pleno 8 de março”, criticou ela.
Procurado pelo CORREIO para comentar a repercussão, Lipe Daily afirmou que o vídeo não foi criado como parte da trend atual e que o conteúdo teria sido publicado originalmente em 2024, antes mesmo desse tipo de trend existir.
Segundo ele, a intenção do vídeo era justamente fazer uma crítica ao comportamento de homens que não aceitam a rejeição de uma mulher. O criador explicou que, na legenda original, o conteúdo indicava que o “míssil” seria direcionado para a própria casa dele, e não para a casa de uma mulher, como forma de ironizar esse tipo de comportamento violento.
“A ideia do vídeo foi justamente inverter isso. Se alguém quer machucar uma mulher porque ela disse ‘não’, que direcione isso para si mesmo”, explicou Lipe. Ele afirmou que a referência ao jogo era uma metáfora ácida para o público masculino repensar atitudes tóxicas e que repudia a “cultura redpill” e qualquer discurso de ódio contra mulheres. “Fui tirado completamente de contexto”, desabafou.
Formado em engenharia pela Universidade Federal da Bahia, Lipe Daily ficou conhecido na internet por vídeos de humor, reflexões sobre relacionamentos e conteúdos voltados para estilo de vida. Ele também comercializa cursos voltados para quem deseja trabalhar como influenciador digital, nos quais compartilha estratégias que, segundo ele, ajudaram seu perfil a alcançar mais de um milhão de seguidores em pouco tempo.
Após o caso viralizar, Yara Damasceno publicou um novo vídeo em suas redes nesta segunda-feira (9), a historiadora rebateu o argumento de que o míssil seria jogado na “própria casa” do criador de conteúdo.
“Nesse caso específico, se o míssil fosse jogado na casa do cara, isso já se qualificaria como violência psicológica”, apontou Yara, destacando que a simples ameaça de uma reação extrema após um “não” já é uma forma de coerção e terror. “Isso não é humor. Na vida real, a gente sabe muito bem como essas histórias costumam terminar, né? Não dar palco para criadores que constroem audiência em cima disso é nossa responsabilidade”, finalizou.
- Leia a nota enviada pelo influenciador na íntegra:
Eu não participei dessa trend que está circulando agora. O vídeo que estão usando foi publicado em 2024, quando essa trend sequer existia. Na época, ele foi feito justamente como uma crítica ao comportamento de homens que não aceitam o “não” de uma mulher.
No vídeo eu faço uma referência ao míssil teleguiado do jogo Call of Duty: Modern Warfare, em que você controla o míssil e escolhe o alvo. A ideia do video foi justamente inverter isso: na legenda do vídeo está escrito literalmente “mísseis pra minha própria casa”, ou seja, se alguém quer machucar uma mulher porque ela disse “não”, que direcione isso para si mesmo e não contra ela.
Era uma crítica dentro do quadro de humor ácido STAY TOXIC, feito em 2024, quando essa trend não existia. Inclusive, na época o vídeo teve repercussão positiva justamente por ser interpretado como uma crítica ao feminicídio.
A referência ao jogo foi proposital, porque muitos homens que jogam Call of Duty entenderiam imediatamente a metáfora, e isso ajudaria a mensagem a atingir justamente o público masculino que precisa refletir sobre esse tipo de comportamento.
Se essa trend já existisse naquele momento, eu jamais faria esse vídeo, justamente por não concordar com esse tipo de ação. Quem acompanha meu conteúdo sabe muito bem que eu sou totalmente contrário à cultura redpill e a qualquer discurso misógino.
Infelizmente, agora em 2026, ao pesquisarem vídeos por causa dessa trend misógina, o meu acabou aparecendo junto e foi tirado completamente de contexto, ignorando inclusive a própria legenda do vídeo.
Quem me acompanha sabe que sempre fui contra qualquer tipo de violência e tenho mais de 100 conteúdos no perfil deixando claro isso.



