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Nem funk e nem trap: jovens brasileiros estão ouvindo um tipo de música que você nem imagina

“Ela consegue me transportar, pegar os meus sentimentos e transmutar essa minha emoção. Se estou sentindo angústia ou tristeza, consigo espairecer e me entender por meio da música”. A declaração poderia estar em uma carta de amor, mas foi dessa forma que a estudante Cecília Barboza explicou o seu encanto pela música clássica.

Apesar do senso comum considerar o interesse como insólito, a baiana de 20 anos não é a única jovem que se interessa por música clássica no Brasil. De acordo com o relatório Classical Pulse 2026, produzido pela série de concertos Candlelight, os jovens brasileiros estão entre os públicos mais engajados com música clássica no mundo.

O estudo analisou hábitos de mais de 8 mil pessoas em dez países e aponta que 96% dos brasileiros das gerações Z e Millennials – o que compreende pessoas entre 16 e 45 anos – que já tiveram contato com concertos assistiram a pelo menos uma apresentação no último ano, colocando o país entre os mais ativos no consumo do gênero.

Cerca de 15% dos indivíduos da Geração Z e Millennials se identificam como seguidores dedicados da música clássica. Esse engajamento é quase o dobro do registrado na Geração X e o triplo dos Boomers. Para Carlos Prazeres, maestro e diretor artístico da Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba), esse cenário faz todo o sentido.

“Há tempos venho observando com muito otimismo esse interesse crescente dos jovens pela música de concerto”, afirma o maestro. Ele defende que a música clássica é profundamente subversiva, o que dialoga diretamente com a forma como o jovem enxerga o mundo. Longe de uma ideia apenas “angelical”, ele ressalta que esse universo é cheio de conflito, intensidade e drama.

Como exemplo, o maestro compara a tensão das guerras napoleônicas nas sinfonias de Ludwig van Beethoven ou o drama de Romeu e Julieta nas visões de Pyotr Ilyich Tchaikovsky e Sergei Prokofiev com as emoções despertadas nas composições de John Williams para os filmes E.T., Star Wars e Harry Potter. “É um universo denso, potente e absolutamente atual. Está pronto para chegar às novas gerações. A questão não é o conteúdo, é a forma de apresentar”, pontua.

Uma prova viva dessa atração é justamente a jovem Cecília. Por influência da mãe, começou aos dois anos e aos seis já estava aprendendo a tocar piano. Com o crescente interesse pelo mundo musical, a aproximação com a Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba) foi natural. Atualmente, Cecília faz parte do Osbafã, o fã-clube da Osba.

“Minha mãe sempre gostou de me levar nos concertos, tanto da Osba, quanto do Neojiba, quanto qualquer outro que viesse a aparecer aqui em Salvador. Então, eu fiquei muito próxima da música clássica por conta disso”, conta.

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Quando tinha 17 anos, a mãe Cintya entrou em contato com a Osba e contou que a filha queria comemorar o aniversário em uma apresentação do grupo. A surpresa não só aconteceu, mas também contou com a orquestra tocando um “parabéns” especial para a jovem. “Foi muito especial, porque eu pude levar meus amigos que não são muito fãs. Terminaram gostando”, revela rindo.

O levantamento também indica mudanças no comportamento do público. No Brasil, 30% demonstram maior interesse por concertos que misturam estilos musicais, enquanto 29% preferem apresentações com efeitos visuais e 19% se interessam por locais não convencionais, como museus e espaços históricos.

Para o público jovem, os concertos não são apenas eventos, mas sim conteúdos para participar, postar e compartilhar. As redes sociais (61%) são a fonte mais comum de descoberta, seguidas pelo boca a boca (47%) e pelas plataformas de streaming (38%). Além do Brasil, somente o México contou com maior participação das redes sociais entre os países analisados.

Apesar do alto interesse, o acesso ainda é apontado como principal desafio. Entre os que nunca foram a um concerto, 42% citam a falta de eventos próximos, 24% mencionam o preço dos ingressos e 18% afirmam não ter conhecimento suficiente sobre música clássica.

Fundador e diretor-geral do NEOJIBA, o maestro Ricardo Castro destacou que é importante relativizar os números. Para ele, as maiores concentrações de jovens praticando música estão nos contextos das igrejas evangélicas, o que explicaria os resultados.

“O que vemos no Brasil é um crescimento importante, mas ainda muito concentrado em iniciativas específicas e não necessariamente refletindo uma mudança estrutural no conjunto da sociedade. Por outro lado, há sim sinais positivos. Quando há acesso, qualidade e propósito, o interesse dos jovens surge com força. O engajamento existe, mas ele depende diretamente das oportunidades oferecidas”, explica.

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