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Casas Bahia deve R$ 17,3 bilhões: como a gigante do varejo chegou a esse ponto?

O Grupo Casas Bahia voltou à Justiça apenas dois anos depois de concluir uma recuperação extrajudicial que havia reestruturado R$ 4,8 bilhões em dívidas. Agora, a varejista enfrenta uma situação ainda mais delicada: o pedido de recuperação judicial chega acompanhado de R$ 17,3 bilhões em dívidas, patrimônio líquido negativo e um prejuízo bilionário no balanço.

Do total devido, R$ 16,4 bilhões — ou 94,8% — estão nas mãos de credores sem garantia. No segundo trimestre de 2026, a companhia registrou prejuízo contábil de R$ 10,1 bilhões, sendo R$ 9,1 bilhões relacionados a efeitos não recorrentes. Mesmo quando esses efeitos são retirados da conta, a perda ajustada foi de R$ 978 milhões.

O tamanho do problema fica ainda mais evidente quando comparado ao valor da própria companhia no mercado. Na manhã em que entrou com o pedido, a Casas Bahia tinha valor de mercado próximo de R$ 660 milhões. Isso significa que a dívida declarada equivalia a aproximadamente 26 vezes o valor da empresa na Bolsa.

A recuperação judicial interrompe a corrida dos credores e cria espaço para renegociar o passivo. Mas há uma diferença importante: a proteção judicial pode aliviar a dívida, mas não recupera automaticamente vendas, margens, caixa ou competitividade. É justamente aí que está o maior desafio da varejista.

Por que a Casas Bahia chegou novamente à Justiça?

Na avaliação de Matheus Matos, sócio da MA7 Capital, a crise atual reúne três fragilidades estruturais. A primeira está na gestão. Segundo o especialista, a sucessão da família Klein e as mudanças posteriores de controle não foram capazes de produzir continuidade estratégica suficiente para adaptar o negócio às transformações do mercado.

A segunda pressão vem dos juros. Com a Selic em 14%, o custo para financiar estoques e capital de giro aumenta. Ao mesmo tempo, consumidores de menor renda perdem capacidade de comprar móveis e eletrodomésticos parcelados, justamente uma área importante para a varejista.

A terceira fragilidade está na transformação digital. Mesmo depois de investimentos em tecnologia, a empresa não teria conseguido acompanhar no mesmo ritmo a expansão de plataformas como a Amazon e a mudança no comportamento de compra dos brasileiros. Na avaliação de Matos, a recuperação judicial pode alongar as dívidas e aliviar o caixa, mas não resolve sozinha nenhum desses três problemas. “Estão ganhando tempo. Na minha opinião, o modelo de negócio deles é só ganho de tempo”, afirma.

R$ 1 bilhão para manter a operação de pé

Uma das principais apostas para atravessar o período de recuperação será a obtenção de aproximadamente R$ 1 bilhão por meio de um DIP Finance, operação negociada com Banco do Brasil, Bradesco e outros credores. O valor representa cerca de 5,8% da dívida declarada. O objetivo, porém, não é liquidar o passivo, mas financiar a operação enquanto a empresa estiver protegida pelo processo judicial.

A necessidade de dinheiro novo aparece também nos estoques. No segundo trimestre, o volume de mercadorias caiu mais de 20%, enquanto o prazo médio de disponibilidade recuou de 95 para 75 dias. Na prática, a redução limita a capacidade da companhia de abastecer lojas físicas e canais digitais.

O dinheiro do DIP pode, portanto, ajudar a recompor estoques, preservar fornecedores e evitar que a falta de produtos acelere a queda das vendas. Mas existe uma diferença entre financiar a operação e tornar o negócio novamente saudável.

O DIP funciona como uma ponte. Se os recursos servirem apenas para manter as lojas e os canais funcionando, sem que a companhia consiga voltar a gerar caixa e rentabilidade de forma recorrente, a Casas Bahia poderá chegar ao fim dessa ponte diante do mesmo problema estrutural — só que com menos alternativas.

O tempo virou o principal ativo da empresa

A recuperação judicial dá à Casas Bahia algo que pode ser tão importante quanto o dinheiro: tempo para tentar mudar o negócio. Para Matos, esse período será decisivo. A empresa precisará transformar o alívio financeiro em uma mudança estrutural, com uma gestão mais eficiente, operação digital fortalecida, recuperação das margens e retomada da geração de caixa.

“A recuperação judicial pode dar fôlego, alongar dívidas e impedir uma paralisação imediata, mas não salva, por si só, um modelo que perdeu competitividade”, afirma. O desafio é fazer essa transformação antes que a empresa perca ainda mais espaço para os concorrentes e seu valor continue diminuindo.

Venda ou falência entram no radar

Se a reestruturação conseguir recuperar a operação, a recuperação judicial poderá cumprir seu papel e abrir caminho para uma nova fase da companhia. Se isso não acontecer, porém, as alternativas ficam cada vez mais restritas.

Na avaliação do especialista, dois caminhos podem ganhar força caso não haja uma recuperação operacional: a venda da companhia a um concorrente ou investidor, por meio de uma operação de M&A, ou a falência, caso não exista comprador disposto a assumir o negócio e nem um plano economicamente viável.

“A Casas Bahia precisa usar esse tempo para modernizar a gestão, fortalecer a operação digital, recuperar margens e voltar a gerar caixa. Se essa transformação não acontecer com rapidez, a empresa continuará perdendo espaço para concorrentes e chegará ao fim do processo valendo menos”, conclui Matos.

A nova recuperação judicial, portanto, não representa necessariamente o fim da Casas Bahia — mas tampouco significa que a empresa esteja salva. O processo compra tempo. O que ainda falta provar é se esse tempo será suficiente para reconstruir o negócio.

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