POLÍTICA

Ataques ao STF impulsionam Romeu Zema na corrida presidencial

Aos 61 anos, o administrador Romeu Zema entra na disputa pela Presidência da República como mais um mineiro a tentar chegar ao Planalto. De um estado que já revelou nomes como Juscelino Kubitschek e, mais recentemente, Dilma Rousseff, o atual governador de Minas Gerais decide ampliar seu projeto político em um cenário marcado pela polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Nos últimos dias, Zema ganhou projeção nacional ao protagonizar um embate direto com o Supremo Tribunal Federal (STF).

Zema chamou os ministros do STF de “casta dos intocáveis” e declarou que os magistrados “se julgam acima da lei”. Também defendeu o impeachment de “pelo menos dois” integrantes do Supremo – a prisão de Alexandre de Moraes e Dias Toffoli – e mudanças nos critérios de escolha, como a adoção de uma lista com nomes.

“É uma Corte (o STF) que hoje não tem moral nenhuma para julgar nada. Não vejo Moraes e Toffoli com moral nenhuma para dar nenhuma decisão. São pessoas que estão ocupando cargo e seu tempo com interesse pessoal. Não são servidores públicos”, declarou ele.

Ao longo da semana, o governador intensificou a ofensiva e publicou pelo menos 14 vídeos com críticas ao STF, reunindo trechos de entrevistas, discursos e conteúdos produzidos com uso de inteligência artificial. Em uma das peças, um fantoche de Toffoli pede ao de Gilmar que suspenda a quebra de seus sigilos, determinada pela CPI do Crime Organizado.

Decano da Corte, Gilmar Mendes saiu em defesa do STF e passou a rebater as declarações do governador. O ministro chegou a encaminhar ao colega Alexandre de Moraes uma solicitação para que Romeu Zema seja investigado no inquérito das fake news. Mendes afirmou que a gestão do mineiro “sobreviveu” graças a decisões provisórias do próprio tribunal.

“É chocante ver um governador que levou o Estado a uma debacle econômica sobreviver graças a liminares dadas por este tribunal e depois atacar a Corte”, disse.

Nas críticas ao governador, Gilmar Mendes acabou gerando nova controvérsia ao fazer uma comparação envolvendo a orientação sexual de Zema.

“Se começamos a fazer piadas com coisas sérias, com as instituições, imagine que comecemos a fazer bonecos do Zema como homossexual. Será que não é ofensivo? Ou se fizermos ele roubando dinheiro no estado, será que não é ofensivo? É correto brincar com isso? Homens públicos podem fazer isso? Só essa questão. É isso que precisa ser avaliado”, afirmou o decano do Supremo em entrevista ao portal Metrópoles.

Após a repercussão negativa, o ministro recuou e pediu desculpas publicamente.

“Errei quando citei a homossexualidade ao me referir ao que seria uma acusação injuriosa contra o ex-governador Romeu Zema. Desculpo-me pelo erro”, escreveu o ministro em publicação no X (ex-Twitter).

O confronto acabou ampliando a visibilidade nacional de Zema em um momento de desgaste da imagem do STF. Pesquisa Datafolha divulgada recentemente aponta que 75% dos brasileiros dizem que os ministros têm poder demais, mas 71% consideram que o tribunal é essencial para a proteção da democracia. O levantamento também indica que 75% avaliam que a confiança no STF caiu em relação ao passado.

De acordo com o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, um tracking realizado por um grande banco da Faria Lima aponta que Zema teria dobrado suas intenções de voto. Em simulações de primeiro turno, o governador aparece com 3%. Já em um eventual segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ele teria 36%, contra 43% do petista, segundo o instituto Quaest.

Para o colunista do Estadão, Carlos Andreazza, neste momento, Zema é o pauteiro do debate mais influente na direita brasileira. “Obrigando com que, por exemplo, Flávio Bolsonaro, que jogava parado, tenha que se mexer, se posicionar”, analisou.

Eleito governador de Minas Gerais em 2018 com o perfil de “outsider”, Romeu Zema é filiado ao Novo, formado em Administração pela FGV e com especialização em Harvard. Naquele pleito, venceu de forma expressiva, com cerca de 7 milhões de votos (72%) no segundo turno contra Antônio Anastasia, ex-governador tucano. Com boa aprovação no estado, agora aposta em um desafio ainda maior: a disputa pela Presidência da República.

Deixe uma resposta