Você pode ter medo, não gostar e achar ridículo. Direito seu. Do mesmo modo, eu tenho o direito de achar queima de espadas uma das coisas mais lindas do mundo. É ancestralidade que chama e isso não é força de expressão. Essa é uma tradição centenária e um referencial identitário profundo em cidades baianas como Cruz das Almas, Senhor do Bonfim, Muritiba, Governador Mangabeira e Sapeaçu. Você gostando ou não. Só que o que deveria ser visto como um patrimônio, foi transformado em crime em 2011 (Cruz das Almas) e em todo o estado em 2017, num processo conduzido sem debate público. No entanto, mesmo ilegal, a prática nunca cessou. O único efeito objetivo é que a clandestinidade transformou o “balé de fogo” em um cenário infinitamente mais perigoso. Explico.
A primeira coisa é que até 2011, a gente sabia quando e onde aconteceriam as queimas, então todo mundo já saía de casa avisado. Quem gostava, pra ir pra dentro. Quem não gostava, pra desviar o caminho. Com a proibição, perdemos a previsibilidade. Hoje, tratados como marginais e fugindo da polícia, os espadeiros se encontram em locais e horários muitas vezes imprevisíveis, deixando moradores e patrimônio muito mais vulneráveis a acidentes. Ainda que a repressão policial exista, ela é ineficaz diante do apoio massivo da população que, evidentemente, protege os espadeiros. Fora que tem muito policial espadeiro, o que torna tudo ainda mais insólito e teatral.
A criminalização também provocou um êxodo de fabricantes sérios, detentores de um conhecimento técnico centenário. Muitos desses profissionais se retiraram da prática por medo de prisões e humilhações públicas. Esse vácuo de conhecimento foi preenchido por jovens menos experientes, que muitas vezes fabricam artefatos sem o rigor necessário. Fazer espadas é uma arte extremamente delicada, uma cultura passada de forma oral e prática, de geração para geração. Não há um manual escrito, uma receita padrão. Com isso, a qualidade despencou, o que também significa perigo. Espada não é pra explodir, por exemplo. Nem pra subir como se fosse foguete, atingindo telhados a metros de distância. Depois da proibição, esses defeitos – que eram raros – ficaram muito comuns.
Outra coisa: como as apreensões de materiais e produtos prontos, no período que antecede o São João, são frequentes, os espadeiros passaram a fabricar novas espadas às pressas e em locais improvisados. Observe que uma espada bem feita exige mais de 20 etapas e semanas de preparo. Além da inexperiência, a produção apressada também gera artefatos instáveis, muito mais perigosos do que os que são fabricados com tranquilidade, sob o tempo da tradição. Esse perigo não afeta apenas quem acende a espada, mas qualquer pessoa que passe por perto, por exemplo, durante uma explosão.
Outro efeito colateral perverso da proibição é o abandono dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). Embora roupas de jeans pesado, couro, capacetes, luvas e botas sejam fundamentais para evitar queimaduras e minimizar possíveis impactos, muitos praticantes agora evitam usá-los para não chamar a atenção da polícia. Quando tocar espadas não era crime, ostentar esse “fardamento” era motivo de orgulho. A gente gostava de ser visto usando aquele figurino que gerava identidade e aproximação com outros espadeiros. Hoje, a tentativa de “camuflagem” para evitar o flagrante deixa o corpo do espadeiro exposto, em uma vulnerabilidade desnecessária.
(Eu nunca havia brincado com espadas sem o traje apropriado até que elas foram proibidas, nós deixamos de ter em casa e a possibilidade de entrar numa queima passou a ser uma questão de sorte. Ninguém sai de casa vestido para uma possibilidade remota. Porém, se a oportunidade surge, tô pra ver um espadeiro que vai desperdiçar.)
Junto com a flexibilização dos EPIs, todo um código de conduta também foi flexibilizado. Quando você vê esses vídeos de gente botando espada na boca, na cabeça, deitando no chão com espadas… é uma quebra completa dos códigos que sempre orientaram a prática. Era raro ver gente se comportando desse jeito irresponsável. Quando a gente via, se afastava. O jeito de segurar o artefato, o momento de soltar, há toda uma coreografia, uma técnica que se aprende ao longo da vida. Isso inclui até de que maneira se locomover no meio da queima. Fato é que, seguindo o protocolo, nunca, entre os meus, houve qualquer acidente grave.
Historicamente, a espada é uma evolução técnica do antigo busca-pé, redesenhada justamente para ser menos perigosa, eliminando a explosão final e permitindo a interação lúdica, aquela “dança” no fogo, a proximidade com aquele “rabo” de luz e com aquele som que, pra nós, são mágicos. O artefato, feito de bambu, pólvora, barro e limalha, é fruto de um saber que remonta a 1930. Com o uso de EPIs e o comportamento adequado, os riscos ainda existem, mas são bastante minimizados. “Mas quem não gosta não quer correr risco nenhum”, você pensa já um pouco irritado. Justíssimo! E pra isso também tem solução.
O exemplo de Senhor do Bonfim mostra que o caminho é a regulamentação, não o teatro patético da proibição. Em 2025, um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) histórico uniu o Ministério Público, a Associação de Espadeiros e forças de segurança para legalizar a prática. O acordo prevê a criação do “Espadódromo”, um local isolado com distanciamento rígido de áreas sensíveis, garantindo que o direito à manifestação cultural não fira o direito à paz de quem não quer participar. Não é perfeito? Pois melhora ainda mais.
Para que a segurança seja ainda maior, a regulamentação exige o uso de artefatos certificados, produzidos em fábricas registradas e autorizadas pelo Exército. Isso elimina o perigo das espadas caseiras feitas às pressas, garantindo ao praticante direitos de consumidor e a certeza de que o material funcionará corretamente. Além disso, o protocolo inclui barreiras de concreto, brigadistas e unidades de saúde de prontidão no local. Aí você pensa “mas vai deslocar esses profissionais todos só para o prazer de alguns?”. Preconceito seu, né? Porque Carnaval, Fórmula 1, campeonato de surfe… tudo isso mobiliza o Estado pelo prazer de alguns. “Mas esses eventos geram receitam pro município”, você rebate. Oxe, e por que as espadas não gerariam?
Conheça o exemplo de Estância, em Sergipe. Nossos vizinhos provam que a organização profissional transforma a queima em um espetáculo que movimenta a economia e o turismo. Lá, dezenas de fabricantes especializados manuseiam toneladas de pólvora com maestria e milhares de espadeiros participam da queima, provando que o risco da espada – assim como tantos outros – pode ser gerenciado. O modelo sergipano reforça que a queima de espadas, quando respeitada e organizada, é um belíssimo espetáculo e não um caso de polícia.
Está na hora de abandonar uma estratégia que fracassou. Quinze anos depois, a queima de espadas continua existindo por todo o Recôncavo. A diferença é que hoje acontece com menos controle e muito mais riscos. Os exemplos de Senhor do Bonfim e Estância mostram que regulamentar é reconhecer a realidade para proteger vidas, preservar uma tradição e devolver ao Estado a possibilidade de organizar aquilo que nunca conseguiu – nem conseguirá – impedir. Regulamentadas, as espadas podem gerar emprego, renda e um fluxo turístico que só nós, em todo o mundo, sabemos como fazer.




