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Quem é Paulinho da Costa, o primeiro brasileiro na Calçada da Fama

A consagração de Paulinho da Costa com uma estrela na Calçada da Fama, em Hollywood, nesta quarta-feira (13), é um marco definitivo para a música brasileira no exterior. A cerimônia oficializa a trajetória de um artista que, por cinco décadas, atuou como o arquiteto rítmico de centenas de sucessos globais. O reconhecimento público retira o percussionista da relativa invisibilidade dos estúdios e o coloca ao lado das lendas com quem colaborou diretamente.

Nascido e criado no bairro de Irajá, no Rio de Janeiro, Paulinho transportou a essência das rodas de samba e da bateria da Portela para o epicentro da indústria fonográfica. Sua musicalidade nasceu enquanto transformava objetos como colheres e garrafas em instrumentos de percussão. Essa capacidade de extrair som e ritmo de qualquer elemento se tornou sua marca registrada em Los Angeles.

A jornada internacional do músico começou nos anos 1970, quando ele se mudou para os Estados Unidos como integrante da banda de Sérgio Mendes, pianista, arranjador e produtor brasileiro que teve enorme influência na entrada de músicos brasileiros no mercado americano. Naquele momento, Paulinho rapidamente se consolidou como um dos instrumentistas mais requisitados da indústria musical, acumulando participações em milhares de gravações. Sua habilidade em transitar entre o jazz, o rock, o pop e o soul permitiu que ele colaborasse com artistas de diferentes gerações ao longo da carreira.

O papel de Paulinho nos bastidores era o de um curador de texturas sonoras, dominando uma enorme variedade de instrumentos de percussão, com a sensibilidade de inserir o “molho” brasileiro em hits americanos sem descaracterizar o gênero original. Grandes produtores, como o lendário Quincy Jones, confiavam plenamente em seu instinto, muitas vezes permitindo que o brasileiro criasse arranjos inteiros de percussão sem a necessidade de orientações.

Essa criatividade atingiu o ápice na parceria com Michael Jackson, especialmente no álbum Thriller. Paulinho ajudou a incorporar elementos da percussão brasileira em faixas que se tornaram hinos geracionais, como Wanna Be Startin’ Somethin’ e Billie Jean. Sua presença nos discos do Rei do Pop ajudou a ampliar o alcance internacional da musicalidade brasileira dentro da indústria americana.

Embora o grande público muitas vezes não associe o nome ao rosto, a presença de Paulinho da Costa na cultura pop é indiscutível. Ele esteve em momentos históricos como a gravação de We Are the World e em trilhas sonoras cinematográficas icônicas, de Jurassic Park a Dirty Dancing. Seu trabalho atravessa décadas e continua sendo ouvido diariamente por milhões de pessoas ao redor do planeta.

A honraria recebida em Hollywood carrega também um forte simbolismo de identidade nacional. Paulinho é o primeiro brasileiro nato a ter seu nome gravado na Calçada da Fama. Embora Carmen Miranda tenha uma estrela, a artista era portuguesa de nascimento.

Mesmo com um currículo ligado a inúmeros discos vencedores do Grammy Awards, Paulinho manteve uma postura discreta e focada no ofício. Ele costuma afirmar que o talento por si só é insuficiente, destacando que a excelência exige um nível de dedicação que, muitas vezes, o levava a praticar até que as mãos sangrassem.

O lançamento recente de “The Groove Under the Groove” – documentário disponível na Netflix, que narra a trajetória de Paulinho – ajudou a lançar luz sobre essa trajetória, revelando os bastidores de um homem que uniu o subúrbio carioca ao brilho de Hollywood.

A estrela na Vine Street, posicionada próxima ao prédio da Capitol Records, simboliza uma carreira construída nos bastidores de alguns dos maiores sucessos da música pop. Paulinho da Costa ajudou a definir a sonoridade de uma era e levou o orgulho do Brasil para o centro da indústria cultural mundial. Como ele mesmo declarou de forma generosa, aquele pedaço de bronze pertence a todos nós, celebrando a força da cultura rítmica brasileira no palco mais famoso da Terra.

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