Pior do que receber a notícia da morte é viver sem notícia alguma. Na Bahia, 633 pessoas foram registradas como desaparecidas apenas entre janeiro e fevereiro deste ano. Os dados mantêm o estado na liderança no Nordeste pela quinta vez consecutiva e revelam um cenário que mistura conflitos familiares, sofrimento psíquico e violência urbana — esta última, a face mais grave.
Na Região Metropolitana de Salvador (RMS), ao menos seis ocorrências foram contabilizadas no período. Parte desses casos, no entanto, não teve detalhes divulgados publicamente, o que evidencia lacunas de informação e possível subnotificação.
De acordo com o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), a Bahia já ocupava a primeira posição no mesmo recorte em 2022, com 538 casos. Em 2023, foram 587 registros; em 2024, 638; e, no ano passado, 689. A média dos últimos cinco anos chega a 617 desaparecimentos no primeiro bimestre.
Durante todo esse período, o estado permanece à frente de Pernambuco e Ceará, que apresentam médias de 432 e 374 casos, respectivamente.
No entanto, quando se analisa o número de pessoas localizadas no mesmo intervalo, a Bahia fica atrás dos dois estados. O valor médio é de 140 registros, enquanto o Ceará lidera com 234 ocorrências e Pernambuco aparece em seguida, com média de 168.
No cenário nacional, a Bahia ocupa a sétima posição em número de desaparecimentos no primeiro bimestre, atrás de São Paulo (3.280), Minas Gerais (1.540), Rio Grande do Sul (1.384), Rio de Janeiro (1.150), Paraná (983) e Santa Catarina (805).
“É importante perceber que há fenômenos diferentes reunidos em um mesmo número de desaparecimentos. O governo brasileiro, recentemente, passou a reconhecer de forma autônoma o crime de desaparecimento forçado, cometido por agentes do Estado. Isso precisa ser observado como um dos desafios da segurança pública”, afirma o cofundador e coordenador executivo da Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas, Dudu Ribeiro, integrante da rede de Observatórios de Segurança.
Como exemplo, Ribeiro cita o caso de Davi Fiúza. Em 2014, o adolescente de 16 anos foi levado durante uma abordagem da Polícia Militar no bairro de Vila Verde e nunca mais foi visto. “Após dez anos de sofrimento da família na Justiça Militar, o processo foi para a Justiça Comum, reiniciando um ciclo de violência institucional. Sabemos que Davi foi vítima desse modelo de segurança pública, que também produz desaparecimentos forçados”, diz.
RMS
Em março deste ano, a adolescente Maria Eduarda da Cruz de Pinho, de 14 anos, foi localizada após uma semana desaparecida em Dias d’Ávila, na RMS. Ela havia saído de casa para encontrar amigos e foi encontrada em uma rodovia, ainda no município, com sinais de violência física e psicológica.
“Equipes da Delegacia Territorial de Dias d’Ávila, com apoio do Departamento de Polícia Metropolitana (Depom), seguem investigando as circunstâncias do desaparecimento, bem como a identificação de envolvidos. Desde o registro, foram coletados depoimentos, realizadas diligências de campo e análises de dados digitais”, informou a Polícia Civil.
Outras vítimas, no entanto, não tiveram o mesmo desfecho. O corpo do mecânico Matheus Balbino Rodrigues dos Santos, de 29 anos, foi encontrado no dia 26 de janeiro, em uma área de mata próxima à ponte de Nova Dias d’Ávila. Dois dias antes, ele havia saído de casa, em Camaçari, para encontrar um suposto cliente interessado na compra de uma peça automotiva.
Segundo familiares, Matheus foi atraído para uma emboscada. Ele teria sido abordado por três homens armados, que o obrigaram a abandonar a motocicleta e entrar em um carro.
“Há também os desaparecimentos ligados às disputas entre organizações criminosas, especialmente no tráfico de drogas e armas. É fundamental cobrar do Estado investimentos em investigação e inteligência, além de mais celeridade da Justiça, para evitar a continuidade do sofrimento das famílias”, pontua Dudu Ribeiro.
Há cerca de uma semana, a família de Gabriel Araújo Dias buscava informações sobre seu paradeiro. Ele teria desaparecido após sair para usar drogas com dois homens não identificados. O corpo foi encontrado no dia 20 de fevereiro, na Estrada da Beribeira, em uma área de mata em Camaçari.
Apesar do estado avançado de decomposição, a mãe reconheceu o corpo pelas roupas — as mesmas usadas no dia do desaparecimento. A confirmação oficial, no entanto, depende de exames do Departamento de Polícia Técnica (DPT).
Outro caso emblemático é o do mineiro Daniel Gondim, de 25 anos. Objetos atribuídos à vítima e estojos de munição encontrados ao lado de uma ossada humana são considerados fortes indícios de que os restos mortais possam ser do jovem, desaparecido desde 8 de outubro do ano passado na Ilha de Itaparica.
A ossada foi localizada no dia 16 de janeiro, em Mar Grande. A suspeita é de que o crime tenha sido cometido por traficantes, mas a identificação oficial ainda depende de laudo pericial. Os demais episódios de desaparecimentos foram mencionados por moradores de Camaçari.




