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A verdadeira história do Pix: como técnicos do Banco Central criaram o sistema que mudou a economia do Brasil

O Pix mudou completamente o jeito que o brasileiro lida com o dinheiro. Hoje, é difícil encontrar alguém que saia de casa com a carteira cheia de notas ou que ainda lembre o que significam as siglas TED e DOC. Mas, por trás da facilidade de transferir bilhões de reais com poucos cliques no celular, existe uma história de desenvolvimento puramente técnico que começou bem antes do que a maioria pensa.

Ao contrário do que dizem nas redes sociais em época de eleição, o Pix não foi inventado por um presidente ou partido específico. Ele nasceu como um projeto de Estado, desenhado e executado integralmente por funcionários concursados do Banco Central.

Os primeiros passos aconteceram ainda no primeiro semestre de 2018, no governo de Michel Temer, quando o BC criou um grupo de trabalho para estudar os pagamentos instantâneos. Foram mais de seis meses de reuniões entre técnicos, bancos e empresas de tecnologia para estruturar as bases do sistema, que avançou nos anos seguintes e começou a funcionar para valer em novembro de 2020.

A engenharia do Pix foi liderada por servidores de carreira da instituição. O grande nome dos bastidores é o engenheiro Carlos Eduardo Brandt, chefe de departamento no BC e considerado o “mentor” técnico da ferramenta. O objetivo da equipe dele era modernizar o mercado financeiro, baratear os custos das transações e incluir no sistema bancário milhões de brasileiros que só usavam dinheiro vivo.

A desconfiança dos bancos

No início de 2020, os grandes bancos olhavam o Pix com desconfiança. Afinal, as instituições sabiam que perderiam muito dinheiro com o fim das tarifas de transferência e das taxas de manutenção de conta. Além disso, precisaram investir pesado em segurança para evitar fraudes em transações que passaram a acontecer em tempo real.

Hoje, o Pix é o coração dos aplicativos bancários e das fintechs. Ele virou a principal porta de entrada para os bancos atraírem clientes e oferecerem outros serviços, como empréstimos personalizados, seguros e opções de investimento.

Sucesso em números e exportação

O uso da ferramenta superou até as previsões mais otimistas do comitê de implementação do Banco Central. Dados oficiais mostram que o Pix dominou o mercado nacional, sendo responsável por 54,7% de todas as transações financeiras do país no segundo semestre de 2025.

Foram 42,9 bilhões de operações no período, movimentando uma fatia impressionante dos R$ 68,2 trilhões que circularam no comércio brasileiro no fim do ano passado. O sistema conta atualmente com mais de 170 milhões de usuários e tem a adesão de 904 instituições financeiras.

O valor médio das transferências subiu para R$ 456, mostrando que o Pix conquistou também os pagamentos mais altos. Além de virar o motor do comércio local, ajudando principalmente autônomos, feirantes e lojistas a se livrarem das taxas das maquininhas, o modelo virou artigo de exportação. Países vizinhos como Colômbia, Argentina, Chile e Peru estão estudando a estrutura brasileira para copiar o modelo em suas economias.

A disputa pelo troféu político

Por ser um sucesso absoluto, o Pix acabou virando o centro de uma queda de braço política. De um lado, aliados e filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro defendem que o sistema é uma entrega da gestão passada, destacando que ele foi lançado em 2020, durante a pandemia.

Do outro lado, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva lembra que os estudos e o planejamento começaram anos antes de 2019. O foco da atual gestão tem sido a evolução da plataforma, com a criação de novas funções, como o Pix Automático para contas recorrentes, e o aumento da segurança.

Toda essa discussão, no entanto, ignora o fato de que o Banco Central é autônomo e que o projeto foi feito por técnicos de carreira, independentemente de quem senta na cadeira presidencial.

A bronca dos Estados Unidos

A eficiência do modelo criado pelos técnicos brasileiros acabou incomodando também o governo dos Estados Unidos. O Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) incluiu o sistema em um relatório oficial que investiga supostas práticas comerciais desleais do Brasil.

A queixa de Washington foca na forma como o sistema funciona, o Banco Central atua ao mesmo tempo como o regulador que cria as regras e o operador que cuida da tecnologia. Para os americanos, o BC cria um conflito de interesses e acaba protegendo o Pix de forma injusta, prejudicando grandes multinacionais americanas de cartões de crédito (como Visa e Mastercard), que perderam muito espaço no mercado brasileiro.

Os americanos também criticam o fato de o Banco Central proibir os bancos de cobrarem taxas de pessoas físicas pelo Pix e limitar a taxação sobre empresas. Sob a liderança do presidente Donald Trump, o governo americano usa esse argumento econômico para ameaçar o Brasil com a aplicação de um “tarifaço” de 25% de imposto sobre diversos produtos brasileiros exportados para lá.

Blindagem do sistema

Para proteger o Pix tanto dessas brigas políticas internas quanto das pressões de fora, o setor privado resolveu se posicionar. Em nota oficial, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) deixou claro o papel da ferramenta:

“O Pix não é um produto comercial de propriedade do ecossistema bancário brasileiro para competir com as empresas de cartões americanas. Trata-se de uma infraestrutura pública de pagamentos, de propriedade e gestão do Banco Central do Brasil, desenvolvida com o objetivo de aumentar a concorrência no mercado de pagamentos e promover a inclusão financeira dos cidadãos brasileiros.”

Com isso, bancos e técnicos mandam um recado claro, o Pix é uma conquista técnica do país e uma estrutura do Estado brasileiro, ficando muito acima das narrativas e interesses políticos do dia a dia.

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