BAHIA POLÍTICA

O desastre do processo de escolha da candidatura do PT à Prefeitura de Salvador

Por : Patricia Valim

O processo de escolha da candidatura petista à prefeitura de Salvador terminou ontem, último domingo de abril, em plena pandemia do coronavírus, durante um encontro internético restrito aos dirigentes petistas dos diretórios municipal e estadual e presidentes das zonais, que não foram eleitos com esse objetivo no último PED. Com 32 votos para a Major Denice Santiago e à revelia dos 13 corajosos membros do diretório que votaram na Socióloga Vilma Reis e no ex Ministro da Cultura Juca Ferreira, o diretório municipal do PT de Salvador decidiu pelo projeto de militarizar a política do município, um dos mais violentos do país em termos de genocídio da população negra, com boa parte das denúncias recaindo justamente sobre a PM, corporação da candidata escolhida.

Esse processo todo foi desde o início muito violento, autoritário e até perverso. Violento porque acreditávamos que o silêncio da candidata escolhida durante a quarentena, com o índice de violência nas comunidades aumentando exponencialmente, era porque ela estava preparando um plano de governo para a cidade e se preparando para debatê-lo com a militância e os demais pré-candidatos. Infelizmente, a major Denice Santiago perdeu a chance de mostrar para a militância as razões pelas quais ela é a candidata dos mandatários do partido. Mas ela não se preparou o debate, não apresentou nenhuma proposta concreta para a cidade e não apareceu ao debate das pré-candidaturas, alegando que tinha um compromisso naquela mesma hora. A candidata tinha tanta certeza que seria a escolhida que nem se deu ao trabalho de se preparar e achou tranquilo desrespeitar os colegas pré candidatos e petistas decanos do partido que ela se filiou há um mês.

Autoritário porque os dirigentes do partido, essa heteronormatividade branca e anacrônica que comanda os diretórios municipal e estadual do PT/BA precisou usar todo tipo de dispositivo para silenciar a pré-candidatura de Vilma Reis que saiu do movimento de mulheres e da turma “eu quero ela” da bancada do feijão absolutamente articulada com os movimentos sociais e foi crescendo e se desenvolvendo e se legitimou como candidata politicamente na cidade, no estado e no país. Vilma Reis obteve apoio de artistas, intelectuais e políticos decanos do PT no país inteiro. Razão pela qual os dirigentes do partido precisaram forjar uma candidatura que eles pudessem controlar e que fosse à imagem e semelhança de Vilma Reis: mulher, negra, feminista. E no sétimo dia encontraram na major todas as características necessárias para continuarem controlando o partido e a candidatura dela. Violência maior não há, já escrevi em outra ocasião.

O fato é que a força da candidatura de Vilma Reis é tal e abalou de tal sorte as estruturas do PT da Bahia que logo após o anúncio da vitória de Pirro da Major Denice a coordenação de sua pré-candidatura  PLAGIOU o slogan da campanha de Vilma Reis: #AgoraÉEla na tentativa de forjar uma aproximidade que não existe ao se apropriar indevidamente do capital político (e simbólico) de Vilma Reis para tentar transferir apoios e votos para a major sob a falácia da “unidade” – a prima pobre da “governabilidade”, lembram? Como bisneta de italianos da região da Calábria me lembrei de um ditado que minha avó sempre repetia: quem não sabe aproveitar uma vitória, não merece ganhar. O que vale afirmar que além do autoritarismo de um processo cheio de manobras que resultou na vitória de uma candidata sem legitimidade social e política, a corrente majoritária do PT/BA resolveu terminar o dia provocando a militância.

Cálculo político é pra quem sabe fazer! Escrevo isso porque se é verdade que a Major Denice foi escolhida pelos dirigentes do PT/BA à revelia da militância, também é verdade que a Major só conseguirá ir para o segundo turno com o engajamento dessa mesma militância apartada do processo. Nada indica que isso irá acontecer. Por isso, e agora, o que devemos fazer como militantes? Será possível construir a unidade com quem provoca o grupo que perdeu? Será possível construir a unidade em torno de um projeto que não foi escolhido por meio de um processo democrático e pela maioria do partido? Será possível construir um projeto em torno de uma candidata sem legitimidade política e que vai agir conforme os projetos dos dirigentes do partido? Por fim: será possível construir a unidade em torno de um projeto que irá militarizar a política de um partido de esquerda e que irá penalizar mais ainda a população negra, pobre e vulnerável do município?

Pois em verdade vos digo, companheiros e companheiras, quem obteve uma vitória de Pirro com essa candidatura precisa construir a unidade ao passo que nós que lutamos pelas pré-candidaturas de Vilma Reis e Juca Ferreira podemos nos juntar, somar esforços, fortalecer nossas candidaturas para a vereança e disputar o PT, esse partido que foi e tem sido construído por todos nós. E o nome disso é resistência, eles sabem. À luta por um PT radicalmente democrático.

Professora de História do Brasil Colonial da Universidade Federal da Bahia. Conselheira do Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Perseu Abramo
Fonte: Brasil247

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