O número de agentes de segurança baleados em Salvador e Região Metropolitana aumentou em 85% este ano. Foram 13 registros entre 1º de janeiro e 18 de março, quase o dobro do mesmo período de 2025, quando sete profissionais foram atingidos por disparos de arma de fogo. Os dados são de um mapeamento feito pelo Instituto Fogo Cruzado.
Entre os policiais baleados em 2026, quatro morreram e nove ficaram feridos. Dos 13, nove foram atingidos durante o serviço. Um deles foi o cabo Glauber Rosa, morto após ser baleado na cabeça num confronto no Vale das Pedrinhas, em Salvador, no dia 3 de fevereiro.
Descrito por colegas como um profissional comprometido e respeitado, Glauber tinha 42 anos, era pai de uma menina de oito anos e um menino de três e, além da atuação na PM, trabalhava também como mecânico.
Alaice Gomes, presidente da Associação de Praças da Polícia e Bombeiro Militar da Bahia (APPM-BA), defende que o aumento expressivo no número de agentes baleados não pode ser tratado como algo “normal, eventual ou pontual”. Segundo ela, esse número reflete a necessidade de proteção e respaldo institucional aos policiais e evidencia falhas no sistema.
“Quando o policial não tem as condições ideais de trabalho, toda a estrutura da segurança pública é impactada. É preciso dizer com clareza: os policiais militares, especialmente as praças que estão na linha de frente, seguem enfrentando uma realidade de exposição extrema sem a devida contrapartida. Não recebem adicional de periculosidade e continuam sendo a única categoria da Secretaria da Segurança Pública a não receber os 125% da Condição Especial de Trabalho. Isso é um ponto grave de desigualdade e desvalorização”, diz.
O levantamento do Fogo Cruzado mostrou ainda que todos os agentes baleados em serviço pertencem ou pertenciam a unidades especializadas, como Rondesp Central, Rondesp Atlântico e Batalhão Gêmeos.
Segundo Alaice, a APPM-BA reconhece os avanços na modernização de equipamentos, mas o necessário ainda está distante. Para ela, uma saída para que os agentes tenham melhores condições de trabalho é a ação estruturada e firme, além de um maior investimento do Estado em tecnologia, inteligência policial, equipamentos adequados e treinamento contínuo.
“Mas não se trata apenas de estrutura operacional. Também é indispensável avançar na valorização profissional e salarial, melhorar as condições de trabalho e garantir suporte psicológico permanente. Um profissional que arrisca a vida todos os dias precisa ter respaldo institucional, reconhecimento e proteção”, afirma.
Procurada pela reportagem, a Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia (SSP-BA) afirmou, em nota, que “nos últimos três anos, cerca de R$ 1,2 bilhão de reais foi investido pelo Governo do Estado em novas estruturas, modernos equipamentos de proteção individual, entre eles viaturas semiblindadas, armamentos e coletes balísticos, além de cursos que qualificam o combate ao crime organizado e atendimento da população”.
A pasta destacou ainda que continuará investindo na proteção dos “homens e das mulheres que promovem ações ostensivas e investigativas visando a promoção da paz social e manutenção da ordem”.
Sistema reforça violências
De acordo com Dudu Ribeiro, integrante da Rede de Observatórios da Segurança na Bahia, cofundador e diretor-executivo da Iniciativa Negra por uma Nova Política de Drogas, a quantidade expressiva de agentes vítimas de disparos está relacionada à lógica de guerra exercida pela polícia, que atua com “distribuição dos recursos no front, ocupação de territórios e criação de possibilidade de conflito e utilização da força letal como um expediente regular”. Segundo ele, a intensidade dessa prática provoca um efeito rebote sobre as próprias forças de segurança.
“A alta taxa de letalidade provocada pelos agentes de segurança também pode se refletir na taxa de violência contra esses próprios agentes. Primeiro devido à altíssima exposição a cenários de conflito. Segundo porque a morte de uma pessoa no cenário de guerra muitas vezes gera um efeito de vingança sobre agentes específicos que cometeram aqueles atos. Então, se a gente intensifica – e o Estado tem intensificado – a lógica de ocupação de territórios e criação de zonas de conflito, isso expõe mais os agentes a episódios de violência”, diz.
Ele afirma que é essencial investir em inteligência e em treinamentos que prevejam não apenas a utilização de armamento, mas a mediação de conflitos de maneira mais organizada e pacífica.
“Isso reduz a necessidade imediata da utilização da força letal, protege os agentes de segurança, protege as comunidades afetadas e garante o cumprimento do devido processo legal. É necessário também a aquisição e ampliação imediata das câmeras corporais dos agentes, o que também cria cenários de segurança tanto do ponto de vista jurídico quanto do ponto de vista físico das pessoas envolvidas”, defende.




