Nem aluguel, nem imposto: o valor exigido pelo tráfico virou mais uma despesa fixa para comerciantes da Avenida Vasco da Gama, uma das vias mais movimentadas de Salvador. Segundo denúncias, traficantes do Comando Vermelho (CV) cobram, há mais de dois anos, uma espécie de “pedágio” para autorizar o funcionamento de estabelecimentos na região. A taxa varia conforme o número de portas do imóvel, e o esquema seria coordenado pelo traficante Kleber Nóbrega Pereira, o “Kekeu”.
De acordo com comerciantes ouvidos sob condição de anonimato, a prática criminosa ocorre desde o início de 2024, mesmo após operações policiais e prisões de integrantes da facção. Apesar da ofensiva das forças de segurança, moradores e empresários afirmam que o tráfico reorganizou rapidamente a estrutura e passou a intensificar as cobranças ilegais.
A extorsão é semanal, varia entre R$ 100 e R$ 400, e o pagamento é feito em dinheiro vivo — o Pix teria sido abolido para evitar rastreamento da polícia. Para definir o valor da taxa, o CV leva em consideração a quantidade de portas do imóvel comercial. “Tem comerciante que funciona com apenas uma porta aberta, porque, se abrir as demais, não consegue pagar”, relata uma fonte.
Até o momento, não existe levantamento público oficial e atualizado indicando exatamente quantos pontos comerciais existem nos cinco quilômetros de extensão da Avenida Vasco da Gama, via que liga a região do Rio Vermelho ao Dique do Tororó e atravessa bairros como Federação, Engenho Velho da Federação, Engenho Velho de Brotas, Brotas e Acupe de Brotas.
Pela extensão, densidade urbana e concentração de comércio, estimativas informais apontam que a avenida reúne centenas de estabelecimentos, entre mercados, farmácias, oficinas, bares, restaurantes, lojas de autopeças, clínicas, galerias, pequenos centros empresariais, depósitos e diversos tipos de serviços.
Coleta
Apesar de os relatos apontarem que as extorsões ocorrem em praticamente todo o sentido Rio Vermelho — já que a avenida corta comunidades controladas pelo CV, como Forno e Canjira, no Engenho Velho da Federação —, a reportagem encontrou denúncias principalmente nos trechos após a entrada do Vale da Muriçoca e no sentido oposto, até o acesso ao Horto Florestal.
Os valores são recolhidos pelos próprios traficantes ou por intermediários. “Primeiro, eles mandam moleques darem o recado. Depois, ligam avisando que vão passar na loja. Dias depois, homens chegam para fazer a coleta”, conta uma das vítimas.
Foi dessa forma que aconteceu em uma loja de tintas há cerca de um mês. “Após os avisos, dois caras chegaram exigindo o valor, mas o dono não estava. Eles disseram que iam voltar”, relata um funcionário, sem dar mais detalhes.
Os empresários afirmam que vivem sob ameaça constante. “Aqui, todo mundo paga. Loja de baterias, oficinas, bares… Quem vai arriscar?”, relata um morador. Quem se recusa a pagar está sujeito a arrombamentos, depredações e até expulsão do ponto comercial.
Há menos de dois meses, uma loja de autopeças para motos e outra de estofados fecharam as portas. “Queriam R$ 400 por semana, e os comerciantes desistiram, porque teriam que pagar ao tráfico cerca de R$ 2 mil por mês, o mesmo valor do aluguel”, conta um comerciante.
Segundo a fonte, a alternativa para muitos é migrar para áreas dominadas pela facção rival do grupo carioca. “Quem pode está saindo daqui e indo para a região do HGE ou para o Dique, porque lá é área do BDM (Bonde do Maluco), que não cobra pedágio, pelo menos até agora”, revela.
Em nota, a Polícia Civil informou que “a 7ª Delegacia Territorial (DT/Rio Vermelho) não tem registros atuais dos crimes mencionados e informa que os casos ocorridos no período citado foram elucidados”. “Os integrantes do grupo que se passavam por membros de uma organização criminosa, para cometer as extorsões, foram indiciados e presos. As investigações não apontaram a atuação de liderança criminosa sobre o grupo preso”, diz a nota.




