Há ocasiões que me deparo com um ou outro amigo que sente uma saudade imensa do nosso velho e querido Orkut, uma saudade estranha, que goza de determinada falta de correspondência com a rede em si. Talvez sintamos mesmo a falta de escrever recados no mural do perfil alheio, de fazer depoimentos completos, com começo, meio e fim, sobre pessoas que amamos. Comunidades em que participar da conversa muitas vezes significava colocar alguma coisa ali, mesmo que pouca coisa. Era uma internet manual, e principalmente escrita à mão, no sentido em que muitos dos gestos feitos ali exigiam composição com a rolagem de tela e o consumo de conteúdo no segundo plano.
O Orkut também não era santinho. Tinha perfis falsos e abrigava manipulação de informações. O fenômeno já tinha nome em inglês na cultura da rede e era chamado de fake. Em 2018, uma reportagem da BBC Brasil mostrou que, na campanha de 2010, segundo relatos colhidos pela reportagem, quatro pessoas tinham um blogue e perfis falsos no Orkut e no Twitter em defesa da candidatura de Dilma Rousseff; o blogue desqualificava os boatos que circulavam sobre ela e se apoiava numa rede de contas falsas para correr.
Tudo isso havia acontecido muitos anos antes de o termo fake news, anglo-saxão, entrar no nosso vocabulário. Repare só uma coisa. Atrás daquela operação havia gente de verdade escrevendo. Os 131 perfis falsos do Twitter ajudavam a espalhar o conteúdo do blogue e muitos tinham vida própria, com tuítes do cotidiano forjados apenas para alimentar o personagem. A farsa dependia de composições em diversas camadas, num grau muito mais elaborado do que um único texto viralizado.
Uma rede textual
O Orkut nasceu da ambição do engenheiro turco Orkut Büyükkökten no marco do programa de “time off ” do Google (2012). Segundo a narrativa do próprio criador, a infraestrutura para suportar o projeto poderia comportar apenas 200 mil usuários. O limite era técnico, e ele diria mais tarde que desejava uma comunidade do mundo todo. O sucesso foi notavelmente além dessa capacidade inicial, mas por um longo tempo a estrutura manteve uma experiência centrípeta em recados e comunidades. O arranjo mudou. Ao longo da década, o mesmo Orkut testava quantas atualizações de amigos mostrar e disponibilizava reações por emoticon para as postagens alheias, embora o Facebook já tivesse produzido seu botão de like alguns poucos anos antes. Ali, também, a dopamina dos retornos e estímulos rápidos ia engordando.
Parece-me que essa centralidade da palavra escrita foi gradualmente perdendo espaço, à medida que as redes algorítmicas foram decidindo o que deveríamos ver primeiro na tela. Sistemas de ranqueamento, que antes funcionavam de maneira primitiva, foram refinando-se sem que tivéssemos mais de escrever qualquer coisa.
Quando ler ficou à frente de escrever
Um mural do Orkut só existia por um alguém que o escrevesse antes. O recado aparecia como um gênero textual inteiro, se bem breve, e servia para dar boa-noite a um alguém ou para comentar uma foto. O depoimento, por sua vez, era prosa, tinha abertura e despedida, guardava a memória de um evento específico e terminava com uma promessa qualquer de amizade eterna que a maioria de nós não cumpriu. Poucos haveriam de redigir um depoimento em 15 segundos. É nostalgia, eu sei, e descrição de infraestrutura, é claro.No Orkut, uma comunidade funcionava como um fórum, só existindo quando alguém fazia comentário ou resposta. A unidade de troca ali era o texto.
Atualmente, nas redes sociais mais robustas, organizadas pelo tal do feed, vale a reação, o toque duplo na tela, o comentário de duas palavras que, ainda antes de você ter pensado na resposta, o próprio aplicativo já é capaz de lhe sugerir. Uma reação exige muito menos construção textual, do participante, do que um parágrafo.
Este fato, em si mesmo, não é o responsável por condenar o pobre do feed ou o algoritmo. Em 2014, O Facebook informou que, num teste onde exibiu mais atualizações em texto de amigos, usuários passaram a publicar em média 9 milhões de status a mais por dia. Um sistema de recomendação pode indicar quão ou quanto as pessoas escrevem conforme o que se presta a esboçar e valorizar. No meu entender, a perda da arquitetura do Orkut diminuiu a frequência com a qual muitas interfaces foram persuadidas a solicitar texto, sendo a aptidão delas mantidas.
Aonde foi a finitude da página? O dito scroll infinito apresenta outra face do mesmo problema. Ao valorizar a contínua rolagem no lugar do método consciente de clique em “próxima página”, o mecanismo apaga igualmente um sinal natural de interrupção. “Próxima página” não é expressão inocente, viu? É a mesma que utilizamos para prosseguir num livro.
É comum atribuir a invenção ao designer de interface Aza Raskin, apesar de uma equipe da Microsoft ter requerido uma patente sobre a técnica em 2006, ano em que Raskin também dá a data da aplicação do seu próprio método, na pequena empresa Humanized. A ideia era a mais simples, pois Raskin queria eliminar um clique que lhe parecia desnecessário. Hoje, ele arrepende-se publicamente.
Na versão paginada do Orkut, não havia isso de rolagem infinita. O fim de qualquer página representava uma pequena chance de escolha, ou continuar consumindo ou parar por ali. A moda do scroll infinito, que elimina um ponto saída, facilitou evitar esse intervalo. O que fazer com ele, escrever ou fechar a tela, continuaria dependendo de cada um, e a pausa existia.
Escrever sem motivo algum
Quando sentimos saudade do Orkut, a falta é de escrever sem motivação alguma. Um recadinho que não seria analisado por um robô algoritmo. Um depoimento que não tinha de converter ninguém em cliente de nada. Sinto falta de uma internet que ainda me exigia escrever um texto antes de seguir em frente, e a ética pouco entra nessa conta. Também não sou Jesus e não queria ter de buscar seguidores.
O Orkut estava longe de ser santo. Mas para ser parte da conversa de uma comunidade ali, fosse para mentir ou dizer a verdade, era comum quase sempre precisar de escrever alguma coisa antes. Hoje, nas grandes redes de feed algorítmico, muito da convivência pede cada vez menos disso, não é verdade?
Fabrício Zavarise é educador, escritor, palestrante e consultor. Apresenta o e-loquente cast. Mestre em Educação Linguística pela Universidade de Chichester (Reino Unido), especialista em Educação Bilíngue e MBA em Gestão Estratégica & Inteligência Artificial pela UFJF. Discorre sobre linguagem, educação, liderança, inovação e IA. (https://fabriciozavarise.com.br)



